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Kiko Mascarenhas tira do bolso para bancar ocupação teatral: “meu investimento é em 1º lugar no palco”

(Foto: Jorge Bispo/Divulgação)

Kiko Mascarenhas (de “O Camareiro”) estreia seu novo espetáculo, “Todas as Coisas Maravilhosas”, nesta sexta (76) no Teatro Poeirinha, em Botafogo. É ao mesmo tempo um desafio em sua carreira e uma celebração de seus 35 anos de profissão. No palco, ele dá vida sozinho à história de um filho que, ainda criança, tem que lidar com a depressão e os rompantes suicidas da mãe. Para ajudá-la, ele passa a fazer listas das maravilhas do mundo, tópicos que convençam sua mãe de que vale a pena viver. Para Kiko, um desses motivos é o poder transformador do teatro e, por acreditar nisso, ele levantou a montagem com recursos próprios, sem patrocínio. Quer mesmo contar essa história e provocar o público para “todas as coisas maravilhosas” que existem.

— Tem pessoas que investem seu tempo e seu dinheiro em viagens, em bens… A minha viagem, o meu investimento, é em primeiro lugar no palco. Não é fácil. Não foi fácil. Acho que nunca será fácil (riso nervoso). A gente só precisa agora do elemento principal, que é o público. Tudo que a gente faz no teatro é pensando no público. Nosso maior desejo agora é que o público vá assistir. — ele diz ao Teatro em Cena.

De acordo com dados mais recentes do Ministério da Saúde, o Brasil registra em média um caso de suicídio a cada 46 minutos. É a quarta maior causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos no país. “Não é pouca coisa. Isso só no Brasil. A depressão e o suicídio são temas sérios, seríssimos. São considerados, hoje em dia, uma epidemia mundial”, frisa o ator. O tema é realmente denso e alarmante, mas a peça busca uma maneira leve e bem humorada para tratar do assunto, considerado até pouco tempo um tabu. Apresentada na Inglaterra e em Nova York, levou as plateias aos risos, acredite se quiser. Lá fora, quem deu conta do monólogo foi o comediante britânico Johnny Donahoe, que divide os créditos da dramaturgia com Duncan MacMillan. Aliás, a performance dele pode ser vista atualmente no documentário homônimo que vem sendo exibido pelo canal pago HBO Signature.

(Foto: Divulgação)

— O humor está na maneira como essa história é contada. Está nesse personagem e na forma como ele tenta driblar a depressão da mãe. Tem coisas muito engraçadas nessa lista e na maneira como ele tenta fazer com que essa mãe enxergue a vida. É uma história leve, tratando de temas muito, muito, muito relevantes, muito sérios. — pontua Kiko, que adianta que contará com a ajuda dos espectadores para conduzir a trama — A interação é feita de uma maneira muito cuidadosa, muito delicada. As pessoas são convidadas a participarem da peça dando pequenas colaborações. Eu sugiro pequenas ações, pequenas falas. Eu peço alguns objetos e a plateia vai colaborando e montando essa narrativa comigo, obviamente sem ser uma coisa invasiva, agressiva. Existe um convite sendo feito o tempo inteiro, de uma forma muito, muito, muito gentil e cuidadosa.

O monólogo faz parte de uma ocupação idealizada e produzida por Kiko no Teatro Poeira. Além de seu solo, está em cartaz de terça a quinta-feira “Meninas e Meninos”, estrelado por Maria Eduarda de Carvalho (de “Atrás do Mundo”), na pele de uma mulher abrindo corajosamente sua vida e suas questões com sexo, maternidade e machismo. A direção é de Kiko em parceria com Daniel Chagas (de “Re-Trato”). De sexta a domingo, ele entra em cena.

— A ideia da ocupação era pegar um espaço e trabalhar dois monólogos, que fossem atuais, contemporâneos, com temas relevantes. Não existia outra forma de pensar produzir neste país, que não fosse monólogo. Antes mesmo da mudança de governo, a busca por patrocínio já estava ficando praticamente inviável. As empresas não colaboravam. Começaram a selecionar só espetáculos que tivessem uma visibilidade muito grande, como musicais ou com grandes estrelas em cena. O desafio é se organizar para dirigir, atuar e produzir com qualidade… na raça. Sem dinheiro. Com recurso próprio. – desabafa o artista.

(Foto: Jorge Bispo / Divulgação)

TEATRO EM CENA – Você está completando 35 anos de carreira e decidiu comemorar com um monólogo. Era uma vontade antiga?
KIKO MASCARENHAS – Eu nunca tinha imaginado um monólogo. Mesmo. Não era um plano. Não tinha o planejamento de fazer essa comemoração dos 35 anos de carreira com um monólogo, mas o [tradutor] Diego Teza me apresentou esse monólogo, eu fiquei muito na dúvida no início, por não saber se eu iria dar conta de fazer, mas o texto é tão irresistível, o personagem é tão sedutor, e o jogo com a plateia é tão único que foram fatores determinantes para eu decidir produzir essa peça.

Para o ator, um monólogo é um desafio, uma vaidade ou uma conquista?
Sem dúvida, monólogo é um desafio. E uma conquista. Acho que não passa pela vaidade e sim pelo desafio mesmo de você contar uma história sozinho, sendo que você não está sozinho, porque tem a plateia ali. Especialmente neste monólogo, a plateia ajuda a contar a história. O Marcos Caruso me falou uma coisa bem bonita esses dias, porque ele está fazendo “O Escândalo Philippe Dussaert” e também foi dirigido pelo Fernando Philbert. A gente estava trocando uma ideia quando estava gravando “A Escolinha do Professor Raimundo” e perguntei como era essa experiência de estar em cartaz com um monólogo há bastante tempo. Ele disse que, durante muito tempo, se sentiu bastante sozinho, mas um dia se tocou que você, quando está em cena, não está sozinho nunca, porque aquele ator que está ali foi construído durante muitos anos. Dentro de você, você carrega todos os atores que contracenaram contigo, todos ensinamentos e experiências que você teve com os diretores, todas as equipes de criação, todas as equipes técnicas, camareiras, contrarregras, operadores… ou seja, dentro de você, tem uma multidão que te ajudou a chegar onde você está. Eu acredito muito nisso. Fiquei muito comovido com essa observação do Caruso e confesso que, a partir daí, não me sinto mais sozinho. Não tenho essa impressão mais de que vou estar sozinho em cena.

Por que escolheu “Todas as Coisas Maravilhosas”?
É um texto com uma carpintaria única. É um monólogo que propõe um jogo com a plateia. Um jogo de interação muito delicado, muito simples. É uma história que não é contada somente por mim. É contada por mim com a ajuda da plateia. Esse elemento talvez tenha sido o ponto determinante para fazer esse monólogo. Ele trata de vários assuntos – o amor de um filho por uma mãe, o amor de um homem pela vida – e trata de duas questões bem sérias, que são a depressão e o suicídio. Como lidar com isso? Mas trata de uma forma muito leve, muito bem humorada, e também muito delicada. Não tinha como virar as costas para esse texto. Não tinha como engavetar esse projeto. É o projeto que você sabe que, quando bate na sua mão, você tem que fazer. O momento que a gente está atravessando e tudo que eu li acabaram me convencendo que era a escolha certa para o momento certo.

Como descobriu essa peça?
A peça é uma descoberta do Diego Teza, que além de ser um ótimo tradutor, talvez um dos melhores tradutores que a gente tenha no momento, ele é um grande curador. Além de pesquisador de textos, ele é um grande curador e o olhar dele está sempre voltado para questões contemporâneas de relevância social, assuntos que dialogam com o momento presente. Quando recebi esse texto, fiquei muito comovido no primeiro momento, muito interessado, mas com muita dúvida de fazer. O Diego conseguiu me convencer (risos)… para minha sorte.

Você já vivenciou a depressão de alguma maneira?
Sim. Quem não? Quem não viveu ainda uma depressão – um momento de depressão, uma fase de depressão, um período às vezes longo de depressão? Existem diversos níveis de depressão. Tem uma fala da minha personagem que diz que se você tiver uma vida longa sem nunca ter sentido uma depressão esmagadora é porque você não prestou atenção na vida. A vida, de uma forma geral, não é um mar de rosas, não é uma felicidade. A felicidade nos é dada em doses. Se você observar o mundo de um modo geral, é muito fácil ficar deprimido. As notícias estão aí diariamente para te jogar diante de uma realidade muito cruel. Mas a depressão serve para o seu crescimento. É impossível crescer sem você sentir essa dor, então a depressão faz parte da vida. A gente tem que discutir a depressão. Quando ela passa dos níveis aceitáveis e controláveis – e muitas pessoas chegam a esse ponto, em que o desespero e a dor são tão grandes, que desistem do bem mais precioso que a gente tem, que é viver – realmente é um problema, e a gente está vivendo isso agora.

Você produziu essa ocupação no Teatro Poeirinha sem patrocínio. Qual sua opinião acerca das mudanças na lei de incentivo à cultura? Acredita que realmente vai ajudar a democratizar e diversificar os investimentos das grandes empresas?
A Lei Rouanet precisa ser revista. Desde que a lei existe, está na mão do marketing das empresas o que entra e o que não entra em cartaz. Há 30 anos, a grande maioria dos espetáculos que entram em cartaz é uma decisão do marketing das empresas. Nem sempre o marketing das empresas está aparelhado, qualificado, para escolher um projeto de relevância. Para as empresas, o mais importante é que o nome delas esteja atrelado a grandes nomes de pessoas famosas ou a grandes eventos, que deem visibilidade para elas. Ou seja, a preocupação não é com a cultura. É com a marca, com a empresa em si. Essa questão precisa ser revista urgentemente. Uma outra questão é como essas verbas foram usadas, e a prestação de contas dessas empresas. Eu acho que a gente está atravessando um momento em que está se tentando passar o Brasil a limpo e não tem como você mexer na lei sem antes você analisar, passar um pente fino em tudo que foi feito nesses anos, quem manipulou esse dinheiro, de que forma esse dinheiro foi usado. É preciso mapear isso para que fique mais claro, até mesmo para que a máquina funcione de outra maneira a partir dessas mudanças, beneficiando outros projetos, outros grupos, outras regiões. Está sempre muito concentrado na região sudeste, entre Rio e São Paulo, e a gente tem um Brasil inteiro! Em cada pedaço desse Brasil, existe um grupo fazendo teatro. Isso é real. As pessoas produzem com nada. É preciso, então, essa democratização, essa inclusão, essa análise. Eu realmente não tenho a solução para isso – adoraria ter – mas é fundamental que a lei seja revista, e não abolida.

Qual sua perspectiva para o futuro da arte e da cultura no Rio de Janeiro?
Não dá para esperar dos nossos governantes aqui no Rio de Janeiro uma coisa que a eles não interessa. A cultura é transformadora. Ela faz com que as pessoas reflitam, e isso não é interesse de nenhum governante. Mas eu sou um cara otimista e acho que resistir agora é muito mais importante do que sempre foi. Com patrocínio, sem patrocínio, revendo as negociações entre produção e teatro, tendo o apoio da mídia…. A mídia é muito importante para a cultura. Se existisse esse entendimento, esse apoio da mídia para a cultura… Se a gente tivesse metade do espaço que os esportes têm na mídia, a cultura melhoraria muito. Eu não vou dizer que ela estaria salva, mas ela melhoraria muito. Você abre o jornal e você tem um caderno de esporte inteiro, e uma página falando de cultura. Às vezes você tem um caderno inteiro com fotos enormes de jogadores de futebol, enfim. Esse desequilíbrio prejudica muito, mas eu tenho fé e esperança de que a mídia, de uma maneira geral, passe a ajudar, a colaborar, com o trabalho que a gente vem realizando, porque a gente vai continuar realizando. A gente não vai parar. O teatro não vai morrer. Pelo menos, se depender de mim e de um monte de colegas que tenho, o teatro vai continuar existindo e a arte continuará sendo feita. A gente só precisa que o público saiba e que as pessoas sejam informadas, incentivas a irem ao teatro, ao cinema, ao ballet, aos concertos… Se isso perde o valor para uma sociedade, é uma calamidade. Eu sigo confiante. É isso.

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 19h. R$ 60. Classificação: 14 anos. Até 28 de julho. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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