Lilia Cabral fala sobre teatro, estudos, Maria do Caritó… e foge de polêmicas – Teatro em Cena
Entrevista

Lilia Cabral fala sobre teatro, estudos, Maria do Caritó… e foge de polêmicas

Uma olhada rápida no currículo da Lilia Cabral deixa qualquer um impressionado. Estão lá as novelas “Vale Tudo” (1988), “Tieta” (1989), “História de Amor” (1995), “Anjo Mau” (1997), “Laços de Família” (2000), “Páginas da Vida” (2006), “Viver a Vida” (2009), “Fina Estampa” (2011), “Império” (2014); o filme “A Partilha” (2001); o filme e a série “Divã” (2009 e 2011); as várias vitórias no Troféu Imprensa; as duas indicações ao Emmy Internacional… Todos os trabalhos e conquistas sempre pontuados por temporadas no teatro, porque ela faz questão de estar sempre no palco. Se a TV e o cinema lhe dão visibilidade, popularidade e, claro, dinheiro, é no teatro que ela se alimenta. “Eu não acredito muito que você tenha um caminho maravilhoso só na televisão, se você não tiver o teatro na sua vida, porque você não se recicla”, ela diz ao Teatro em Cena, dias antes de estrear a temporada popular da peça “Maria do Caritó”, no Imperator, no Méier. É o quinto ano do espetáculo em cartaz, e ela o retoma exatamente três meses após o fim da novela “Império”.

(Foto: Globo/João Cotta)

(Foto: Globo/João Cotta)

Com o desfecho da trama do Comendador, na qual ela viveu a controversa Maria Marta, Lilia “sumiu”, como ela mesma diz. Depois de tantos meses entrando na casa dos telespectadores diariamente, viajou e se retirou de cena. De volta à cidade, aproveitou para ver os amigos em cartaz, outra maneira de se alimentar do teatro. Assistiu “Selfie” (“gostei muito”), “Cássia Eller – O Musical” (“que era ótimo”) e “Bilac Vê Estrelas” (“muito, muito boa”) – essas duas últimas de João Fonseca, o diretor de “Maria do Caritó”. Boa espectadora, também esteve no campus da UNIRIO para assistir à montagem acadêmica de “O Jovem Frankenstein”. Já tinha visto “The Book of Mormon”, do mesmo diretor, e estava curiosa. “É muito bom você ver aqueles jovens atores tão conscientes do trabalho que estão fazendo. Isso às vezes é raro, porque a gente vê a necessidade de um deslumbramento, de um sucesso ou do glamour e lá, especialmente naquele espetáculo, eram jovens totalmente entregues àquele picadeiro”, conta a veterana, que, no fim da sessão, fez questão de fazer um discurso elogiando o elenco. “Foi muito emocionante. Eu adorei, adorei. [A peça] Era maravilhosa e com nada de dinheiro, né? Nada!”. Empolgada com o assunto, ela tenta forçar a cabeça para se lembrar de outro espetáculo que viu recentemente, mas não se recorda. “Se não estou lembrando, é porque não era bom, senão eu lembrava!” (risos).

Lilia Cabral tem 57 anos e mais de 30 deles dedicados à profissão. Sempre quis atuar, mas não tinha noção de por onde começar. Destemida, correu atrás e descobriu um teste para a Escola de Arte Dramática da USP. Passou, e lá iniciou sua história. Teve aulas com Décio de Almeida Prado, Myriam Muniz, Gianfrancesco Guarnieri, Berta Zemel e Sábato Magaldi. “Fui pesquisando para saber como procedia toda a história do teste. Eu olho agora e penso que, se não tivesse tido coragem, jamais me realizaria. Eu me orgulho de nunca ter tido medo e, pelo contrário, de sempre estar pronta para enfrentar as dificuldades”. Por esse seu início, ela fica ainda mais tocada quando vê as notícias sobre o descaso com a Escola Martins Pena, no Rio. Quando o assunto é abordado, ela faz questão de demonstrar sua indignação. “É uma pena perceber que nossos governantes não têm a mentalidade de preservar uma coisa tão boa para o povo. Nada melhor do que estabelecer a cultura – e o teatro é cultura. A cultura é importante para a formação do cidadão. A situação da Martins Pena é trágica, é muito ruim… (se exalta) Bom… (suspira)”. Desiste do tema, triste.

Retrato da atriz em 1994 à esquerda; com Eva Wilma em cena 1985 à direita (Fotos: Reprodução)

Retrato da atriz em 1994 à esquerda; com Eva Wilma em cena 1985 à direita (Fotos: Reprodução)

Ela é uma grande defensora das artes cênicas como disciplina básica nas escolas. “Sabe como antigamente tinha? Música, artes plásticas, teatro, educação física, história, matemática, geografia… Tinha que estar”. Na opinião da paulista, que vive no Rio por conta da TV Globo, a inclusão do teatro na grade obrigatória dos colégios é importante para a formação das crianças e adolescentes. Ela acredita que o teatro ajuda a pessoa em formação a ter discernimento do que gosta de falar, de ouvir, e valorizar sua opinião. “Quando você vê uma peça de criança, ela vai dizer o que gostou mais, e vai mostrar opinião, desenvolver isso… Lógico que ter matéria de teatro não quer dizer que você vai ser ator, mas lá dentro vai te aculturar, vai fazer você querer assistir a uma peça, porque ela vai te abrir caminhos… O governo não acredita nisso, e não faz questão que isso exista”.

Dado o rumo da prosa, uma nova questão é apresentada à Lilia: e os modelos ou novos talentos que estreiam na TV sem qualquer formação? Em “Fina Estampa”, ela interpretou a mãe de Caio Castro – um galã da nova geração, que já declarou que não gosta de ler nem de ir ao teatro (mas já viu “Maria do Caritó” duas vezes, segundo ela). Lilia não condena. Ela acha que tudo é questão de costume. Mas opina que, se a pessoa escolheu seguir essa profissão, é interessante que estude, se aprimore e trilhe o caminho que a vocação sugere. “Acho louvável qualquer um começar, seja modelo, bailarino, o que for”, diz. “O [Reynaldo] Gianecchini, por exemplo. Ele começou como modelo, mas está sempre, sempre, sempre – você pode perceber – sempre fazendo cinema, teatro, principalmente teatro. Então você vê uma grande mudança no Giane de quando começou e como ele está agora. Ele trilha um caminho bonito como ator”. O galã também estreou em uma novela da qual ela fazia parte – “Laços de Família”.

Parceria com Aguinaldo Silva na TV: na novela "Fina Estampa", com Caio Castro, e em "Império", com Alexandre Nero (Fotos: Divulgação / Globo)

Parceria com Aguinaldo Silva na TV: na novela “Fina Estampa”, com Caio Castro, e em “Império”, com Alexandre Nero (Fotos: Divulgação / Globo)

Apesar da formação, Lilia Cabral se considera uma atriz bastante instintiva. “Isso eu tenho certeza que sou”. Diz que precisa de atores racionais para poder equilibrar sua intuição. Nos últimos anos, trabalhou com grandes nomes e também iniciantes em todas as suas áreas de atuação. Questionada sobre com quem ainda quer trabalhar, ela tem a lista na ponta da língua: o diretor Márcio Tadeu (de “Tará Bão di Sar?”) e as atrizes Marieta Severo (de “Incêndios”), Fernanda Montenegro (de “Viver Sem Tempos Mortos”) e Nathalia Timberg (de “Tríptico Samuel Beckett”). “Eu me considero realizada, por todas as coisas que eu quis conquistar e conquistei. Mas eu posso dizer que ainda tenho muita coisa para conquistar”, fala sem falsa modéstia.

Maria do Caritó

Falando em conquistas, “Maria do Caritó”, que está em sua reta final, lhe rendeu o Prêmio Arte Qualidade Brasil e o Prêmio Contigo. Além disso, o espetáculo ganhou prêmios de direção, atriz coadjuvante e conjunto. Para Lília, é uma grande coroação, já que ela é produtora e idealizadora do projeto. Foi ela que encomendou o texto para Newton Moreno (de “O Grande Circo Místico”) e convidou João Fonseca para a direção. Ela fará essa temporada no Imperator com sabor de despedida, porque já está pensando na próxima empreitada teatral. Mesmo assim, garante que a reestreia ainda lhe provoca aflição e certo nervosismo. “Eu acho que quando acaba esse tipo de coisa parece que nossa profissão não tem mais sentido, né? Se você não viver sempre nessa adrenalina, nessa corda bamba, parece que você não fez nada. Faz parte da nossa profissão sentir isso”.

Em "Maria do Caritó" (Foto: Guga Melgar)

Em “Maria do Caritó” (Foto: Guga Melgar)

Na peça, uma comédia, ela interpreta a personagem-título, que se aproxima dos 50 anos e está decidida a se casar, mesmo que tenha que enfrentar a fúria do pai e de toda a cidade, que acreditam que ela é santa. Maria do Caritó foi prometida pelo pai a São Djalminha. Mas ela se agarra a Santo Antônio e a suas simpatias para burlar a promessa e conseguir um marido. Lilia Cabral não vê a situação da personagem como a personificação da sociedade pautada pela religião, de uma maneira negativa. Ela está ciente dos casos recentes do comercial da Boticário (que gerou polêmica por simplesmente mostrar dois homens se abraçando, com a sutileza de um casal gay) e da performance da transex na Parada Gay de São Paulo (“crucificada” em cima de um trio-elétrico, o que foi considerado falta de respeito com os cristãos), mas prefere não comentar essas questões. “Não vou responder isso… É uma pergunta que eu teria que parar para pensar e tenho medo de… Acho melhor não responder, porque também não tem muito a ver com a Maria do Caritó”, ela resiste. “A religiosidade, a fé, dentro da dramaturgia, é de muita esperança, é sonhadora, é até inocente e, de repente, eu tratar de um assunto tão polêmico e tão forte… acho que é melhor eu ficar quietinha”.

Quietinha, ela fala do espetáculo com muito carinho. Além de ser idealizadora, diz que sempre faz o que acha bom no teatro. É uma peça na qual ela acredita, porque é boa de dramaturgia, de texto, algo que valoriza muito. “Na televisão, acho que tenho tido sorte, porque sou chamada para personagens muito bons. No teatro, faço o que gosto e acho bom. Mas não posso reclamar, porque só tem me acontecido coisas boas”. Seus últimos anos tem sido de glórias.

(Foto: Guga Melgar)

(Foto: Guga Melgar)

Mas e quando não é assim? Quando os trabalhos não vingam, ela tenta extrair algo de positivo. Investiga para saber por que não deu certo e tenta aprender com aquilo. “Nos erros se aprende mais que nos acertos. Quando a gente é jovem, se destempera um pouco. Mas depois que passa, quando vem o amadurecimento, as coisas passam a ter outra cor, outro valor”. É assim também com as críticas. Ela se orgulha de ter recebido mais críticas positivas do que negativas na carreira, o que ajudou a manter as peças bastante tempo em cartaz, mas concorda que são as negativas as que não se esquecem. Quando elas vêm, ela lida com ponderação. “Às vezes, o crítico entende completamente diferente aquilo que você quis propor e faz uma crítica tão negativa que pode até destruir”, ela parece lembrar de um caso específico quando diz isso, porém não o menciona. “Mas quando o espetáculo é bom mesmo não vai ser uma crítica negativa que vai acabar com ele, entendeu? E não acaba mesmo!”.

Além do mais, sempre vai ter o próximo. Essa é a maravilha da profissão. Hoje se está aqui, amanhã lá. E Lília está sempre pronta para o próximo passo. “O melhor de tudo é sempre estar disposta a novos desafios e ter a coragem para enfrentá-los, porque o mundo está cada vez mais difícil. Isso eu tenho bastante orgulho, porque eu não tenho medo não”, se avalia. “Eu gosto de correr risco, gosto de enfrentar, gosto também de ajudar muita gente, de levar muita gente comigo”.

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 19h30. R$ 20 (balcão todos os dias), R$ 30 (plateia sexta) e R$ 40 (sábado e domingo). 90 min. Classificação: 12 anos. De 12 de junho até 5 de julho. Imperator – Centro Cultural João Nogueira – Rua Dias da Cruz, 170 – Méier. Tel: 2597-3897.

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