Luiz Buarque

Jantar Secreto – desvendando processos

Na última segunda (20/8), Raphael Montes e Rodrigo Pitta realizaram uma leitura aberta de “Jantar Secreto – O Musical”, adaptação do romance homônimo de Raphael com músicas de Rodrigo e que conta a história de quatro amigos adotando medidas desesperadas na tentativa de sobreviver num Rio de Janeiro em crise. O evento acontecido no Vivo Rio foi um raro momento dedicado à escrita de musicais na cena carioca e abre espaço para a discussão do panorama envolvendo a criação de musicais brasileiros originais.

(Foto: Divulgação)

Fiz questão de estar presente por conta do trabalho com dramaturgia pro formato e acreditei que boa parte do público lá estaria por motivo semelhante. Mas logo percebi que era uma das poucas pessoas “de teatro” num grupo composto em sua maioria por leitores curiosos com a adaptação de um livro que admiram. Esse encontro de universos é um passo importante para expandir o público do musical no Brasil e as possibilidades de histórias que nossos musicais (ainda muito presos a biografias de artistas ou “histórias de bastidor”) podem contar.

Achei inclusive um dos pontos mais interessantes do texto a opção de levar à cena um Rio de Janeiro contemporâneo e concreto (com menções a lugares e estabelecimentos reais) em vez da habitual alegoria “para turista ver” ou da crítica genérica das mazelas da cidade. Mas apesar desse e outros méritos (personagens interessantes e bons momentos de comédia), os autores ainda precisam trabalhar bastante o material antes de pensar na noite de estreia (principalmente no desenrolar confuso da trama e da pouca variedade entre os números musicais).

O que não surpreende, afinal a primeira versão de um musical costuma mesmo ser bastante crua e cheia de “buracos”, lutando para encontrar seu foco. Digo “lutando” num sentido literal inclusive: as agruras enfrentadas por um musical em início de carreira (principalmente aqueles com desejo de inovar) são capazes de baratinar até os escritores mais experientes do ramo.

Mas o caso no Brasil é um pouco diferente, já que a escrita específica para essa forma de arte ainda é novidade. Tivemos momentos marcados por uma produção original relevante e com nomes de peso, mas não de forma contínua ou que acompanhasse o desenvolvimento teatral no país. E se nas últimas duas décadas o musical se firmou ao ponto de consolidar a importância da formação de atores capazes de encarar as demandas do formato, o mesmo não aconteceu com dramaturgos e compositores: não conheço nenhum curso especializado na área e poucas vezes tive a oportunidade de comparecer a eventos focados no tema (tendo boa parte deles se mostrado bastante decepcionantes).

Essa pendência do nosso mercado torna-se mais evidente à medida que o número de novos musicais aumenta, mas boa parte deles segue apresentando as mesmas deficiências em relação a pontos básicos de estrutura dramatúrgica. “Jantar Secreto” apresenta várias dessas questões, mas pode aproveitar essa primeira leitura para aparar algumas arestas, evitando o destino de projetos que acabam tendo suas trajetórias prejudicadas ao embarcarem em temporadas oficiais quando na verdade ainda estão em “fase de teste”.

Vemos então que a escassez de opções de formação para autores é acompanhada de um despreparo geral para lidar com as necessidades desses profissionais, mesmo a criação do material sendo tão importante quanto o período de ensaio e não um “luxo” ou mera burocracia. As dificuldades de produzir teatro no Brasil são inúmeras, mas precisamos criar condições para nossos autores e autoras testarem suas canetas antes de encararem público e crítica.

Até porque os efeitos dessa equação – falta de formação + modelos de desenvolvimento ineficazes – podem ser devastadores a longo prazo: quem vai querer investir tempo e (muito) dinheiro em um musical original se o resultado parece sempre aquém do obtido pelos musicais importados (muitas vezes com seus méritos dramatúrgicos abafados pelo fetiche da “superprodução”) e tramas tiradas de catálogos da MPB com público garantido?

De que adianta levantar a bandeira de sermos o “terceiro maior produtor de musicais no mundo” quando a preocupação com a criação de peças verdadeiramente originais é praticamente nula? O interesse em pesquisar a dramaturgia brasileira alegado por tantas produtoras é real ou a ideia do “musical original brasileiro” virou só mais uma estratégia de marketing na luta pela atenção do espectador?

É por isso que torço para que esse raro momento de foco na escrita se torne cada vez mais difundido, ajudando a incentivar o trabalho de novos criadores e possibilitando trocas entre eles e o público. Que mais projetos possam achar uma maneira viável de testar seus caminhos a cada etapa do processo (afinal, é essencial saber a hora certa de mostrar material e como pedir/receber feedback) e de acordo com suas possibilidades (tudo bem se você não tiver o Vivo Rio para produzir um evento assim).

Fiquemos de olho nos próximos passos desse “Jantar Secreto” e que sua iniciativa ajude a tornar mais próximo o dia em que a notícia de um musical brasileiro promovendo uma leitura para afinar seu material não vai gerar surpresa nenhuma.
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Luiz Buarque é dramaturgo e diretor, escreve musicais e fica feliz com qualquer coisa envolvendo Hammerstein e/ou Sondheim. Também pode ser encontrado em https://leituradramatizada.wordpress.com

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