#MaisGratidãoPorFavor – Por Mariana Rebelo – Teatro em Cena
Papo de Artista

#MaisGratidãoPorFavor – Por Mariana Rebelo

(Foto: Andrea Rocha)

Não sou muito de sair à noite. Prefiro deixar pra fazer isso durante o dia. Amo o dia. Gosto de pegar um sol – apesar da minha falta de bronze – pedalar, fazer um piquenique ao ar livre. Não tenho nada contra a noite. Pelo contrário. Sou até meio coruja. Durmo tarde e viro a madrugada lendo, escrevendo. Rendo até mais nesse horário pra trabalhar. Mas “sair pra night” sempre foi a última opção pra mim, ou a falta dela. Até eu descobrir que não existe falta de opção. Pois a falta de opção já é uma opção. Você sempre escolhe no fim das contas.

Enfim, isso tudo pra dizer que minhas “nights” costumam ser bem leves. No máximo um vinho com amigos no bar da esquina. Ou na minha casa, como resolvi fazer outro dia. Um vinho em casa pra alguns amigos. Adoro. Repito sempre que posso. Mas, o que deveria ser apenas uma reuniãozinha leve, sem maiores pretensões, se tornou algo muito maior. Pelo menos pra mim.

Me dei conta, ali, naquela noite, na minha sala minúscula do meu apê minúsculo, mas não menos importante e fofo, o quanto as pessoas reclamam. O quanto elas são ingratas. Por tudo. Por nada. Ali, na minha sala, bebendo um bom vinho, comendo um queijo ok, não era dos melhores, mas era ok, ouvindo música boa, dançando…. Ali, elas estavam sendo ingratas. O motivo? Todos. Ou nenhum. Depende do ponto de vista.

As pessoas reclamam o tempo todo. Por qualquer coisa. Virou mania, cacoete. Pra alguns, até vício. Pode reparar. Eu reparei. Ali, naquela noite, na minha sala. A cada assunto que surgia, vinha uma reclamação em anexo. Comecei a reparar e a me assustar. Por quê? Porque me vi naquelas pessoas, nos meus amigos. Eu faço igual. Fazia, assim espero. Tô trabalhando nisso. Meus amigos queridos, inteligentes, saudáveis, bem-educados, de situação financeira acima da média, ali, na minha sala, reclamando. O tempo todo. E o pior: sem se darem conta.

Era por causa de um teste para o qual não passaram ou para o qual passaram. Afinal o trabalho nem era tudo aquilo que imaginaram. Um namorado ausente ou um presente demais. Um filho desejado que não quer nascer. Um filho indesejado que nasceu sem querer. Uma gordura localizada. Um dente descolado. Uma unha quebrada. Sim, uma unha. O motivo não importava. O importante era reclamar.

Fui dormir pesada naquela noite, mas acordei leve. Positiva. Grata. Por tudo. Por nada. E quero permanecer assim. Tô trabalhando nisso. Entendi que o ser humano reclama porque nunca tá satisfeito com nada. Com tudo. Quer sempre aquilo que não tem naquele momento. Quando consegue, inventa outro motivo pra reclamar. É uma bola de neve. Um círculo vicioso. Não tem fim.

É preciso olhar pro agora. Pro momento presente. Pro que temos ao nosso redor, que nada mais é do que fruto das nossas próprias escolhas. E entender. Aceitar. Amar. E principalmente SERMOS GRATO. Sempre. Por nada. Por tudo.

Mariana Rebelo é atriz e roteirista.
Ela apresenta a comédia “Versão de 2” no Rio in Comedy Festival, no Teatro Vannucci, no dia 26 de julho às 21h.

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