Kiara Sasso comemora 30 anos de carreira – Teatro em Cena
Entrevista

Kiara Sasso comemora 30 anos de carreira

(Foto: Caio Gallucci)

Ninguém duvida do talento de Kiara Sasso. Um dos maiores nomes do teatro musical brasileiro, a artista está comemorando 30 anos de carreira – 25 nos palcos. Os números são impressionantes, mas ela começou cedo. Com apenas oito anos, avisou aos pais: “arrumei um trabalho de atriz”. De lá para cá, só cresceu, e brilhou a frente de superproduções em São Paulo. Às funções de atriz e cantora, adicionou dubladora, compositora, diretora e produtora. Assumindo as rédeas de sua profissão, ela retorna aos palcos cariocas pela primeira vez em nove anos para apresentar seu show solo “Silhuetas”, que conta com canções de seus principais trabalhos e serve para aproximá-la do público, com um diálogo direto, mostrando a mulher por trás de tantos personagens icônicos. “Voltar pros palcoxxx cariocaxxx? Vou voltar sem sotaque dessa vez!”, ela brinca, entre risos, dias antes de cantar no Theatro Net Rio, em Copacabana. O show está marcado para quarta (14/6).

Nem todo mundo sabe, mas ela nasceu no Rio de Janeiro. Com passaportes americano e italiano, passou a infância em Los Angeles, na Califórnia, onde fez comerciais e trabalhos para TV e cinema. Aos 14, estava no Rio de novo, fazendo seu primeiro musical – “Banana Split” (1993). Esteve anda em montagens de off-Broadway na cidade, como “Os Fantástikos” (1996). Mas Kiara voltou para os Estados Unidos para cursar a faculdade de teatro musical, e até protagonizou um espetáculo por lá. Em 1999, integrou o workshop que deu origem ao musical “Spring Awakening” (O Despertar da Primavera), trabalhando com o diretor Michael Mayer, que mais tarde ganhou o Tony Award justamente com esse musical. No Brasil, ela também trabalhou com Charles Möeller, Claudio Botelho, Miguel Falabella e José Possi Neto – diretores que dispensam apresentações. Kiara foi a protagonista das montagens nacionais de diversos musicais da Broadway: “A Bela e a Fera” (2002), “O Fantasma da Ópera”(2005), “A Noviça Rebelde” (2008, última vez que foi vista no Rio), “Mamma Mia!” (2010) e “Hair” (2012). Com “A Madrinha Embriagada” (2013), ganhou seu primeiro troféu: o de melhor atriz coadjuvante no Prêmio Bibi Ferreira. Bibi, aliás, é um dos ídolos da artista – ao lado de Patti LuPone, Glenn Close, Judi Dench, Bette Midler, Barbra Streisand, Shoshana Bean, Marília Pêra e Alessandra Maestrini.

(Foto: Caio Gallucci)

Sua vida pessoal e sua carreira são entrelaçadas. Kiara vive longe da família em São Paulo – o pai fica em Los Angeles, a mãe se divide entre Rio e Los Angeles, e a avó mora no Rio – então é a turma dos musicais que ela chama de família. O marido, Lázaro Menezes, ela conheceu fazendo o musical “O Homem de La Mancha” (2014). Com ele, abriu sua produtora e montou seu primeiro espetáculo autoral – “O Palhaço e a Bailarina” (2016). É ele também que a dirige em “Silhuetas”. “Não consigo entender aqueles casais que falam ‘nossa, eu nunca poderia trabalhar com meu marido!’. A gente é o oposto”, ela diz em entrevista ao Teatro em Cena, dirigindo a caminho de encontrá-lo. Depois de 15 minutos ao telefone, ela chega ao destino, pede para ele assumir o volante, e desfaz qualquer imaginário de diva. “É que eu sou produtora, sabe, e eu acabei de buscar uma carreta. Agora sou uma pessoa que dirige com carreta atrelada no carro, mas eu não mando muito bem”, ri de si mesma, “tentei dar uma ré no posto e desisti. Fui botar gasolina em outro. Estou dando uma entrevista, amor. Tudo ao mesmo tempo. Como foi? Foi legal? Oi, Leonardo, pode falar”. A Kiara produtora é assim – dirigindo, dando entrevista e tentando ser atenciosa com o marido simultaneamente. “Estou toda enrolada. Qualquer hora que você me ligar, vou estar enrolada”. Faz parte.

É importante dizer que a voz ouvida no telefone é a mesma da Ariel no filme “A Pequena Sereia”, da Cinderela em “Cinderella II” e de Aurora em “Princesas Disney: Siga Seus Sonhos”. Algumas das canções desses filmes também estão no show. Kiara brinca que, de tanto dar voz a princesas, deveria ter um passe livre para os parques da Disney. Essa bagagem nos estúdios e nos palcos, para ela, são o que permitem a existência de “Silhuetas”. Ela não queria fazer um show despropositado.

– Na verdade, os fãs e amigos já me perguntam há muitos anos quando vou fazer um show, porque temos muitos colegas que fazem. Todo mundo fala “por que você não faz um show, por que não grava um CD?”. São sempre as mesmas cobranças. Eu pensei que realmente já era o momento. Eu acho que, no meu caso, eu precisava de um certo tempo de experiência, de vida e de carreira, para fazer um show que fosse algo realmente importante, que teria um porquê, um motivo. Eu precisava dessa bagagem para fazer alguma coisa relevante, eu acho.

Kiara Sasso no show “Silhuetas” (Foto: Caio Gallucci)

Como é voltar aos palcos cariocas depois de tanto tempo?
É muito legal, é muito bacana, eu adoro o Rio, o público do Rio, principalmente aqueles que a gente cativou lá atrás, nas peças menores do Charles e do Claudio, e depois na “Noviça”. Vai ser muito legal. E eu amo aquele teatro, acho-o deslumbrante. Estou superfeliz que consegui fazer com meu show o Theatro Net SP e agora o Theatro Net Rio. Estou bem, bem animada.

A última vez que você fez uma produção carioca foi “A Noviça Rebelde”. Afastar-se da cidade foi uma opção de vida ou você aceitaria ficar aqui para cumprir temporada de um musical, por exemplo?
Eu sou cigana. Eu vou aonde tem trabalho. Eu vou aonde tiver a peça.

Lázaro Menezes e Kiara Sasso no San Diego Film Festival (Foto: Vivien Killilea)

Como é trabalhar com o marido?
É maravilhoso! A gente se conheceu trabalhando e a gente adora estar junto o tempo inteiro, tanto no trabalho quanto na vida pessoal. Nosso sonho é poder trabalhar junto para sempre, porque é muito bom e dá muito certo. Eu amo.

Vocês se conheceram em “O Homem de La Mancha”. Gostaram-se de cara?
Olha, foi um tanto conturbada essa história, porque ele namorava há mais de dois anos e eu estava noiva com outro rapaz, já há quatro anos e meio. A gente se conheceu em uma situação totalmente inusitada, mas era uma daquelas coisas que tinha que ser, sabe? Mas foi bem difícil e bem… uma luta para ficarmos juntos. Mas, no final das contas, deu tudo certo. Era pra ser mesmo.

Você começou a carreira bem novinha. Já pensou em fazer outra coisa em algum momento?
Olha, eu estou agora me produzindo, o que já é uma coisa muito difícil. Minha natureza não é de produtora, é de artista. Eu sou artista. Olha, eu me viro. Eu não sou quadrada, não. Eu tenho outras paixões, outras coisas que eu gosto de fazer, mas tendo a opção – e até o final eu vou sempre lutar para continuar sendo uma artista, porque é minha paixão.

Quando você começou, ainda criança, foi uma coisa dos seus pais?
Não, foi uma coisa completamente minha. Eu tinha oito anos de idade – lá nos Estados Unidos, porque eu morava fora – e tinha um coleguinha da escola que trabalhava como ator. Um dia, conversando, ele me contou como era, que era legal, e que se eu quisesse a mãe dele poderia me dar os contatos. Eu cheguei em casa e falei para minha mãe que tinha conseguido um trabalho e que era para ela ligar para aquelas pessoas ali. Falei que eu ia lá trabalhar de atriz com meu amigo. Foi uma coisa que partiu totalmente de mim.

São quase 25 anos de carreira só de teatro musical, desde o primeiro espetáculo, “Banana Split”. Você testemunhou, de dentro, a evolução do teatro musical brasileiro. O que mudou ao longo dessas décadas?
Eu acho que, quando comecei, quem fazia musical era um pessoal que realmente tinha um amor muito profundo por musical, porque as produções eram todas super… até mambembes, em algumas situações. Com a vinda da CIE, que agora é a T4F, tudo tomou uma proporção muito maior e muito mais profissional, com o fato dos produtores internacionais virem ensaiar com o pessoal daqui, verem cada detalhe técnico dos espetáculos… Diretores também. Tudo tomou uma proporção muito maior. As empresas viram a oportunidade de investir em grandes produções. Acho que a gente vem de uma caminhada, e a gente ainda está crescendo no mercado. As pessoas do teatro convencional já estão aprendendo a aceitar mais o teatro musical – e a reverenciar e aceitar mais, porque ainda existe essa rixa besta aqui no Brasil de que “teatro musical não é teatro”, enfim. Eu acho que isso tudo, com o tempo, vai cair por terra. Mas também acho que isso depende muito da gente que faz teatro musical aqui – de fazer com muita seriedade sempre, de escalar os melhores elencos, de não economizar, de fazer boas escolhas. Eu acho que a gente está em um caminho bacana, mas que as vezes é desvirtuado ou por produções inexperientes ou que estão querendo chamar alguém famoso que não dá conta daquele recado específico do musical. Eu acho que o nosso teatro musical tem que ser muito bem cuidado, para ele poder prosperar sempre.

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Que personagem você ainda sonha em fazer?
Nossa, tantos! Daqui a algum tempo, eu adoraria fazer a personagem da mãe do “Next to Normal”, por exemplo. “A Pequena Sereia” tá vindo agora, e acho que eu curtiria fazer a Úrsula. Tá vindo “Legalmente Loira” e essa personagem também é uma delícia! Ah, a lista é meio sem fim, tá? São muitos musicais bons e personagens maravilhosas. Se eu pudesse ser onipresente e servir a todas, eu dava um jeito, porque é muito gostoso.

Quais foram os momentos mais felizes de sua carreira até hoje?
Cada conquista, cada personagem, cada estreia, cada desafio que consegui fazer bem, cada personagem que consegui fazer da maneira que eu achava bacana fazer. Cada experiência é única e acho que todas elas me transformaram na artista que eu sou hoje, e na artista que você vai poder ver no show “Silhuetas”. Todas essas experiências me moldaram como pessoa e como artista. Tive ene momentos felizes. Acho que toda personagem me deu uma grande felicidade. A que eu mais amei fazer, que falo para todo mundo, é a Donna de “Mamma Mia!”. Antes de “Mamma Mia!”, quando me perguntavam, eu falava: “gente, não sei responder, tenho um carinho especial por todas, lalalá”. Depois do “Mamma Mia”, eu sei. É a Donna, é a que mais amei fazer, também porque estava ao lado de duas grandissíssimas amigas minhas, que faziam minhas melhores amigas em cena, então a diversão era no palco e na coxia. Era muito gostoso.

E os momentos mais tristes ou difíceis?
Os momentos mais difíceis foram os que eu não acreditava em mim mesma, que achava que não ia dar conta, que não ia ser bacana. Ou no momento de você ouvir uma crítica que está vendo que não é construtiva e é até errada. Ou o momento em que você vê uma pessoa dando as costas para você porque ouviu uma fofoca que nem verdade era e não veio te questionar. Nesse nosso meio, muitas vezes tem muito ego, então a gente tem que lidar com isso e é triste, é difícil. Eu não gosto de “não estar bem” com alguém. Gosto das pessoas somarem, serem amigas, serem colegas e cada um se puxar para cima. Essas coisas sempre entristecem um pouco, mas a gente aprende com elas, segue em frente e tenta disseminar sempre coisas boas.

(Foto: Divulgação)

Você foi dirigida por Moeller e Botelho, Falabella, José Possi Netto, nomes internacionais e dividiu cena com inúmeros atores. Quais se tornaram amigos fora dos palcos?
Todos eles! Todos eles! Sou muito amiga de todos eles. Estou super feliz de reencontrar de novo o Charles e o Claudio. Acho que eles vão ao show. Por eu estar em São Paulo, a gente não consegue se ver tanto. A minha família é o pessoal do teatro musical. Eu moro em São Paulo, e minha família não mora aqui, então essas amizades acabam virando família. A gente convive muito nos ensaios, nas peças e nas temporadas, então eu sou muito amiga de todo mundo que você falou aí.

Como é ser considerada um dos nomes de maior peso do teatro musical brasileiro?
Uma super responsabilidade, que eu tento honrar a cada passo que eu dou.

Ser esse ícone do teatro musical te ajuda ou te atrapalha a conseguir novos papéis?
Tem horas que atrapalha e horas que ajuda. Atrapalha na questão que eu me cobro mais e a banca também (risos). Em vez de ser uma menina desconhecida: “quem é essa menina? Não sabemos. Vamos ouvir. Ooooooh! Ela canta bem”. É tipo: “ah, é a Kiara. Vamos ver o que ela vai fazer. Ela é maravilhosa, então…”. Quando vem os gringos, aí: “olha, essa é a Kiara, ela já fez isso, isso, isso e aquilo”. Eles ficam na expectativa de uma coisa muito bacana. É uma menina que já tem muita experiência, já fez grandes personagens. Eu já entro sabendo disso e pensando “tenho que me superar”, né? Tenho que mandar muito bem. Eu me cobro muito mais do que me cobrava aos 20 e poucos anos, quando estava ainda no início.

Quando você chega para um teste, não causa um frisson nas outras candidatas não?
Já aconteceu. É engraçado. (risos) Mas, na maioria das vezes, é normal as mesmas se encontrarem. Muitas colegas fazendo testes para as mesmas coisas. A gente já sabe que a outra vai estar lá, então está tudo certo.

As pessoas se surpreendem quando descobrem que você ainda faz audições, depois de ter estrelado tantos trabalhos importantes, né?
Sim, todo mundo se surpreende. Todo mundo. Outro dia mesmo, estava falando disso com um grupo de pessoas. Mas é porque muitas vezes vem diretores de fora, que não conhecem a gente, não conhecem o nosso trabalho. E você tem que montar um elenco inteiro, ver quem combina com quem, o timbre, o tipo físico, a altura, a idade, então é muito comum a gente ter que ir até para eles poderem ver as pessoas juntas e ouvirem a música na sua voz. Ver se você serve para aquele personagem. A gente está eternamente fazendo teste. Não tem jeito.

Como você lida com essa questão dos testes?
Se uma pessoa disser que gosta de fazer teste, ela estará mentindo, porque é muito chato se colocar em uma situação de estar sendo julgada. Às vezes, você está sendo julgada por pessoas que talvez nem tenham embasamento suficiente para estarem te julgando. Existem situações assim também. Ou produções que olham para você e já pensam “nem vamos chamar a Kiara, porque a gente sabe que o salário dela vai ser mais alto. Chama o Fulano ali que tem pouca experiência”. Às vezes também acontece isso. É difícil. Tem muita gente que acha que a vida fica mais fácil depois de você ter um certo reconhecimento, mas em muitos casos dificulta.

Você se ressente de alguma desaprovação?
Eu gosto muito de meritocracia. Gosto muito de passar em um teste porque mandei bem e era a melhor opção para a personagem. Eu me ressinto muito quando não passo, vou assistir ao espetáculo e vejo que eu faria muito melhor. Aí eu fico bem ressentida.

Em recente transmissão ao vivo no Instagram, você disse que as pessoas “estão com mania de querer gente nova”. Você acha que tem o reconhecimento merecido?
Eu acho que, em muitas situações, não. Acho muito bacana ter cada vez mais pessoas novas no nosso meio, acho muito legal ter mais musicais acontecendo, só que feitos com qualidade. Acho que pessoas mais novas talvez não tenham a experiência suficiente para fazer um protagonista. Talvez um ensemble, uma coisa menor, para a pessoa ir adquirindo experiência – que nem eu. Tem muita gente que acha que o primeiro espetáculo que fiz foi “A Bela e a Fera”, porque foi o primeiro em São Paulo e o primeiro espetáculo de grande porte. Mas essa é a maior mentira possível, porque eu fiz ene espetáculos pequenos, às vezes no ensemble, superescondida. Às vezes, espetáculos que nem coloco no currículo, de tão ruins que eram. Tudo isso te dá experiência, cancha de palco. Até as coisas ruins te dão muita experiência, para você chegar e fazer uma protagonista. É muito frustrante, como artista de musical, e fã de musical, porque quem trabalha com isso é fã, é muito frustrante assistir a um espetáculo e ver que ele não está bem montado, que não está bem dirigido, que o elenco não foi bem escalado. É muito, muito frustrante. Mesmo.

Para se tornar uma atriz de musical do seu calibre, com tantas protagonistas e uma carreia longeva, do que você teve que abrir mão?
Desde muito jovem, tive que abrir mão de sair para balada com os amigos, abrir mão de ir para a escola convencional no fim do Segundo Grau. Eu só ia fazer as provas, e estudava em casa. Eu fazia teatro, ia dormir tarde e não tinha condição de estar no dia seguinte na escola 7h da manhã. Até hoje, eu abro mão às vezes de sair com os amigos para ir a algum bar para conversar. Sempre escolho algum lugar em que não vá fazer nenhuma competição vocal. Dependendo de como estou, abro mão de gelado ou de sorvete. Tem ainda a chatice de entrar em algum lugar e ter que pedir para desligar o ar condicionado – ou ficar longe dele. São as escolhas que a gente faz na vida, e vou sempre optar pela minha arte, que é minha paixão.

(Foto: Divulgação)

Que cuidados você tem na sua rotina para se manter pronta e fresca para qualquer oportunidade, qualquer papel?
Como moro em São Paulo, que é um lugar muito insalubre, tento fazer lavagem nasal todo dia. Tenho um spray bactericida que gosto de usar na minha garganta, que é para matar alguma coisa que possa já estar começando. Sempre que alguma coisa está saindo do eixo com relação à alergia ou à minha garganta, já ligo para meu otorrino. Estou sempre agasalhada. Sempre saio preparada com algum casaco, cachecol, toquinha. Estou sempre prevenida para me defender de frio. Esses cuidados que já viram uma segunda natureza.

Você ainda estuda?
Já fiz muita aula com muitos professores muito bons, mas estou em um momento em que estou estudando sozinha comigo mesma. Até para meu show, não fiz nenhuma preparação com ninguém. Eu me preparei sozinha, porque tem muita coisa que já virou orgânica. Muita gente me pergunta se eu daria aula de canto e eu nunca dei, porque eu acho que não sei nem mais como explicar. Os caminhos que encontro dentro de mim já são orgânicos. Não preciso pensar muito para fazer, sabe? Não sei se eu consigo colocar em palavras.

Ao longo da carreira, já teve que se apresentar doente, de luto ou algo assim?
Doente, inúmeras vezes. Inúmeras vezes! Nunca tive que me apresentar passando por um luto, mas já me apresentei após ter uma briga horrorosa com o namorado e ter terminado. Péssimo! É muito ruim! Já tive que me apresentar com ene problemas médicos – vocal, tendinite, cólica, febre, enfim. Tudo. Pensa aí que eu provavelmente já me apresentei nessa situação precária.

Com Lázaro, em “O Palhaço e a Bailarina” (Foto: Divulgação)

No ano passado, você apresentou um musical autoral, “O Palhaço e a Bailarina”. Teve a ver com um desejo de se autoproduzir e não depender de convites e audições?
Com certeza. Também de fazer uma coisa própria, de gerir da maneira que eu acho correta. Já aconteceram na minha carreira momentos em que fui infeliz em uma produção ou outra, por ter um tratamento que eu não concordava, passar por injustiça, não ser respeitada, então eu tinha muita vontade de ter uma produtora até para ser um exemplo de como gerir, como tratar, como equilibrar o business com a arte, sem deixar nenhum dos dois se sobrepor ao outro. Também criar algo próprio, e ter essa experiência da criação, que eu nunca tinha tido. Eu e Lázaro fizemos uma coisa 360: foi do iniciozinho até o fim, tudo teve um envolvimento direto nosso. O espetáculo ainda existe. A gente está tentando captar para fazer viagem, para ir ao Rio, inclusive. É o nosso espetáculo. Isso que é o bom de ser nosso: a gente pode botar ele para rodar quando quiser. É um espetáculo muito lindo e que a gente deseja que seja visto por muitas famílias, se Deus quiser.

Você falou antes que a produção não é de sua natureza. Como foi essa experiência de levantar um projeto seu pela primeira vez?
Ainda está sendo! Cada projeto é único, cada temporada é diferente, e a gente vai aprendendo com nossos erros. A gente já evoluiu muito em produção. É um eterno aprender. Acho que é como artista: a gente começou no final de 2015 e a gente ainda é muito bebê com relação à produção. A gente ainda está aprendendo e acho que vai aprender muito ainda. Se Deus quiser, cada vez aprimorando e fazendo o melhor, tanto para gente quanto para quem trabalha conosco.

Pensa em escrever outros musicais?
A gente já tem um monte de roteiro! Ideia é o que não falta.

Há muitos rumores em torno do seu nome. É verdade que você estava acertada para ser a Mary Poppins na montagem que não aconteceu?
Não. (risos) Eu estava entre as finalistas, mas não tinha nada certo, não.

E “Wicked”? Você canta algumas músicas no “Silhuetas” e já vi uma entrevista antiga sua dizendo que gostaria de fazer a Glinda. Fez teste?
Fiz.

O que achou do trabalho da Fabi Bang?
(ri sem graça) Eu prefiro não comentar. (pausa) Eu acho que é uma questão de opções cênicas. Uma questão de direção e de opções cênicas. Eu tenho um carinho muito grande por essa personagem e por esse espetáculo, e eu teria feito de uma maneira muito diferente.

Qual musical que você ficou mais decepcionada por não ter feito?
Esse foi um que fiquei extremamente decepcionada. Acho que de todos, posso dizer que esse está no topo da lista.

Já teve algum trabalho que você fez sem gostar?
Eu acho que houve sim essa situação, mas não do lado artístico. Mas desse lado que te falei de não ter o respeito devido de alguém da produção, ou de alguma treta de elenco, alguma coisa assim. Não pelo espetáculo. É sempre uma questão de bastidor.

(Foto: Divulgação)

Como você se vê daqui a dez anos?
Eu me vejo mãe de duas crianças lindas e talvez fazendo essa personagem do “Next to Normal” que eu te falei. Eu ia adorar. De preferência, produção minha, que aí já fecha tudo. (risos) Com direção do meu marido!

Que sonho você ainda não realizou?
Pessoalmente, ainda o sonho de ter filhos. Profisisonalmente, acho que levar minha vida e minha carreira para fora. Estou esperando aquele momento ideal. Espero que algum dia ele chegue (risos), porque nosso país não está ajudando. Gostaria de voltar para os Estados Unidos, agora com meu marido, minha família. Vamos ver. Quem sabe?

Você iria para Nova York ou para Los Angeles?
Eu não faço a menor ideia. Acho que iria para Los Angeles, porque lá tenho minha base, minha família está lá. Acho que Los Angeles é um lugar mais tranquilo do que uma ilha de Manhattan para ter uma família, filhos, etc, mas não abandono a ideia de alguma coisa em Nova York também, talvez moraria nos arredores, alguma coisa mais casa, mais família, que eu gosto. Estou deixando a vida me levar. Vamos ver para onde é que vai.

Que conselho você dá para quem quer trilhar a carreira no teatro musical?
Estude, estude muito. Não vá fazer seu teste achando que já vai pegar uma protagonista, mesmo porque, se você pegar, as maiores chances são de que você não vá fazer um trabalho tão bacana. É necessário ter experiência, ter cancha, começar pequeno. Nunca é bacana começar grande. São poucas as pessoas que começam grande e já acertam de cara. A gente não nasce sabendo tudo. Tudo é um aprendizado. Esteja sempre correndo atrás de se melhorar. Não acredite em tudo que te falem – não acredite em todos os elogios que ouve. Tenha autocrítica, pelo amor de Deus. Acho que o que falta aqui no Brasil, muitas vezes, é a pessoa saber olhar para si, saber que aquilo pode melhorar. “Deixa eu me aprimorar aqui…”. Sempre buscar o aprimoramento. Isso nunca acaba. É uma busca infinita. Tentar sempre fazer o melhor trabalho e ser a melhor pessoa que você pode ser. Saber se defender no meio artístico, porque ao mesmo tempo que tem muitas pessoas que somam tem muitas pessoas que sugam. E saber que NÃO VAI SER FÁCIL. Escolher essa carreira nem sempre concorda com nosso bolso e com nossa conta bancária. É difícil, é difícil. Como qualquer carreira é difícil, mas no caso específico da nossa é completamente instável, então saiba que a luta será eterna. Os testes jamais acabarão. (risos)

(Foto: Caio Gallucci)

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SHOW: qua, 21h. R$ 60 a R$ 80. 65 min. Classificação: 12 anos. Dia 14 de junho. Theatro Net Rio – Rua Siqueira Campos, 143 – Copacabana. Tel: 2417-8060.

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