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Jovens atores gastam três horas com caracterização para viverem idosos em peça

Jéssika Menkel e Arthur Ienzura caracterizados: 80 anos (Foto: Divulgação)

Jéssika Menkel e Arthur Ienzura caracterizados: 80 anos (Foto: Divulgação)

Os atores Jéssika Menkel (de “O Clube dos Cinco”) e Arthur Ienzura (de “Enlace e a Loja do Ourives”) têm 23 anos. Isso se você os encontrar de segunda a quinta. De sexta a domingo, é mais fácil vê-los com 80 anos. Tudo por causa da peça “Meu Nome É Ernesto”, em cartaz no Sesc Casa da Gávea, na Praça Santos Dumont. Em cena, eles interpretam um casal de idosos, e se transformam em Marta e Ernesto. Mas não é tão simples assim. Quando as cortinas se abrem, Jéssika e Arthur estão no teatro há quatro horas, desprendendo três delas apenas para a caracterização.

O processo de maquiagem é demorado. Os atores têm que passar três ou quatro camadas de látex e secar com secador. O látex enruga a própria pele e, em cima disso, eles aplicam base, sombra, corretivo… tudo para causar o efeito de envelhecimento. “Incomoda na hora de fazer, porque você tem que esticar a pele e ficar segurando enquanto passa as camadas. A gente tem que ficar com o pescoço parado e gera um desconforto, sim. Mas, na hora de atuar, a gente nem lembra que está com o látex”, Jéssika Menkel conta ao Teatro em Cena, no dia da estreia da peça. “Quando iniciamos esse projeto não tínhamos a dimensão que teria essa caracterização, com todos esses detalhes”.

Roupas com enchimento e peruca também estão no pacote. A peruca da atriz, aliás, é um adianto. Antes, ela tinha que pintar o cabelo de branco e sua caracterização era ainda mais demorada. Além de que era outro problema quando acabava a peça. “Não dava tempo de tirar, com as pessoas esperando para falar com a gente. Saía grisalha pela rua, porque a tinta só saía quanto lavava muito bem a cabeça”. Hoje em dia, ela e Arthur ainda demoram cerca de 15 minutos para sair do teatro e cumprimentar o público e os amigos. Como o látex gruda, enquanto os espectadores comentam a encenação, os dois tiram a segunda pele do rosto e passam demaquilante. Ninguém pode dizer que eles não dão a pele pelo trabalho, que conta com figurinos e caracterização assinados por Isabel Lima Leite e Daniele Gabriel.

Jéssika e Arthur fora de cena: 23 anos (Fotos: Reprodução / Facebook)

Jéssika e Arthur fora de cena: 23 anos (Fotos: Reprodução / Facebook)

Na peça, Ernesto e Marta relembram histórias do passado, quase sempre atrapalhadas por esquecimentos e confusões com relação a datas e nomes. No fim, o que mais importa é a companhia e a cumplicidade, e não as recordações falhas. O texto é uma adaptação livre de “I’m Herbert”, de Robert Anderson, e propõe uma reflexão sobre a terceira idade. Para esta temporada, o espetáculo ganhou direção de Felipe Fagundes (de “Alice e Gabriel”). Outros nomes já passaram pela função, desde que a peça estreou, em 2011, na Mostra de Teatro da UFRJ. Houve uma época em que os próprios atores se dirigiam. Coisa demais.

Além das três horas que gastam para se caracterizar, Jéssika e Arthur dedicam uma outra ao aquecimento de corpo e voz. É necessário para que consigam manter as características dos personagens durante os 50 minutos de encenação. “Minha personagem tem a mão trêmula, e o do Arthur usa uma bengala. Ficamos muito encurvados e sempre saímos doloridos. A gente faz o aquecimento para amenizar, mas não tem jeito, porque trabalhamos com o peso do corpo do idoso”.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Uma inspiração é, claro, os próprios avós. Mas os artistas também buscaram outras referências, como filmes e encontros da terceira idade. Jéssika é de Votorantim (interior de São Paulo) e viajou para lá com Arthur para participar de um baile de idosos e poder observá-los. Outras inspirações vieram naturalmente, como uma ida da avó da atriz à peça. “Ela estava na primeira fileira e, quando eu falei um caco ‘como é bom sentar’, ela gritou ‘eu é que sei!’. O teatro foi abaixo com ela, e isso virou fala da peça. Tem muita coisa dos nossos avós que a gente leva para a cena”. Também por isso, ela acredita que é fácil as pessoas se identificarem: os mais jovens lembrarem dos avós, e os mais velhos se verem retratados. “Sempre tivemos um retorno muito positivo, e acredito que agora não será diferente. Com as mudanças na direção, a peça está ainda mais gostosa de se ver”.

A temporada vai até 21 de setembro, com sessões sexta e sábado às 21h e domingo às 19h. A classificação é livre e os ingressos custam R$ 40.

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