Comportamento

O Despertar da Primavera: fábrica de talentos em 2009

Jovens revelados por O Despertar da Primavera falam sobre ligação com musical

“Primavera, quanto tempo faz?” O anúncio da remontagem de “O Despertar da Primavera” por Charles Möeller e Claudio Botelho teve boa recepção entre os fãs de musicais no Brasil. O espetáculo, montado pela primeira vez pela dupla em 2009, marcou uma geração e fez muita gente se apaixonar por teatro. Parte disso se deveu à temática adolescente do musical, mas também pela identificação com o elenco: todos atores jovens, a maioria desconhecidos, em início de carreira. “O Despertar da Primavera” revelou vários talentos, que seguem nos palcos até hoje, como André Loddi (de “Ghost, o Musical”), Pierre Baitelli (de “Enterro dos Ososs”), Rodrigo Pandolfo (de “Céus”) e Laura Lobo (de “Les Misérables”), só para citar alguns. Era uma turma promissora.

– Eu lembro das audições: todos muito jovens e cheios de sonhos. Vibrei muito quando soube que tinha passado! Foi um processo lindo, porque nos descobrimos como atores/cantores e desabrochamos juntos. Fico muito feliz de ver o caminho que cada um trilhou. – conta Eline Porto, que está há três anos no elenco de “Cássia Eller, o Musical” e atualmente atua na novela “A Força do Querer”, de Glória Perez. “O Despertar da Primavera” foi sua iniciação no teatro musical, e ela recorda com carinho de como um torcia pelo outro no elenco e como acabaram se tornando uma grande família, que é amiga até hoje e faz festa sempre que se encontra.

Eline Porto e Letícia Colin: no ar em novelas da Globo (Fotos: Divulgação)

Letícia Colin, que interpreta Maria Leopoldina na novela “Novo Mundo”, faz coro. “O Despertar” foi seu primeiro contato com música, algo que ela sempre teve vontade de exercer, mas não sabia se era capaz até a aprovação nas audições. “Pra mim, era uma novidade essa coisa dos musicais”, lembra, em entrevista ao Teatro em Cena, “foi um fato que mudou a minha vida, porque o espetáculo tem um texto muito profundo e importante”. A história se desenrola na Alemanha do século XIX, com enfoque na repressão e na educação castradora às quais a juventude estava submetida. Nesse contexto, a trama trata de masturbação, primeira vez, incesto, homossexualidade e aborto. Ilse, a personagem de Letícia, era uma garota desvirtuada, marginalizada, envolvida com o submundo das drogas. “É uma peça supertrágica: tem suicídio, tem morte. Uma peça que fala muito sobre essa explosão de sentimentos em um ambiente muito claustrofóbico”, pontua a atriz, “sou extremamente grata ao Charles e ao Claudio por terem confiado em mim e terem achado que eu podia fazer. Emendei cinco anos trabalhando com isso, descobri mesmo um potencial de carreira e é maravilhoso”.

André Loddi, atualmente em cartaz com “O Homem de la Mancha”, lembra de quando tinha 15 anos e assistiu a “Spring Awakening” na Broadway, com o elenco original. Já fã de musicais, ele estudava na Casa de Artes Operária e, quando soube que a peça seria montada no Brasil, tomou como meta fazer parte do elenco. “Eu era completamente desconhecido no meio. Só tinha feito algumas oficinas. Eu estudava todos os dias, era muito metódico para conquistar esse espaço. Lembro até hoje o dia que me ligaram: parecia um sonho. Depois disso, participei de muitos espetáculos com elencos bacanas, mas o ‘Despertar’ tinha uma união, um frescor, que nunca se repetiu em outro elenco. Era um grupo muito unido”, conta.

Nomes como Malu Rodrigues, Estrela Blanco e Pedro Sol trabalham com os diretores até hoje assiduamente: os três seguem em cartaz com “Beatles Num Céu de Diamantes”. Felipe de Carolis, outro nome revelado por “Despertar”, está no elenco de “Rocky Horror Show”, outra montagem dos diretores, em São Paulo. Bruno Sigrist, atualmente em “Les Misérables”, fez “Cinderela” com a dupla no ano passado. A maioria conheceu a rotina de estudos e ensaios que envolve o teatro musical nas mãos de Möeller e Botelho. Sem contar a disciplina para dar conta de uma temporada – na época no Tetro Villa-Lobos, que ainda funcionava em Copacabana, dois anos antes de ser fechado por conta de um incêndio.

– Foi muito difícil no início. Essa coisa de se preocupar em não perder a voz. Eu acho que pude me conhecer muito musicalmente nesse processo. O que é esse instrumento que tenho? O que é cantar? Como que eu faço isso? Como que eu guardo minha voz? – Letícia relembra.

Pós-“Despertar”: Lua Blanco está em novela e Thiago Marinho é fundador de companhia teatral premiada (Fotos: Divulgação / Arquivo Pessoal)

O aprendizado, não só dela, mas de todos, surtiu efeito: “O Despertar da Primavera” ganhou dois prêmios Qualidade Brasil (melhor musical e melhor direção), e três prêmios APTR (iluminação, cenário e ator coadjuvante – para Rodrigo Pandolfo). Seguiu o sucesso da montagem americana na qual se baseou, que levou oito Tony Awards na Broadway. Mas talvez seu maior legado seja mesmo a safra de atores que introduziu no mercado. Lua Blanco, atualmente na novela “A Força do Querer”, é extremamente grata: “o Despertar inaugurou tantas coisas na minha vida que nem sei dizer! Tenho guardado até hoje os aprendizados, os laços e o ar de encanto que pairava sobre o teatro com esse espetáculo. Todos nós tivemos muita sorte de ter ganhado essa experiência. Amo até hoje!”. Depois da peça, ela fez uma novela musical, “Rebelde”, que a tornou um ídolo teen no país. Thiago Marinho, outro nome do elenco de “Despertar”, atualmente tem sua própria companhia, vencedora do Prêmio Cenym de 2016.

Rodrigo Pandolfo, Letícia Colin, Pierre Baitelli e Malu Rodrigues em 2009 (Fotos: Divulgação)

– O “Despertar” foi o trabalho que me convenceu a reforçar meus estudos em música e, principalmente, em teatro. Foi depois dele que eu decidi investir em uma faculdade de teatro, pesquisar a atuação em teatro musical e, mais recentemente, criar uma cia de teatro com amigos para me tornar empreendedor. Além disso, conheci amigos para a vida inteira. Essa peça tem um lugar no coração de todos que fizeram parte dela. E de quem assistiu também. Não tenho medo de dizer que o “Despertar” é responsável por criar uma nova geração de artistas apaixonados por teatro musical no Brasil. – conclui.

O que esperar então de um novo “O Despertar da Primavera”? Uma nova geração de talentos, no mínimo. Charles Möeller e Claudio Botelho readquiriram os direitos da peça com intenção de remontá-la em 2018, nove anos após trabalhar com essa garotada em ascensão. Já tem muita gente ansiosa para novas audições.

(Foto: Divulgação)

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