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Maria Fernanda Cândido sofre e deleita plateia com A Toca do Coelho

É a primeira vez que “A Toca do Coelho” é montada no Brasil. A peça, que cinco indicações ao Tony Awards em 2006 (e um prêmio para a protagonista, Cynthia Nixon), passou por uma temporada bem sucedida em São Paulo e chegou ao Rio de Janeiro depois do Carnaval, em cartaz no Teatro do Leblon. Mas a história, escrita por David Lindsay Abaire (vencedor do Pulitzer por esse roteiro), é conhecida do público brasileiro desde 2011, com o filme “Reencontrando a Felicidade”. Foi o título que a distribuidora deu para “Rabbit Hole” por aqui. Coisas de cinema. No longa, a protagonista é Nicole Kidman, indicada ao Oscar por esse delicado trabalho. Aqui, o papel no espetáculo coube à atriz Maria Fernanda Cândido (de “Ligações Perigosas”).

Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido são marido e mulher em "A Toca do Coelho". (Foto: Divulgação)

Reynaldo Gianecchini e Maria Fernanda Cândido são marido e mulher em “A Toca do Coelho”. (Foto: Divulgação)

Com a responsabilidade de dar vida à Becca depois de Nixon e Kidman, a atriz impressiona pela força de sua interpretação. Dirigida por Dan Stulbach (diretor artístico do Teatro Eva Herz), ela contracena com Reynaldo Gianecchini (de “Doce Deleite”), que faz seu marido; Selma Egrei (de “Mulheres que Bebem Vodka”), sua mãe; Simone Zucato (de “Trair e Coçar é Só Começar”), sua irmã; e Felipe Hintze, uma figura externa catalisadora. É verdade que Selma rouba a cena em todas as suas entradas, que provocam gargalhadas na plateia, mas é Maria que dá o tom do espetáculo: duro, sensível, dolorido. Sua personagem está frequentemente cercada de gente, mas sempre solitária. Não há contato físico e, quando alguém o força, ela se esquiva. Seu sofrimento é gritante, mas silencioso. Ela não se debulha em lágrimas, mas vê-se o peso em suas costas. É um trabalho de postura, de pequenos gestos, de manutenção do mau humor.

Na história, Becca é uma mulher amargurada, por causa da morte do seu filho de quatro anos, que ocorreu oito meses antes. O menino foi atropelado na porta de casa, quando correu atrás do seu cachorro de estimação na rua. Isso afetou negativamente todas as relações afetivas de sua mãe. Marido e parentes querem ajudá-la a superar o luto, mas Becca não quer socorro. Seu marido frequenta um grupo de apoio, ela não. Por outro lado, também se ressente da amiga que desapareceu após a morte da criança, por não saber o que lhe dizer. Becca, em outras palavras, é chata e ranzinza, e até seu figurino (de Andriana Hitomi) é cinza, mas é difícil não ter compaixão por ela.

Selma Egrei, Felipe Hintze, Maria Fernanda Cândido, Reynaldo Gianecchini e Simone Zucato. (Foto: Divulgação)

Selma Egrei, Felipe Hintze, Maria Fernanda Cândido, Reynaldo Gianecchini e Simone Zucato. (Foto: Divulgação)

Toda a trama é desenvolvida no lar desse casal que perdeu a criança. O cenário do André Cortez é inteligente e útil, permitindo a exploração de diversos cômodos em um mesmo ambiente. Não há qualquer imagem do filho perdido à mostra, mas suas roupas dobradas estão na sala, seu quarto está intacto, e sua presença é perceptível. A iluminação da Marisa Bentivegna completa o clima pesado. A única alegria vem da mãe e da irmã, personagens claramente desconfortáveis para o convívio de Becca, mas bem recebidos pelo público ávido por alguma descontração.

Para ser ainda melhor, “A Toca do Coelho” começa e termina com “Wonderwall”, do Oasis. Só Becca sofre durante o espetáculo. O público se deleita: de sexta a domingo no Teatro do Leblon. De R$ 80 a R$ 90. Até 8 de junho.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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