Internacional

Josep Maria Miró, o espanhol que o Brasil descobriu

Após “O Princípio de Arquimedes”, autor estreia a peça “Nerium Park” no Rio

Josep Maria Miró: dramaturgo espanhol vem ganhando espaço na cena teatral brasileira (Foto: Reprodução / David Ruano)

Montado em dezenas de países, o dramaturgo espanhol Josep Maria Miró ainda era inédito no Brasil até o ano passado. Foi descoberto. Sua peça “O Princípio de Arquimedes”, de 2011, ganhou uma montagem brasileira com os atores Helena Varvaki (de “A Outra Casa”) e Cirillo Luna (de “A Ordem Natural das Coisas”), e simultaneamente foi adaptada para o cinema nacional, com o titulo “Aos Teus Olhos” e o ator Daniel de Oliveira no papel principal. O filme levou quatro prêmios no Festival do Rio, e deixou artistas brasileiros atentos para o nome de Miró. Prova disso é que, menos de um ano depois, outra obra do autor estreia no país – “Nerium Park”. A peça ganhou direção de ninguém menos que Rodrigo Portella, vencedor da última edição dos prêmios Shell, Cesgranrio e Botequim Cultural, e pode ser vista no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana. O tema é uma crise econômica que faz ruir um modelo de vida capitalista. Qualquer semelhança com a situação brasileira é sim mera coincidência. O texto estreou em 2012 refletindo a crise que arrasou a Espanha.

– Entre 2008 e 2014, a Espanha viveu a crise econômica mais importante desde a instauração da democracia em 1975. Foi denominada a crise da bolha imobiliária, já que esteve muito vinculada à construção exorbitante. Muitas famílias e sobretudo casais jovens hipotecaram e, sobretudo, compraram um determinado modelo de vida no qual os bancos e uma determinada conjectura política capitalista tiveram um papel chave. Aqueles foram os anos em que a perda de moradia e de trabalho andaram de mãos dadas. O cidadão comprou um modelo, acreditou e tudo desmoronou. – o dramaturgo conta ao Teatro em Cena, em contato via e-mail – Em 2014, apareceu pela primeira vez um número alarmante na Espanha. Foi a primeira vez, na democracia, em que o suicídio ficou na frente dos acidentes de trânsito nas estatísticas das mortes não-naturais. Estamos falando de mais de cinco mil suicídios anuais. Em um país com uma estatística como essa, a classe política teria que estar profundamente preocupada, porque a saúde mental de seus cidadãos é uma responsabilidade política e, neste caso, está absolutamente vinculada à conjectura socioeconômica.

“Nerium Park” (Foto: Renato Mangolin)

Foi a motivação para “Nerium Park” – aqui apresentada pelos atores Pri Helena (da Cia. Cortejo) e Rafael Baronesi (de “Baal”), idealizador do projeto. Na história, eles interpretam um casal de classe média que compra um apartamento em um condomínio, buscando qualidade de vida e um lugar para construir sua família. O problema é que o condomínio, prometido como “um sonho”, com piscina e parque, se torna um local fantasma. Os meses passam e ninguém mais aparece nos prédios. O desemprego decorrente da crise econômica afastou potenciais compradores e deixou o casal isolado no lugar supostamente perfeito.

– Tinha vontade de escrever uma peça que falasse disso, da vida de um casal durante o calendário de um ano. Como um casal compra um determinado modelo de vida, mas sua vida íntima estará absolutamente sequestrada pelo funcionamento ou não do sistema socioeconômico. Sempre digo que o mistério me parece sexy. É por isso que tinha vontade de contar a história desse casal em um thriller. “Nerium Park” é um thriller que fala da intimidade e de política. – adianta o dramaturgo, que já viu sua peça ser montada em outras nove produções internacionais. Ele chega ao Rio de Janeiro no início de setembro para assistir a essa montagem e participará de um debate após a sessão do dia 3 (uma segunda-feira).

Montagem brasileira de “Nerium Park” é a décima produção mundial da peça (Foto: Renato Mangolin)

TEATRO EM CENA – O que você enxerga de universal nessa peça, para ela ser montada em tantos lugares diferentes?
JOSEP MARIA MIRÓ – O capitalismo e suas consequências são uma questão global. A situação que se dá em “Nerium Park” é reconhecível em sociedades articuladas de formas muito diferentes, mas onde coincide do controle social passar pelos bancos, o [índice] IBEX 35 e as empresas, que dão um determinado modelo de trabalho mas também de vida. Em “Nerium Park”, aparecem como um thriller os temas que mais preocupam o cidadão médio: a moradia, o trabalho e o projeto de família e ter filhos. É curioso, porque “Nerium Park” estreou em dez países, mas cada produção se conectou com sua realidade. Na Argentina, estreou em 2016, justo quando Macri havia acabado de vencer [as eleições] e havia demissões importantes, então o tema da demissão ganhou um protagonismo enorme. Na Grécia e em Chipre, com uma realidade muito parecida à espanhola, a consciência da crise imobiliária era a principal chave de leitura. No Uruguai, a ação foi transportada para 2002, quando o país viveu uma de suas crises mais importantes… Para mim, é maravilhoso ter a sensação de que escrevi um texto a partir de uma determinada premissa, mas que tem valor caleidoscópio para ser interpretado e lido de formas diferentes.

“Nerium Park” é sua segunda peça montada em português no Brasil em um ano. Por que acha que sua dramaturgia está despertando interesse no país?
Como meu teatro, eu também não tenho respostas precisas do porquê minha dramaturgia se conecta com territórios tão diversos. No caso de “O Princípio de Arquimedes”, já são quase 25 montagens mundiais, e a de “Nerium Park” no Brasil será a décima. Eu tento escrever sobre perguntas que me inquietam. Tento escrever um teatro de aqui e de hoje. Sempre vinculado à contemporaneidade. Sempre digo que tento escrever o teatro que gostaria de ver como espectador. Compartilho da máxima de Pasolini de escrever pensando em um espectador como eu. É a única maneira de tratá-lo de igual para igual e não menosprezá-lo. Em todo caso, tenho tido bons cúmplices e anfitriões no Brasil: Daniel Dias da Silva, que dirigiu e traduziu “O Princípio de Arquimedes”; Rodrigo Portella, de “Nerium Park”, sei que é magnífico; e a adaptação cinematográfica de “Aos Teus Olhos”. Todos são profissionais maravilhosos. Sempre tento que os projetos tenham as melhores garantias profissionais e artísticas. Isso é imprescindível para autorizá-los.

Você deixou os brasileiros sem respostas em “O Princípio de Arquimedes”. O que se pode esperar de “Nerium Park”?
Dar respostas não é nem a finalidade nem o interesse do meu teatro. Eu gosto de gerar debate e reflexão, nunca esquecendo de uma trama que capture o espectador. Para mim, é imprescindível conectar e gerar interesse no espectador, mas gerar nele espaços para reflexão e debate – individual e coletivo. Sempre digo que meu teatro tem como ponto de partida perguntas para as quais não tenho respostas. No processo de escrita e também nos ensaios, quando monto as peças em meu país, há uma reflexão profunda sobre essas questões. No momento em que chega à cena, quero que o público participe desse debate e reflexão. Acredito no teatro como uma ágora, como um espaço onde, através de uma mentira, os espectadores validam ou questionam os pactos íntimos e coletivos.

A arte passa por um momento difícil no Brasil, pela crise econômica e desinteresse estatal. Qual é o lugar do teatro na Espanha atualmente? Uma vez, você disse que “a cultura em geral não interessa à classe política”.
Disse e mantenho. No caso da Espanha e da Catalunha, a cultura nunca faz parte dos programas eleitorais de maneira profunda. A cultura não interessa à direita, mas também não interessa à esquerda. Para mim, a cultura e a educação teriam que ser pilares importantes nas estruturas do Estado, assim como a saúde. Lamentavelmente, não é assim. A cultura não tem que ser um espaço de doutrinação, nem gerador de verdades, senão um espaço para nos questionarmos individualmente e coletivamente, gerando um cidadão crítico e comprometido. Talvez por isso não gostem da cultura, porque bem articulada é um espaço crítico e questionador. A cultura é uma radiografia precisa de cada sociedade. Às vezes se confunde cultura com indústria cultural e não é a mesma coisa. A cultura é intangível, não um bem de consumo. A cultura nos define como cidadãos, como agentes críticos e também a relação que mantemos com o poder e com as principais questões e preocupações de nosso cotidiano. O show business é outra história, tem mais a ver com a indústria do que com o conceito de cultura.

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SERVIÇO: sex a seg, 20h. R$ 50. 100 min. Classificação: 16 anos. Até 10 de setembro. Teatro Glaucio Gill – Praça Cardeal Arcoverde, s/n – Copacabana. Tel: 2332-7904.

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