Jesus travesti atrai multidão na Lapa e faz apresentação extra – Teatro em Cena
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Jesus travesti atrai multidão na Lapa e faz apresentação extra

“O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” é um sucesso na Lapa

(Foto: Leonardo Torres)

Perseguido pelo prefeito do Rio Marcelo Crivella, o espetáculo “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” não foi sufocado. Pelo contrário. A censura à apresentação na Arena Carioca Fernando Torres, em Madureira, aumentou ainda mais a demanda de público na Fundição Progresso, na Lapa, para onde a montagem foi transferida no sábado (9/6) – a convite da direção do local. Em outras palavras, as declarações do prefeito ajudaram a divulgar o espetáculo, que atraiu praticamente o triplo de espectadores que comporta a sala da Armazém Cia. de Teatro. Com tamanha demanda, a atriz Renata Carvalho, a travesti que interpreta Jesus Cristo, aceitou fazer uma sessão extra, logo após o fim da primeira.

De acordo com a organização do evento, a arquibancada da sala tem 150 assentos. Para atender ao público, foram colocadas mais de 70 cadeiras extras. Além disso, algumas pessoas assistiram ao monólogo, que dura uma hora, de pé. Foi um sucesso. Do lado de fora, a fila para conseguir ingressos dava volta em torno da Fundição. Nomes como Inez Viana (de “A Mentira”), Débora Lamm (de “Mata Teu Pai”), Junior Dantas (de “O Pequeno Príncipe Preto”), Marcia Zanelatto (de “ELA”), Soraya Ravenle (de “Puro Ney”), Gunnar Borges (“Santa Joana dos Matadouros”) e Teresa Seiblitz (de “Corpos Estranhos”) estavam presentes. Antes do espetáculo, o público foi presenteado com duas performances – “A Cada 19h”, sobre mortes causadas pela LGBTfobia, e “DragQueen Ma.Ma. Horn”.

Fila deu volta na Fundição Progresso (Foto: Leonardo Torres)

“O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” faz uma leitura contemporânea de parábolas da Bíblia e questiona: “e se Jesus Cristo fosse uma travesti?”. O texto da dramaturga britânica Jo Clifford celebra a diversidade sexual e de gênero, incluindo-a nas mensagens de amor de Jesus. O espetáculo repete a estrutura de uma missa, com sermão e comunhão. A plateia recebe um copinho de vinho e um pedaço de pão, além de uma vela elétrica. Todos dão as mãos, dizem “amém”, e riem com a naturalidade das histórias contadas pela atriz. Espontaneamente, também gritam “fora Crivella!”.

Marcelo Crivella não deixou a peça ser apresentada em um espaço administrado pela prefeitura por considerá-la ofensiva aos cristãos. “Se você considera censura, eu vou dizer a você que é. É uma censura que garante os direitos de liberdade religiosa e das pessoas não serem ofendidas na sua liberdade religiosa. Não chamo isso de censura. Enquanto eu for prefeito, nos espaços públicos administrados pela prefeitura, nós não permitiremos qualquer manifestação que ofenda a religião das pessoas”, disse. No fim da apresentação, Renata fez questão de comentar o caso, que é a terceira tentativa de censura ao seu trabalho. Situações parecidas ocorreram em Jundiaí (SP) e Salvador (BA), envolvendo o judiciário.

– Esse espetáculo vem sendo atacado desde 2016, quando a gente estreia. O grande motivo é que Jesus pode ser qualquer pessoa, menos uma pessoa travesti. Ser travesti é o pior crime que podemos cometer. Nossa identidade não é válida, é falsa, deslegitimada, estereotipada, sexualizada, criminalizada. É um crime ser travesti. Jesus é a imagem e semelhança de todo mundo, menos de nós. É inapropriado. – declara Renata Carvalho, após dois minutos ininterruptos de palmas do público – Isso é uma construção social e isso só vai acabar quando a gente incluir esse corpo trans em todos os lugares. Só há uma maneira de humanizar e naturalizar esses corpos trans: eles estarem presentes nos lugares. Isso a gente só consegue com representatividade. Visibilidade só não nos tira da marginalidade.

Mesmo vetada em um espaço municipal, a apresentação de “O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu” na Fundição Progresso também incomodou. Fiéis católicos fizeram uma vigília na frente do local, com poucas pessoas, além de um pedido à gerência da Fundição para que desistisse de apresentar a montagem. Não foram acatados. Teve Jesus Cristo travesti no Rio, sim. Na saída do local, pôde-se ouvir uma espectadora dizendo: “dessa missa, eu gostei”.

(Foto: Leonardo Torres)

(Foto: Leonardo Torres)

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