Entrevista

Iuri Kruschewsky encerra trilogia dos sonhos com Pesadelo

Fazem dois anos que o então ator Iuri Kruschewsky (de “Porcos com Asas”) estreava como dramaturgo e diretor. A peça era “É Culpa da Vida Que Sonhei ou Dos Sonhos Que Vivi”, originada em âmbito acadêmico em 2010. É sobre um escritor sem capacidade de distinguir realidade e criação literária. Na época, ele não tinha como prever, mas o projeto frutificaria. A temporada durou cinco meses e deu início à chamada Trilogia dos Sonhos, que chega ao fim neste ano com a temporada de “Pesadelo”, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá. O novo espetáculo encerra um ciclo temático para Iuri e para a Cia. Sala Escura de Teatro. “Foram quatro anos trabalhando continuamente nessa pesquisa. Precisamos de novos ares!”, confessa ao Teatro em Cena.

(Foto: Ícaro Salek)

(Foto: Ícaro Salek)

Filho de psicanalista, o mergulho no universo onírico foi natural. Iuri conta que sonha muito e sempre se lembra dos sonhos. “Já escrevi alguns textos dormindo, acordava e passava para o papel”. Trabalhando com o surreal, sente uma liberdade criativa maior tanto para compor as histórias quanto para dirigi-las. Também acredita que os atores ficam mais livres para explorar seus corpos de maneiras diferentes. Por outro lado, tem que tomar alguns cuidados. Fica atento especialmente para não enveredar para o que chama de “teatro do absurdo”. “Por mais que minha dramaturgia não seja linear e, pelo contrário, seja bastante fragmentada, tentei contar uma história em meio a tantos símbolos”.

“Pesadelo” acompanha o sonho de um homem (interpretado por Bruno Quaresma) cercado por criaturas fantásticas, situações amedrontadoras e uma mulher obcecada por seu amor (vivida por Maria Assunção). Na trama, ela perde o corpo e resta-lhe apenas a cabeça. Em uma lógica muito própria, ela decide raptar e decepar um homem para torná-lo seu semelhante, pois só assim poderia conquistar seu amor. Ao contrário de “É Culpa da Vida…” e “Memória Inventada no Sonho de Alguém”, as montagens anteriores da trilogia, a peça nova não recorre à realidade em momento algum. Mesmo assim, se comunica com a plateia, em grande parte devido ao personagem protagonista. “O homem que será decepado é muito humano: um rapaz pacato, trabalhador, ‘gente como a gente’, que se vê preso dentro desse pesadelo”, aponta Iuri. “A maioria das pessoas sonha bastante, e exploramos muito situações típicas dos sonhos, causando de imediato essa identificação”.

Cena de "Pesadelo", com Rodrigo Turazzi e Bruno Quaresma. (Foto: Humberto AraújO)

Cena de “Pesadelo”, com Rodrigo Turazzi e Bruno Quaresma. (Foto: Humberto Araújo)

Para esse trabalho especialmente, teve duas inspirações: o psiquiatra suíço Carl Jung e o escritor inglês Lewis Carroll, autor de “Alice no País das Maravilhas”. O argumento do espetáculo surgiu a partir de uma reflexão do primeiro, que diz que a sombra tende a ser mais negra e densa quando está menos incorporada à vida consciente da pessoa. “Assim, decidi que a história seria de um homem preso dentro de seu pesadelo, obrigado a se confrontar com seus medos, traumas e com a materialização de sua sombra”, explica.

Trazendo a alegoria para sua vida, pode-se dizer que Iuri Kruschewsky tem receio de dirigir a si mesmo. Ele assume a responsabilidade de dirigir seus próprios textos, mas nunca se coloca em cena, embora tenha uma longa carreira como ator. “Se tivesse apenas escrito seria mais tranquilo atuar, mas não me sinto à vontade para dirigir estando dentro. Preciso desse olhar de fora, como diretor. Talvez um dia, mais para frente, possa até me arriscar, mas ainda não é o momento”. É uma sombra a se incorporar. Quem sabe na próxima pesquisa?

"Pesadelo". (Foto: Humberto Araújo)

“Pesadelo”. (Foto: Humberto Araújo)

“Pesadelo” fica em cartaz pelo menos até o dia 25 de maio no Rio, com sessões sextas e sábados às 21h e domingos às 20h. Com a Trilogia dos Sonhos encerrada, Iuri quer conduzir a companhia para outro tema: o universo virtual e a falsa sensação de proximidade causada com a Internet. Em outras palavras, “a falta de comunicação na era da globalização”. “Mas ainda não começamos a pesquisar. É apenas uma ideia. Pode ser que as coisas mudem. Certo mesmo é que deixaremos de lado o universo onírico”.

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