Entrevista

Larissa Luz, do tira-o-pé-do-chão ao vírus no sistema

Rompi com a estrutura do grande mercado da música baiana para fazer o que eu queria

(Foto: Silvana Marques)

De quinta a domingo, a cena se repete: os espectadores do musical “Elza” saem do Teatro Riachuelo comentando o quão impressionados ficaram com o trabalho de Larissa Luz. A frente de um elenco de sete atrizes, a baiana chama a atenção por reproduzir perfeitamente o timbre rasgado e os gestual típico de Elza Soares, a estrela que o espetáculo retrata. Foram três meses de preparação, ouvindo muito as músicas e aprimorando a habilidade. “Já tinha facilidade de rasgar um pouco a voz, mas claro que é bem diferente eu cantando em meu trabalho autoral. Estudei para aproximar dela mesmo. Mas estudei mais ouvindo do que tentando fazer”, ela conta ao Teatro em Cena, “chegava ao ensaio e tentava partir do movimento e da cena. Eu fiz muito pouco em casa isso. Quis testar dentro do contexto do ensaio, tentando deixar vir uma coisa mais natural. É entender a essência de cada gesto, e não reproduzir os gestos e os timbres. Queria entender de onde partia, para poder sair naturalmente e não ter uma limitação superficial”. O resultado agradou não apenas a plateia, mas a própria Elza – que lhe deu dicas antes da estreia e foi assistir ao musical na primeira semana. Ficou emocionada.

As duas já haviam gravado um dueto, “Território Conquistado” (2016), que deu título ao segundo álbum solo de Larissa, e também cantado juntas na cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2016, no Maracanã. No evento, apresentaram a canção “Canto de Ossanha” no centro do estádio e foram vistas por uma audiência entre 2,5 bilhões e 3 bilhões de telespectadores. Na época, ninguém sabia, mas Larissa já era cotada para o papel no musical biográfico. Ela foi convidada por Andrea Alves, da produtora Sarau Agência de Cultura Brasileira, desde o início do projeto. Elas se conheceram em 2013, quando Larissa estreou no teatro musical sob os cuidados de João Falcão em “Gonzagão – A Lenda”. Foi dele a ideia de transformá-la em Elza.

– Vi Larissa Luz pela primeira vez em um clipe da banda Araketu, e a imagem de Elza Soares jovem me veio imediatamente à cabeça. – conta o diretor, que também trabalhou com ela em uma montagem de “Ópera do Malandro” – A partir daí comecei a tentar convencer produtores a realizar um espetáculo musical com Larissa interpretando o papel da minha cantora favorita. Fiz duas peças com ela para mostrar que, além de cantar, ela poderia atuar lindamente. Até que um dia li a notícia de que Larissa viveria Elza no teatro. Não tenho dúvida de que ela brilhará.

(Foto: Rafaela Uchoa)

A carreira no teatro é recente: “Elza” é apenas o terceiro espetáculo de Larissa. Envolveu-se tanto com o processo criativo que, além de atriz, é creditada como co-diretora musical. Compôs para algumas cenas e criou arranjos. A segurança foi adquirida por sua longa estrada artística. Hoje em dia, Larisssa está com 31 anos e mora no Rio de Janeiro. Mas o início de sua carreira remete à infância, no subúrbio de Salvador. Estimulada pela literatura, apresentada pela mãe, desenvolveu a criatividade e imaginação, interessando-se desde cedo pela arte. Aos 12, já sabia o que queria ser: cantora e atriz. “No princípio, minha mãe achou ruim, porque falou que filha de pobre tinha que estudar. ‘Não dá para ser esse negócio de artista, não’. Depois ela viu que não tinha jeito, que era isso mesmo que eu queria, então segurou na mão e veio junto”, lembra. O início se deu em bares e hotéis até que, aos 20 anos, foi convidada para fazer testes para entrar em uma banda. Ela não sabia, mas era para o Araketu, grande nome do axé e do pagode baiano. Ela passou. Era roqueira, mas aceitou a proposta, que poderia mudar sua vida financeiramente. Ficou cinco anos no grupo, rodando o Brasil e comandando trio-elétricos para uma multidão de gente no Carnaval de Salvador. Até que cansou. Pediu para sair. Já estava com 25 anos e tinha mais noção do que queria e, principalmente, do que não queria.

Ela ainda é figura ativa no Carnaval de Salvador, mas de outra forma. O “tira-o-pé-do-chão” vem acompanhado da mensagem que deseja passar para o público. Uma de suas músicas diz “procuram-se bonecas pretas, procura-se representação!”. Sua arte é um ato político. Sua galera na folia deste ano foi Karina Buhr, Emicida e Pitty. Os locais frequentados, outros. Nas cinzas, Larissa usou o Instagram para comemorar a conquista pessoal e profissional: “esse carnaval pude me sentir realizada por estar imprimindo questões relevantes no meio da folia. (…) Demos o nosso recado. Fomos o vírus no sistema. Estivemos lá”. Mas sair do Araketu, que lhe dava projeção e segurança financeira, exigiu coragem. Mas era algo que ela precisava fazer.

Larissa Luz na época do Araketu (Foto: Reprodução)

– Rompi com a estrutura do grande mercado da música baiana para fazer o que eu queria. A gente sabe que não temos mulheres negras no front nesse mercado. É Margareth Menezes e só. Para por aí. Não é uma coisa tranquila. Não somos bem aceitas. O caminho foi muito difícil. Quando eu percebi que estava vivendo aquilo ali, sendo oprimida pelo sistema, falei “para tudo”. Quando vi, estava cedendo a todas as pressões do mercado e da indústria, entendeu? “Você tem que ser assim, seu cabelo tem que ser assim, seu corpo tem que ser assim, seu nariz não tá legal, a gente podia dar um jeito”. É muita questão. Eles querem embranquecer a gente de toda forma, mesmo quando permitem que a gente esteja lá. Quando eu vi isso, “caramba!”. Inclusive musicalmente, as referências. Eu falei “vamos fazer música de preto!” É o que é. Mas eles não deixam a gente ser. Quando percebi isso, falei “não”. Quando me encontrei, vi que estava no lugar errado, entendi o que eu queria. Eu quero falar da minha história, da minha essência, e romper – tive que ter coragem – me fez entrar em um processo grande de retomada da minha própria história. – ela lembra.

A carreira solo começou no mesmo ano de sua saída do Araketu, com o lançamento do álbum “Mundança” (2012). Imediatamente, Larissa assumiu um tamanho muito menor no mercado, mas se esse era o preço ela estava disposta a pagar. “Fiquei aliviada de estar livre das amarras da estrutura. O resto, eu me virava. É difícil? É. Vou ter que me readaptar? Vou. Mas eu dou meu jeito. Pelo menos vou ser livre para poder fazer o que quiser, falar o que quiser, criar, experimentar, então isso aí se resolveu muito rápido. Em um instantinho, eu já estava reconstruindo toda minha estrutura”, conta. Como artista solo, suas canções ganharam um caráter mais político. Colocar-se como mulher, negra e periférica é importante para Larissa. Para seu segundo álbum, “Território Conquistado” (2016), indicado ao Grammy Latino, ela convocou a colaboração da antropóloga Goli Guerreiro, que ficou a cargo da pesquisa sobre mulheres negras e fortes na história. No mapeamento, claro, entrou Elza Soares.

Larissa no palco do musical “Elza” (Foto: Leo Aversa)

Quando a produção começou a captar para o projeto do musical “Elza”, Larissa Luz era o primeiro nome certo na ficha técnica. Ouve-se falar do projeto desde 2016. As audições para escolha do restante do elenco aconteceram em março. Inicialmente, a direção ficaria a cargo de Rafael Gomes (de “Gota D’Água [a seco]”), mas ele teve que abandonar o barco no meio da caminho, sendo substituído por Duda Maia (de “Auê”), que se encantou pela atriz-cantora ao longo dos ensaios. “Larissa foi uma parceira de trabalho das melhores que já tive. Comprometida e engajada. Cuidadosa com o coletivo. Hoje, olhando de fora, percebo seu crescimento artístico, no processo, imensurável. Indico, admiro e adoraria dirigi-la mais vezes”, diz a premiada diretora. Para Larissa, foi também uma experiência nova: dirigida por uma mulher, produzida por outra mulher, contracenando apenas com mulheres, com uma banda integralmente feminina. No Araketu e nos espetáculos anteriores, em que contracenou com a Barca dos Corações Partidos, ela era a única mulher entre homens.

– É diferente. Nós somos diferentes, né? Homens, mulheres, querendo ou não, são diferentes. Os meninos da Barca são incríveis. São meninos especiais, abertos ao diálogo e às experimentações. Mas nós mulheres somos uma fatia importante da população e passamos por muitas violências: muitas mulheres morrem assassinadas pelos maridos, tem a violência estética, a questão dos salários… Então, nós estamos lá embaixo na pirâmide. É carregado de uma série de questões. Ser homem de classe médica é bem mais fácil, mesmo. Tem menos coisa para se preocupar, então talvez isso pese em algum momento ali na relação. Eu aprendo muito com as meninas. A gente trocou coisas muito agregadoras. – diz.

Com as colegas de elenco Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim (Foto: Silvana Marques)

TEATRO EM CENA – O que mais emociona você no musical?
LARISSA LUZ – Eu acho que a história dela é de superação extrema. Ela foi em um lugar da dor, que eu nunca imaginei que alguém fosse capaz de suportar. Ela não só suportou como superou e continua fazendo, continua se superando, indo além. Isso aí é transformador e me emociona a cada dia. Fez dos meus problemas todos um nada. Isso é muito emocionante. A gente está acostumado a lidar com os nãos. São sempre portas fechadas e não, não, não. Agora, de repente, viver a história de uma mulher que recebeu tantos nãos e hoje está onda está… é emocionante demais.

Elza Soares assistiu ao espetáculo logo no início da temporada. Qual foi o feedback dela?
Ela amou. Ela falou de pouquíssimas coisas da história, do pai mineiro, mais coisas de informações mesmo. Fora isso, ela respondeu lá na hora “que coisa maravilhosa!”. Chorou bastante. O empresário dela contou que ela apertava o braço dele e falava “meu Deus, sou eu!”. Eu amei isso (risos). Eu acho que ela queria muito se sentir representada e se ver ali. Ela dava a entender isso. A gente foi na casa dela [antes da estreia] e ela ficou me ensinando a fazer coisas que ela faz. “Aí você pega assim, aí você fala assim…”. Entendi que ela queria mesmo se sentir presente ali.

Como é sua relação com a Elza? Ela participou do seu disco e você cantou com ela nas Olimpíadas.
Sim, teve isso também! Eu fiz um trio de backing vocal para ela com a Maíra e a Dandara na abertura dos Jogos Olímpicos. Depois, a gente passou no mesmo edital da Natura, aí eu a convidei para fazer uma participação no disco, porque era uma música sobre mulheres negras e eu achei que ela tinha que estar. A gente se conheceu na festa da Natura do anúncio dos aprovados, criamos um vínculo ali e começamos a nos aproximar.

Cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio (Foto: Reprodução)

O que pensa uma pessoa enquanto canta no meio do Maracanã para uma audiência inigualável, para o mundo inteiro?
Eu pensei várias coisas! Mas uma das coisas que passou muito forte na minha mente foi o quanto a gente pode caminhar e alcançar. Quando eu botava minhas bonecas para cantar ou quando fazia show em barzinho anos atrás, eu não fazia a menor ideia de que realmente conseguiria chegar. Por mais que seja uma proporção X, que não é tão macro, a gente pensa “tem um monte de gente aqui, um monte de gente vendo, um monte de gente ouvindo” e dá uma sensação de que a gente pode mesmo. Quanto mais a gente trabalha, mais chances tem de chegar lá. Trabalhador comum, profissão: arte. Tem que trabalhar muito.

Pensando nesses eventos enormes, você despontou no Araketu e comandou trios em vários Carnavais em Salvador. Para uma pessoa acostumada a esses “mares de gente”, o que traz o teatro, com públicos tão menores?
Eu faço muitos shows em praças, lugares abertos, com gente em pé, dançando… é uma outra disposição energética e corporal. No teatro, são as pessoas sentadas, caladas, ninguém se mexe. Para mim, já é uma coisa totalmente diferente. Um público menor já diferencia mais, porque eu me sinto próxima daqueles que estão ali. Mesmo com o distanciamento da luz, porque a gente não enxerga as pessoas na plateia, eu sinto que é um lugar profundo e que vai em uma camada mais profunda da gente ali no palco. A gente começa atingir lugares mais profundos em termos de sentimento. Como tem a luz em você e as pessoas sentadas em silêncio, eu acho que cada movimento é uma coisa. Cada gesto, cada detalhe, é uma grande coisa. No show, pela disposição dispersa, talvez algumas coisas passem. No teatro, eu tenho a impressão de que estão vendo cada piscada que dou. Para mim, isso é bem diferente.

No musical da “Elza”, a plateia tem uns rompantes de energia que não aguenta ficar sentada e levanta para aplaudir, gritar, protestar. As pessoas têm uma relação catártica. Vocês sentem isso no palco?
Totalmente. Teve um dia que alguém gritou “Marielle presente!”, aí outra pessoa gritou o nome de outra pessoa que foi assassinada, aí outra gritou “Rafael Braga!”… estavam interagindo. Um protesto. É muito bonito quando, mesmo dentro desse contexto da plateia sentada no escuro, o público quebra essa barreira e invade nosso palco, sabe? E a gente abre. A gente troca. Esse espetáculo não é só uma apresentação. É um ato político também, e todo ato político, para mim, tem troca energética entre as pessoas. Não teria como ser diferente. Tem dia que falo o que não está no script, dependendo do que a plateia manda.

Musical “Elza” já está confirmado para turnê após a temporada no Rio (Foto: Leo Aversa)

Depois de Elza, tem alguma outra personagem que você gostaria de fazer?
Tem, mas não vou falar, porque… (risos) Não sei. Vou deixar em sigilo, porque de repente eu faça. É uma possibilidade.

Você só fez espetáculos originais brasileiros. Tem interesse em fazer também essas franquias da Broadway que vem para o Brasil?
Então, não muito.

Por quê?
Não é uma coisa que eu pense, não. Eu gosto muito de fazer coisas originais.

Provavelmente porque permite maior envolvimento na criação.
É, é outra relação com o artista. Eu, nesse espetáculo, eu fiz as programações eletrônicas, acabei assinando a co-direção musical com o Luís, porque acabei criando muita coisa em termos de arranjo e tudo mais. Eu escrevi coisas do texto. Tem música minha, tem poesia minha ali, sabe?

E nada disso estava previsto no início.
Não estava previsto. Eu fui fazendo e foi acontecendo. Quando eu vi, já estava mexendo no texto: “vamos botar isso aqui pra frente?”. Música que não tinha, eu sugeri de inserir em um lugar específico. Eu me sinto criadora junto. Eu participei da concepção, da criação. Eu meti mão. Talvez essas grandes franquias não funcionem assim, porque já vem com outra visão.

(Foto: David Campbell)

Voltando um pouco ao passado, como foi sua infância em Salvador?
Eu tive uma infância bem… (pausa) como que eu posso explicar? Eu transitei entre mundos quando era criança, porque eu morava em Amaralina, um bairro pobre de Salvador, – minha família sempre foi pobre, mas minha mãe conseguiu entrar para universidade pública e se tornar professora, aí conseguiu me colocar em uma escola particular. Isso fez toda diferença. Eu convivia com crianças de classe média alta, mas voltava para casa e era outra realidade. As crianças do meu bairro, meus primos, tinham outra realidade. Eu era uma das raras negras da escola e tentava entender isso. Passei um tempo querendo ser o que não era – querendo ter cabelo liso, querendo ter cabelo loiro – porque a referência na TV não era essa e na escola também não. Sempre fui muito só também. Sou filha única. Ficava nessa. Não queria levar meus amigos da escola em casa, porque minha casa era simples, não era igual a que eles estavam acostumados. E minha mãe me mostrou desde cedo a literatura, porque é professora de literatura. Aí ela me apresentou os livros.

A arte entrou cedo na sua vida também, certo?
Também. Nesse negócio de ficar só, eu ia entrando no meu mundo, né? Com a literatura, descobri uma infinidade de possibilidades com a imaginação, com a criação. Foi com quem me relacionei na infância. Tem vídeos de eu cantando, dançando, fazendo coreografia, ensinando as meninas a fazerem a coreografia que eu estava propondo. Eu com quatro, cinco anos.

Quando decidiu que queria seguir a carreira artística?
Decidir mesmo, acho que com 12, 13 anos.

Larissa Luz em ensaio do Araketu em 2010 com Daniela Mercury (Foto: Fred Pontes)

Quais eram suas referências artísticas na infância e na adolescência?
Muita coisa que minha mãe me passava. Nessa época, você fica meio refém das referências que seus pais te passam. Djavan, que minha mãe era muito fã, era uma grande referência. Tem a Daniela [Mercury] que, para mim, era… Eu cresci e fiquei refletindo muito. Ela é a grande representante da música negra da Bahia, porém ela é branca. (risos) Era muito doido, porque eu achava incrível e sempre fui muito fã dela. Mas depois que cresci e fui entendendo o movimento das coisas, pensei “gente, não era para ser uma negra?”.

Naquela época, não existiam muito essas discussões. Hoje em dia, as pessoas questionam mais.
Exatamente. Agora que a gente está entendendo mais coisas. Naquela época, não.

Você falou que sempre quis ser atriz e cantora. Em algum momento pensou que teria que optar só por uma vertente? Quando entrou para o Araketu, por exemplo.
É. Acabou sendo uma escolha, né? A carreira de cantora foi tomando uma proporção e fui deixando mais de ladinho a carreira de atriz, mas sempre pensando que chegaria o momento no qual eu conseguiria conciliar.

Chegou a trabalhar com outra coisa sem ser arte?
Não. Sempre fui cantora mesmo.

Que maravilha!
Aham. Quando era mais nova, fui fazer uma coisa para ganhar grana, né? Tatuagem de de henna! (risos) Mas eu nunca trabalhei com nada. Eu falava: “gente, é o que sei fazer, não vou fazer nada melhor do que isso aí [cantar]”.

Como você foi parar no Araketu?
Eu cantava em hotéis. Alguém passou, me viu cantando, falou “a gente está fazendo teste para uma banda, não quer participar?”. Falei “quero”, né? A gente quer tudo. Nem sabia o que era. Fui fazendo teste, fazendo teste e perguntei “mas que banda que é que ninguém me disse até agora?”. Aí a galera falou “é que Tatau está saindo do Araketu e a gente está pensando em uma mulher para substitui-lo”.

Como você recebeu a notícia?
Eu fiquei meio confusa, porque nunca tive uma relação muito forte com o axé. Sempre fui roqueira.

Larissa Luz na época do Araketu (Foto: Divulgação)

Sério?!
Totalmente do rock! A Pitty tinha uma banda de rock lá na Bahia que eu amava. Eu era dessa galera aí. Andava com camisa de banda de rock e tal…

Os amigos torceram o nariz para você, então.
Totalmente. A galera ficou “qual foi? O que aconteceu?” Mas eu também tinha uma ligação forte com a música preta e, quando fui procurar saber a história do Araketu, eu achei bem rock ‘n roll, para falar a verdade. “Gente, mas isso aqui é bom!”. A galera do bloco afro, que começou no subúrbio de Salvador, a negrada, e transgrediram mesmo, botando a harmonia junto com os tambores. Aí quando fui na história mesmo, na raiz, eu curti. “Vou encarar esse desafio aí”. Fiquei cinco anos na banda.

Como foi essa época? O Araketu tem uma proporção enorme.
Enorme. E eu não tinha nenhuma noção de nada, então eu aprendi pra caramba sobre mercado, empreendedorismo na música, produção, composição, sobre tudo que envolve mil questões e eu não fazia a menor ideia. Mas chegou uma hora que eu queria ter liberdade para criar, para expandir, para testar, para experimentar. Dentro daquela estrutura, era bem limitado para mim. Já tinha todo um esquema. Já tinha falado o que tinha que gravar, como, que horas, o que veste, o que faz… Aí fica ruim pra mim, porque meu tesão sempre foi criar, não era ser famosa.

Não queria mesmo ser famosa?
Nunca foi meu objetivo pessoal. Se eu ficasse megafamosa e todo mundo me conhecesse, seria uma consequência do trabalho. Não é o que eu quero. Eu quero trabalhar com arte. Construir o que quero, ter minha grana, viajar, fazer minhas coisas, mas trabalhando com a arte que eu acredito – que acho digna, legal, útil, importante, que está acrescentando alguma coisa na vida das pessoas. Eu não me dava bem com essa coisa de fazer grana com a arte, ficar muito famosa, ganhar muito dinheiro, mas não estar fazendo muito pela construção de uma nova realidade. Eu abri mão da fama.

Mas o Araketu mudou sua vida em termos financeiros?
Mudou, porque minha realidade era barzinho. Eu nunca imaginei que com 20, 21 anos, já teria carro, condição de comprar um apartamento… Essas coisas, para mim, eram muito distantes. Isso pesou muito, porque minha família sempre foi muito dura, todo mundo sem grana, tudo muito regrado, então quando surgiu a oportunidade de ficar bem, de ter essas coisas, de poder ir aos lugares, poder ajudar minha mãe, reformar casa… sabe? Pesou muito.

(Foto: Reprodução)

Qual conquista da sua carreira que mais te dá orgulho?
Eu acho que… conquista que me dá mais orgulho? Pô, não sei. Acho que gravar disco é incrível. Eu tenho uma relação afetuosa com cada projeto. Guardo como conquistas especiais. É tanto trabalho para poder chegar e conquistar, então eu guardo cada conquista como algo grande e significativo. Fazer o “Gonzagão”, gravar um disco sem grana, depois gravar outro com a Natura, depois o Grammy, depois “Ópera do Malandro”, aí chegar e fazer a Elza. Cada uma é um marco que guardo com muito carinho.

Falando do Grammy Latino, você chegou a ir à cerimônia?
Eu fui. Eu fui porque achei um máximo estar ali, sendo a única baiana, mulher, negra, periférica, que meto a mão e produzo minhas coisas, que saio em busca do que quero sem um grande empresário ou uma grande gravadora. É muito difícil fazer as coisas acontecerem. Com a Internet, está um pouco melhor, mas ainda é uma luta. Estar ali, para mim, era simbólico, representativo. Temos mulheres, negras, nordestinas, periféricas, no tapete vermelho, dando um bom close! Aí eu bem fui.

Alguém te influenciou ou ajudou nesse período de transição para carreira solo?
Quando fui fazer o disco, chamei uma antropóloga, Goli Guerreiro, para me ajudar a pesquisar as mulheres fortes, negras importantes na luta. Estava interessada em conhecer e mapear essas mulheres. Quem são essas mulheres que até hoje não conheci e não sei quem são? Eu quero saber muitas. Não quero três ou quatro. Quero várias. Quero conhecer esse mundo e me relacionar com ele. Eu não conhecia [a escritora] Carolina de Jesus quando comecei a fazer o disco, sabe? “Como que eu não sabia quem era essa mulher?” A Goli me ajudou a mapear essas mulheres e me relacionar com vários países da África. Ela me deu uma luz em vários sentidos.

Larissa Luz em “Ópera do Malandro”, dirigida por João Falcão (Foto: Leo Aversa)

Em 2013, você estreou no teatro musical com “Gonzagão – A Lenda”. Foi um convite ou um interesse que você foi atrás?
Foi um convite. O João [Falcão] estava procurando uma Gabriela, eu acho, anos antes do projeto se tornar real [ele fez “Gabriela, um Musical”]. Ia sair na época, mas acabou adiando. Ele procurava essa Gabriela e o cantor Zé Manoel, amigo de João, falou “conheci uma menina que pode ser uma boa Gabriela”. Ele me mostrou para João, que viu meus vídeos na Internet e gostou muito. Aí coincidiu de Laila [Garin] estar saindo para fazer “Elis” e ele pediu para a produção entrar em contato comigo. Eu falei “ah, vamos ver”. Expliquei que não tinha tanta experiência como atriz, mas que era algo que eu sempre quis. Ele falou “você é atriz já, vai dar tudo certo”. Aí eu confiei, né? João Falcão tá dizendo.

Você voltou a estudar teatro na vida adulta?
Não. Já retomei aí, fazendo.

Então você nunca precisou fazer teste, né?
Pois é. Nunca fiz.

Que fina! (risos)
(risos) Eu acho bom, porque teste é uma coisa estranha né? Apesar de tudo… Eu sei que é normal, natural, é a vida. Mas não sei se conseguiria mostrar meu potencial em um teste com várias vezes, com banca…

Mas quando você entrou para o Araketu foi isso também.
Foi. Mas foi mais dixavado também. Era “vem aqui, canta uma música”. “Gonzagão” foi isso: “vamos lá ler um texto com a gente, agora canta uma música aí”. Todo mundo ali… Descontraído. “Não, tá tudo certo, só para a gente ouvir”. Dali mesmo, “pô, tá ótimo, massa, veste essa roupa aí. Fala ali com a menina da produção para ver negócio de dinheiro…” Sabe? Não tem a formalidade da audição.

(Foto: David Campbell)

Qual seu sonho na carreira?
Meu sonho na carreira… Ah, eu quero que minha voz chegue ao máximo de gente possível, porque eu tenho alguma coisa para falar. Quero que meu trabalho transforme a vida das pessoas. Quanto mais gente eu conseguir transformar e atravessar, melhor. Mas eu quero muito poder conciliar a carreira de cantora com a de atriz, e fazer cinema, que eu não fiz ainda.

Você já está preparando o álbum novo?
Já. Estou em processo de criação desse álbum, que quero lançar neste ano ainda. Não sei se vou ter tempo, mas estou tentando.

Você atualmente mora no Rio por causa do espetáculo. Quando terminar, volta para Salvador?
Quando terminar, talvez eu vá para São Paulo. Eu sou bem cigana (risos). Eu fico onde o furdunço está, onde está o trabalho, onde está o movimento.

No Rio, você está sozinha? Ou casada, namorando alguém?
Bem sozinha! (risos) Pode botar aí que eu sou bem solteira (risos), para ver se dá uma agitada na minha vida aqui. Vai que ajuda!

Você se demonstra politizada em suas músicas e até no teatro, quando homenageou Marielle Franco. Como você vê as eleições presidenciais desse ano?
Hum… Tá puxado pra gente, né? Tá complicado. O que a gente está vivendo agora, eu nunca imaginei de viver. Começou desde a saída da Dilma, aí veio o Temer assumindo e fazendo tudo que ele fez, a entrada de candidatos como Bolsonaro – isso me assusta muito, eu nunca imaginei viver algo assim – e por fim a prisão de Lula. É uma situação que… Eu não quero perder a esperança, sabe? A gente precisa defender nosso direito de escolher nossos governantes, porque o que estão fazendo com a gente é ditador. Eles estão determinando o que querem e impedindo a gente de escolher. Isso é muito grave pra mim. Não é sobre defender políticos. É sobre defender nosso direito de escolher. Estão manipulando a situação. Eu tenho a sensação de que eles estão no controle. Eles, os que estão fazendo tudo isso. São eles que não se preocupam com o povo preto, com os pobres. Não estão nem aí. Mais do que isso: querem que a gente não exista.

(Foto: Silvana Marques)

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SERVIÇO: qui, 19h; sex e sáb; 20h; dom, 18h. R$ 40 a 100 (qui e dom); R$ 50 a R$ 130 (sex); e R$ 50 a R$ 150 (sáb). 120 min. Classificação: 14 anos. Até 30 de setembro. Teatro Riachuelo – Rua do Passeio, 38/40 – Centro. Tel: 2533-8799.

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