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Marcio Abreu fala sobre Outros, parceria com Grupo Galpão

Elenco de “Outros” conta com Antonio Edson, Beto Franco, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Paulo André, Simone Ordones e Teuda Bara (Foto: Guto Muniz)

Os mesmos atores, o mesmo diretor, o mesmo teatro, um passo a frente. Dois anos após uma passagem avassaladora pelo Rio de Janeiro com “Nós”, o Grupo Galpão retorna à cidade com “Outros”. O novo espetáculo estreia na quinta (29/11) no Teatro Sesc Ginástico, no Centro, vindo de uma temporada bem sucedida em Belo Horizonte, onde fica a sede da cia. teatral. Trata-se da 24ª montagem do grupo, retomando a parceria com o diretor carioca Marcio Abreu, o mesmo de “Nós”. “Outros”, na verdade, dá continuidade à pesquisa de linguagem iniciada no espetáculo anterior, refletindo sobre “a construção da memória e o impacto do agora no porvir”.

– Certamente, quem viu “Nós” vai identificar estruturas de linguagem que se desenvolvem e se desdobram no “Outros”. Mas isso não significa que um espetáculo dependa do outro, ou que o “Outros” seja uma decorrência narrativa do “Nós”. Não é isso. Mas há relações estéticas e de linguagem, no sentido de como os temas emergem de uma estrutura dramatúrgica. Ao invés da peça falar sobre determinados temas, ela se articula para que os temas surjam ao longo de uma estrutura que tem múltiplas possibilidades de leitura pelo público. – o diretor conta ao Teatro em Cena, dias antes da estreia carioca.

(Foto: Annelize Tozzeto)

Em “Outros”, a palavra não dá conta de expressar tudo que precisa ser comunicado. As inquietações, possibilidades e impossibilidades reverberam no corpo dos atores em cena. Diferentemente de “Nós”, em que os assuntos surgiam na dramaturgia a partir da reunião dos personagens para “a última sopa”, “Outros” não tem nenhuma situação ficcional de base para guiar a narrativa. “Ele se articula em duas etapas: uma em que a palavra é o centro e outra em que a palavra não é o centro”, adianta Marcio Abreu. Foi a maneira encontrada pelo grupo para expressar o momento atual, valendo-se de percepções múltiplas do mundo.

Durante o processo criativo do espetáculo, que envolveu o estudo de textos do francês Joel Pommerat (“Frigorífico”, mais precisamente) e do russo Ivan Viripaev (“Os Embebedados”), o Grupo Galpão passou por um laboratório de performance com a renomada Eleonora Fabião. O elenco foi para a rua e trabalhou com questões de natureza privada no espaço público (e vice-versa), o que refletiu no resultado final da montagem. A escuta do outro, na rua, aponta um dos pilares fundamentais do espetáculo: a alteridade. “Os outros do título é algo amplo. Para esse trabalho, a gente tem uma pesquisa ampla sobre alteridade, e alteridade em vários sentidos – desde uma dimensão política e social até uma dimensão mais poética em relação à linguagem, à história, à dramaturgia”, sublinha o diretor.

(Foto: Guto Muniz)

TEATRO EM CENA – Sobre o que exatamente vocês queriam falar em “Outros”?
MARCIO ABREU – Essa é uma pergunta impossível de responder assim diretamente, porque o espetáculo inclusive se coloca em uma perspectiva diferente dessa pergunta. Mas o que a gente queria dizer, consegue articular e de fato diz é uma linguagem que vem de uma pesquisa decorrente do espetáculo anterior, que é o “Nós”, e que tem uma questão que é “como a gente reage ao mundo como ele nos chega hoje?”. É sob a forma de gestos artísticos. “Nós” já foi isso e “Outros” é uma decorrência dessa pesquisa, desse trabalho, que tem a ver também com a ideia de performance e dimensões do público e do privado.

O que mais te interessa no Grupo Galpão?
Olha… O grupo é um exemplo de trabalho contínuo, de longevidade artística, de rigor artístico. O Grupo Galpão é também uma espécie de farol, que vai abrindo caminhos para o teatro brasileiro, no sentido de modos de produção, de construção de possibilidades, de organização coletiva, de convivência de diferenças. Então, mais do que o que me interessa, o Grupo Galpão é uma referência no teatro mundial e um pilar muito importante no teatro recente. É um grupo que cumpriu 35 anos como coletivo, um grupo que gera muitas divisas, no sentido de gerar muito emprego direto e indireto. É um grupo que tem seu próprio centro cultural, então faz um trabalho exemplar de formação de teatro e formação de público. Mais do que “o que me interessa no grupo”, é o que de fato esse grupo representa no cenário das artes no Brasil.

“Nós” tinha uma proposta de quebra da fronteira entre palco e plateia e terminava com aquela grande festa. Como é o formato de “Outros”?
O “Outros” também, assim como outros trabalhos meus, tem uma dissolução, uma rareifação, dessa parede entre plateia e a cena, entre atores e público. Há uma interação viva, uma ocupação do espaço de um modo bastante denso entre cena e plateia.

(Foto: Guto Muniz)

Qual o lugar da performance neste espetáculo?
A Eleonora [Fabião] já é uma amiga e parceira minha. No “Nós”, eu já queria convidá-la para fazer um trabalho com eles, mas não foi possível, então a chamei no “Outros” para ir a Belo Horizonte e ela foi ficar uma semana lá com eles. Ela fez um trabalho muito sensível e profundo de entendimento do que poderia ser a dimensão da performance para eles naquele momento. A performance já é muito presente nos meus outros trabalhos, nas minhas criações, e o “Nós” já foi uma plataforma de investigação muito forte. Aqui no “Outros”, mais radicalmente. A partir dessa experiência com a Eleonora, a gente criou uma performance coletiva que vai para o espaço público e se integra no repertório do Galpão, e uma série de performances que fizeram parte do processo de criação da peça. Então, é bastante importante a dimensão da performance neste trabalho.

Esse espetáculo encerra a parceria com o Grupo Galpão ou vocês já planejam mais um, para fechar uma trilogia?
Impossível dizer. Não sei. Os trabalhos sempre geram experiências que reverberam para além de uma peça específica. Assim como “Nós” gerou desdobramentos, o “Outros” também gera desdobramentos. Agora, se a gente vai fazer um outro trabalho ou não, ainda é cedo para saber.

Quais são seus outros projetos?
No ano que vem, estreio um projeto que já é antigo, desde 2009. É uma adaptação que estou fazendo de um texto de Tchekhov, que chama “Platonov” e vai estrear em maio. E no segundo semestre, mais uma co-produção internacional, entre Alemanha e Brasil: um trabalho que estou chamando de “Sem Palavras”, que deve estrear na Alemanha para vir ao Brasil no início de 2020. Os dois são com a minha companhia, mais artistas convidados.

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SERVIÇO: qua a sáb, 19h; dom, 18h. R$ 30. 100 min. Classificação: 16 anos. Até 23 de dezembro. Teatro Sesc Ginástico – Avenida Graça Aranha, 187 – Cento. Tel: 2279-4027.

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