Entrevista

Marieta Severo celebra 50 anos de carreira e o presente é nosso: uma entrevista de 1 hora de duração

(Foto: Divulgação / TV Globo)

(Foto: Divulgação / TV Globo)

A atriz Marieta Severo está completando 50 anos de carreira em 2015. O número redondo pede uma comemoração, mas ela garante que ainda não pensou em nada. Nem tinha se dado conta do quinquenário até uma amiga lhe atentar o fato. “Sou ruim de conta, ruim de número”. Mas boa em seu ofício – tanto é que a celebração acontece em plena atividade. Neste ano, Marieta retorna às novelas, depois de 14 anos na série “A Grande Família”, grava um filme e, nesta semana, estreia a temporada popular do espetáculo “Incêndios”, no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. É a terceira temporada da peça na cidade, devido ao enorme sucesso de público, mas a primeira dela fora do Teatro Poeira – administrado por Marieta e a amiga Andrea Beltrão (de “Nômades”). O teatro delas, aliás, também faz um aniversário importante: dez anos.

Tantos acontecimentos rendem uma oportunidade para o Teatro em Cena entrevistá-la. São 30 minutos para falar especialmente sobre o espetáculo, que rendeu o Prêmio APTR de melhor atriz para Marieta em 2014. Mas o que ainda não foi dito sobre “Incêndios”? A pauta é elaborada a partir desse questionamento: fugir do óbvio. Depois de mais de um ano fazendo o mesmo espetáculo, a atriz certamente já cansou de responder as mesmas perguntas por cada cidade que passou. “Incêndios”, como se sabe, é uma tragédia contemporânea, escrita pelo libanês Wadji Mouawad, encenada em 15 países, e adaptada para o cinema por Denis Villeneuve, que recebeu uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro (pelo Canadá). No Brasil, a direção é do também premiado Aderbal Freire-Filho (de “As Centenárias”). Na peça, Marieta Severo interpreta Nawal, uma árabe que tem o filho arrancado do seu ventre e passa décadas tentando reencontrá-lo em meio a uma guerra civil, até que se exila voluntariamente no Ocidente, com seus dois filhos gêmeos, que nascem depois. Quando morre, ela deixa uma missão misteriosa para eles, já jovens adultos: entregarem uma carta para o irmão desaparecido e outra para o pai, que eles nem sabiam que existia. O processo de composição da personagem, de concepção da peça, de ensaios, de estudos aprofundados, de descobrimento do texto, de traçadas de paralelas com nossa realidade – tudo isso já foi abordado em exaustão. E, tentando ser diferente, o Teatro em Cena conseguiu entreter a atriz. Em vez de 30 minutos, ela concedeu o dobro de tempo ao site, e a outra entrevista que ela tinha marcada em seguida ficou para depois. Desculpa aí.

A atenção foi também uma espécie de recompensa pela espera. Na última temporada de “Incêndios” no Rio, o Teatro em Cena quase entrevistou Marieta. Mas, no dia que ela confirmaria o encontro, José Wilker morreu. Ela saiu do Poeira direto para o velório, no Teatro Ipanema, e, no dia seguinte, não havia qualquer clima para a abordagem, obviamente. Pouco tempo depois, o editor teve uma rápida conversa com ela nos bastidores do Prêmio APTR, no Imperator, no Méier, minutos antes de ela receber seu troféu. Na ocasião, a atriz, ainda no ar como Dona Nenê, fazia sucesso com estudantes adolescentes uniformizados, que a cercavam com pedidos de fotos em seus celulares. Eles realmente não lhe davam sossego, mas ela não negou nenhum pedido. O assédio, inevitavelmente, acabou virando um dos assuntos dessa entrevista.

Abaixo, reproduz-se na íntegra toda a conversa com a atriz, que de antemão faz um pedido ao site: esclarecer que “Incêndios” não é sobre tortura, porque um jornal carioca classificou o espetáculo assim, erroneamente. “Fiquei grilada com isso. Não é sobre tortura. Você viu. É uma história de dimensão humana grandiosa. As pessoas não vão nem ver, se falar que é sobre tortura”. Um ano e oito meses depois da estreia deste trabalho bem sucedido, Marieta ainda mantém a insegurança típica de todo artista aplicado. Mas, caro leitor, não, “Incêndios” não é sobre tortura. Não que a gente fosse deixar de assistir a Marieta se fosse… Não que alguém fosse. Na última temporada, de quatro meses, todos os ingressos esgotaram em apenas 15 dias. Mais barato, então, fica imperdível.

Seu trabalho em “Incêndios” te rendeu um prêmio de melhor atriz. Você realmente está incrível em cena, e é uma pena que não possa se ver também. Já gravou o espetáculo para se assistir, de alguma maneira?
Ah, não, eu não me assisto! A maior vantagem do teatro é a gente não se assistir. Os meus espetáculos são sempre registrados e eu nunca assisti, nem para ver se está bem gravado ou mal gravado. Até porque tem um tom do teatro, uma realidade ali do teatro, que ela captada em geral não corresponde ao que você está fazendo ali. É outro tom. É difícil teatro filmado. Teatro é para acontecer ali ao vivo. Eu sou a favor de existirem os registros, mas eu não gosto de ver. Não me assisto. Não, não, não (risos).

As duas temporadas cariocas anteriores foram no seu teatro, o Poeira, e agora vocês vão para o Carlos Gomes, que é bem maior…
É! Quando a gente viu o alcance que a peça tinha junto ao público, o quanto a peça chegava ao público, o quanto ela se comunicava e emocionava, eu comecei a falar com a nossa produtora Maria Siman sobre a vontade de fazer em um teatro grande a preços populares. Desde que a gente viu que era sucesso que está com esse desejo, que a gente vai cumprir, por conta da nossa produção. A gente fez viagens e agora está bancando isso, por uma vontade mesmo de alargar esse público.

Mas vocês se apresentaram em teatros muitos grandes na turnê também, não?
Sim, sim, porque na turnê você fica muito pouco tempo em cada cidade, então realmente a gente tem vontade de mostrar o trabalho para o máximo de pessoas. Nós éramos 16 pessoas viajando – oito em cena, fora dois técnicos, camareira, diretor de cena, o montador, a produtora – então é muita gente e não dá para sustentar a produção indo para um teatro pequeno. Aqui no Rio, inclusive, a gente fez [no Poeira] porque tinha patrocínio. Você não consegue viver de bilheteria com um elenco grande assim.

Uma vez, a Fernanda Montenegro falou que os espetáculos perdem um pouco da sutileza quando vão para teatros muito grandes. Quando eu vi “Incêndios” no Poeira, estava na primeira fila, então tive o impacto direto de cada cena…
Epidérmico, né?

Demais! Por isso eu pergunto: muda quando vai para um teatro grande?
A gente já testou em teatros maiores. Tem peças em que realmente acontece isso, quando ela é de uma emoção muito pequena, muito sutil… Mas “Incêndios” é uma tragédia épica. Ela tem um lado grandioso, que ganhou em teatro grande. Talvez possa alguma coisa da sutileza, de emoção… (se interrompe) Mas ele não é um espetáculo de pequenas sutilezas. É um espetáculo de grandes emoções. Uma grande história contada de uma forma muito densa, muito intensa, e a gente viu que conseguiu emocionar as pessoas em teatros de 1.200 lugares. As pessoas vinham igualmente tocadas, como no Poeira. Aconteceu a mesma catarse.

"Incêndios" venceu 19 dos mais importantes prêmios de teatro (Foto: Leo Aversa)

“Incêndios” venceu 19 dos mais importantes prêmios de teatro (Foto: Leo Aversa)

Você está há mais de um ano fazendo esse espetáculo, e ele parece muito desgastante para todos os atores. Essa história ainda te afeta ou já naturalizou? Como você sai da sessão?
Não, não, não. “Naturalizou”, que você diz, é se eu já me acostumei com ela e parei de sofrer com ela, né? (risos) Não! Quando chega esse momento, que a gente chama de mecanizar, você tem que parar, porque aí não tem mais graça. A graça é você se afetar a cada dia com aquela história para poder afetar o seu espectador. Eu tenho que estar ali. Eu sei fazer a peça mecanicamente, mas eu não acho graça. O tempo custa a passar em cena, se você não está ali inteiro, é muito chato, não é bom… (risinho). A graça do teatro é exatamente essa: estar a cada dia inteiro em cena, se relacionando com aquele texto, com aquelas palavras, como se fosse a primeira vez. Eu tenho que me deixar afetar, eu quero me deixar afetar, porque quanto mais dentro dela eu estiver, mais eu descubro coisa. Aí naquele dia surge uma coisa que só você repara, mas é o teu prazer, é a tua alegria, é o teu jogo. Você descobre que aquela palavra… e no dia seguinte você está lá tentando e não descobre nada! Mas o jogo do teatro é esse – o aqui, agora, ao vivo – e se você não se alimentar disso, fica chato e repetitivo.

E como você faz para não levar o personagem para cama?
Ah, isso aí para mim nunca aconteceu! Isso aí é loucura da braba! Nessa peça, inclusive, acontece das pessoas virem falar com a gente chorando e a gente já responder todo animado. As pessoas ficam meio “como é que ela está falando normal?”. Quando eu termino, eu realmente quero esgotar minha emoção ali. Eu acabo e, se minha emoção chegou à plateia, o que fica comigo é o prazer disso. Então, eu saio feliz, eu saio satisfeita. O dia que eu não saio bem é quando acho que não funcionou. “Putz, hoje não foi legal. Ontem foi tão bom, hoje não emocionou tanto a plateia”. A gente sente uma ligeira oscilação, por menor que seja. O que acontece comigo é que, depois do espetáculo, quando vamos jantar, eu me sinto muito cansada. É uma peça que cansa. Mas é um cansaço físico. Não saio emocionalmente transtornada. Senão, teriam que internar a gente, né? Seria insuportável. Aí é loucura. Então, é uma peça desgastante, que você acaba cansada e feliz, muito feliz. Apesar de ter tratado de temas dolorosos, quando você consegue comunicá-los, eu saio bem do teatro. Não saio ruim não! (risos) Maluquice total, né?

Então, quando estão aplaudindo no final, você já virou Marieta de novo.
É, eu sinto que tem uns segundos de uma passagem quando acaba. Eu respiro fundo, mas é uma passagem que eu venço. Quando eu saio do aplauso, principalmente quando o aplauso é mais demorado, se você for ver, eu consigo sorrir. No início do aplauso, eu não consigo. Mas, no final, eu já estou me relacionando com aquele momento de satisfação pelo trabalho bem feito, quando ele realmente comunica. Quando eu sinto que nós todos ali conseguimos ter uma coisa avassaladora com a plateia, eu saio feliz. Esse espetáculo proporciona muito isso, porque ele comunica muito.

Em "A Dona da História", Marieta Severo e Andrea Beltrão esqueceram o texto e interromperam a peça (Fotos: Reprodução)

Em “A Dona da História”, Marieta Severo e Andrea Beltrão esqueceram o texto e interromperam a peça (Fotos: Reprodução)

Em outra entrevista sua, no ano passado, você disse que sempre bate o texto antes da peça, porque tem medo de esquecer. Já aconteceu de esquecer?
Já! Eu e a Andrea [Beltrão]! Esse é o grande pesadelo do ator. Você se acostuma com esse pesadelo de que você entra na peça errada, de que você não tem texto… é verdade (risos)!Há 50 anos, que tenho esse pesadelo. Em “A Dona da História”, aconteceu isso comigo e com a Andrea. Uma esqueceu, olhou para a cara da outra, crente que ela ia salvar, a outra também esqueceu, olhou para a cara da uma, uma olhando para a outra, e nós paramos o espetáculo. Não sei se você viu o espetáculo… Ele era circular. Um dia eu tinha 20 anos e tudo que eu queria era contar uma história, dali puxava um mote, dali outro, e a peça ia circulando por elas no passado, o encontro de uma com a outra. O que aconteceu? A gente se perdeu dentro daquele labirinto. Aí voltamos, paramos, e falamos “não, tá errado!”, e paramos de novo. Eu achei que nunca mais ia ter pesadelo, e continuei tendo igual. Eu bato texto não é só por uma questão de memória. Quem me ensinou isso foi Naum Alves de Souza: quando você ensaia, você vai impregnando aquelas palavras de emoção, de sentido… Tudo que a gente tem são as palavras. Eu não tenho nada além disso. Tenho as palavras e tenho que fazer alguma coisa com elas. Então, para mim, bater e repetir o texto é como se as palavras me impregnassem. Eu fico sempre lá atrás, sozinha, porque isso é sozinha, de novo e de novo no texto. É como se eu deixasse de novo aquelas palavras me tocarem. Além, claro, do texto ficar fresco na memória. O “Incêndios” está mais do que mecanizado, nesse sentido, eu sei que não vou esquecer, mas a cada dia eu preciso fazer isso para conviver. Eu entro em cena como se elas tivessem vindo para a ponta de língua e para dentro do coração.

Você fala com muito carinho de “Incêndios” e sempre diz que ele é o tipo de presentão que aparece de tempos em tempos, depois de muitos trabalhos. Você o coloca ao lado de que outros destaques da sua carreira?
Olha, você falou e eu pensei direto em “No Natal, A Gente Vem Te Buscar” (de Naum Alves de Souza). Foi uma peça que me revelou muito o meu caminho como atriz. “Aurora da Minha Vida” (de Naum Alves de Souza), “A Estrela do Lar” (de Mauro Rasi), “A Dona da História” (de João Falcão), “As Centenárias” (de Newton Moreno)… Te dei cinco, está bom? (risos)

Você está fazendo 50 anos de carreira…
Estou sim. Descobri isso agora, porque sou ruim de conta, ruim de número, mas gosto de comemoração (risos). Mas não preparei nada, não fiz nada, não pensei em nada. Há uns 20 dias, uma amiga me falou: “você não está fazendo 50 anos de carreira?”. Percebi que estou sim. Agora estou assumindo: 50 anos de carreira.

Coincidentemente, a Globo também comemora 50 anos neste ano.
Pois é! Eu e a Globo estamos velhinhos igual. A minha comemoração, realmente, vai ser comemorar os dez anos do Teatro Poeira. A minha grande alegria e a coisa que eu acho mais importante desses 50 anos é o Teatro Poeira, porque está muito além da minha trajetória como atriz, do que eu fiz bem, do que eu fiz mal. Ali tem uma coisa que é muito maior do que qualquer coisa que eu tenha feito, e que colaborou muito mais para a cena carioca do que trabalho individual meu. A minha alegria neste ano é a comemoração dos dez anos do Teatro Poeira.

Com Aderbal Freire-Filho, quando recebeu o Prêmio APTR por "Incêndios" (Foto: Reprodução)

Com Aderbal Freire-Filho, quando recebeu o Prêmio APTR por “Incêndios” (Foto: Reprodução)

Você disse em uma entrevista que, no início da carreira, pensava que poderia mudar o mundo como atriz. 50 anos depois, como você vê sua profissão?
Olha, eu continuo achando… É claro que 50 anos depois, e aos 68 anos, as ilusões e as utopias vão se encaixando mais dentro da realidade. Eu tenho uma consciência muito maior de como é complexa a realidade e como é difícil qualquer mudança, mas eu preciso entrar em cena com a sensação ou a ilusão de que aquela peça pode tocar profundamente algumas pessoas. Não só divertir, dar um momento de prazer, como fazer com que aquelas pessoas pensem alguma coisa interessante, bacana para a vida delas, bacana socialmente. Eu preciso disso, então continuo alimentando essa ilusão (risos), por mais que tenha os pés muito mais fincados na realidade.

Ao longo desses 50 anos, você passou pela ditadura, viu carreiras começarem, viu gente cair no ostracismo, viu mudança de governo, de cultura, de tecnologia… Como você avalia a sua carreira em meio a todas essas mudanças no mundo?
O que me dá satisfação às minhas escolhas é que eu acho que continuo com uma antena bem apurada para o momento, para o que a gente está vivendo. Acho que continuo com isso. Quando olho minhas escolhas, fico feliz com elas. Aos 68, eu continuo antenada com o que tem de mais útil socialmente no meu ofício, com o sentido da importância do trabalho dentro da cultura teatral, dentro de um panorama social. Isso continua vivo em mim.

Muitos artistas não conseguem decolar na carreira, ou tem um boom e depois somem, ou trabalham a vida inteira sem reconhecimento. Qual o segredo para se manter 50 anos na ativa e com tanto sucesso?
Quem descobrir isso está feito! Eu acho que é um conjunto de coisas, e tem também uma chamada sorte, que é misteriosa. Eu acredito num acaso, numa sorte, numa coisa que eu vejo que acontece. As coisas não dependeram só de mim. É claro que eu soube escolher, mas também me chegaram coisas que eu não fui atrás delas. O próprio “Incêndios”, que me chegou através do Felipe de Carolis. Não fui eu que descobri essa peça. Ela veio até mim. Então, eu tive essa sorte. É claro que eu tive a antena do “Opa, isso aqui é bacana! Vou fazer! Vai ser meu trabalho!”, entendeu? Eu acho que depende de tanta coisa, sabe? Eu vi grandes talentos surgirem e não irem adiante. Tem uma coisa chamada vocação, e eu tenho muita vocação para minha profissão. Tem que ter vocação para a profissão. Você tem que gostar de ficar fechando uma matéria até 23h, meia-noite…

3h da manhã…
3h da manhã! Fui até boazinha! (risos) Você tem que tirar um prazer disso, tem que fazer um sentido para você. Eu sempre trabalhei muito, muito, muito. Eu sou de arregaçar a manga e trabalhar, e sempre com muito prazer. Sempre fui vocacionada para o que eu faço. Aí você casa o seu talento dentro disso também. Eu vi gente genial, que não aguentava o tranco dessa profissão. Por isso, quando alguém diz “ai, os novos atores…”, eu falo: “Deixa chegar. Chega todo mundo e vamos ver quem fica, quem aguenta o tranco” (risos). Né? Porque o tranco é brabo. O tranco não é o castelo, a piscina, a banheira de espuma. Aí você vê quem fica. Quem fica é que importa.

Espetáculo tem duas horas de duração (Foto: Leo Aversa)

Espetáculo tem duas horas de duração (Foto: Leo Aversa)

Como você lida com a fama? Essa deve ser sua enésima entrevista sobre “Incêndios”, por exemplo.
Mas isso faz parte do meu trabalho. Você está querendo falar comigo sobre a peça que eu vou fazer, que eu adoro, que eu tenho paixão por ela, que eu quero mostrar para o maior número de pessoas, eu dou a entrevista com o maior prazer. Mesmo a chamada relação com o público… Nós temos viajado bastante, terminamos essa fase da excursão de “Incêndios”, e vejo muito isso. O Rio de Janeiro é meio blasé com a gente, porque a TV Globo está aqui, e as pessoas tropeçam em galã. Mas quando você viaja, tem essa dimensão da relação do público com você. Eu estou vindo de Recife e, quando vou a um lugar, eu tiro muita foto. As pessoas ficam “Ai, meu Deus! A Dona Nenê! Ai, Marieta! Ai, Dona Nenê!” (risos). Isso pra mim é maravilhoso, é o retorno do meu trabalho. Eu fico emocionada quando vem um jovem se tremendo todo, porque essa pessoa me vê no ar desde pequena, com “A Grande Família”, que eu fiquei 14 anos. Que bonita essa emoção! Nossa, mãe, a pessoa se deixou tocar assim por mim. Não tenho o menor problema quanto a isso. Quando estou em uma exposição, que é o lugar onde menos gosto de ser incomodada, eu falo “Gente, eu estou vendo, podemos tirar foto na saída?”, e pronto. Se estou comendo e vem alguém no meio da refeição, ou eu atendo logo ou eu peço para esperar eu acabar de comer. É uma relação muito fácil para mim. Nunca foi problema. Também não sou galã… Com galã que avançam, rasgam roupa (risos), então aí tudo bem, mais simples.

Você vai fazer a amante do Reynaldo Gianecchini na próxima novela. E em “Laços de Família”, sua última novela, você era a tia dele!
Eu fiquei muito emocionada com isso! Isso me deu uma emoção muito especial. Até quando eu falo com você, eu fico emocionada, porque são bonitas essas curvas da vida, esses roteiros da vida. Eu terminei de gravar “Laços de Família” num dia, que eu fazia a tia dele, e no dia seguinte eu comecei a gravar “A Grande Família”. Quando termino “A Grande Família”, volto para o Gianecchini, fazendo a amante dele, uma amante muito mais velha, vamos deixar isso claro, senão vão achar que a Globo enlouqueceu. Ele tem uma amante muito mais velha, que sustenta ele, então pronto. (risos) Isso é muito emocionante. Eu adoro essas curvas da história.

Falamos sobre ver inícios de carreiras, e a dele foi uma que você acompanhou de perto. Como é isso para você?
Eu vi. Foi a estreia dele. Ele nunca tinha feito nada. Nada, nada. Falavam “gravando”, e eu dizia: “Gianecchini, gravando, um, dois, três, fala”. Ele não sabia nada. Mas eu sentia nele a grande vontade de aprender, tanto que ele virou aí um ator maravilhoso, seguiu… Isso é bonito.

Marieta Severo e Reynaldo Gianecchini em cena de "Laços de Família" (2000-2001), última novela dela (Foto: Divulgação / TV Globo)

Marieta Severo e Reynaldo Gianecchini em cena de “Laços de Família” (2000-2001), última novela dela (Foto: Divulgação / TV Globo)

Há algum tipo de papel que você ainda não fez e gostaria muito?
Olha, tem um monte! Mas eu quando estou em um trabalho não consigo pensar no próximo. Não tenho isso de “Quero fazer não sei o quê…”. Eu tinha uma brincadeira com Naum, que era “Longa Jornada Noite Adentro”, do Eugene O’Neill, que é aquela mulher drogada, louca… A gente brincava que ia fazer, mas ele fez há alguns anos atrás com a Cleyde Yáconis, acho que era ela, mas enfim… É um personagem que eu adoro e de repente um dia eu faça, porque tenho vontade. Mas o resto eu vou escolhendo e fazendo a medida que eles precisam de mim.

E você já viu algum trabalho que te fez pensar “Hummm, esse papel é muito bom, gostaria de ter feito”?
Engraçado… Eu acho tão verdadeira essa história de que o personagem encontra seu ator. Quando eu vejo aquilo, eu não penso que poderia estar no lugar daquela pessoa, porque o personagem é aquela atriz fazendo. O personagem é aquilo. Nunca me deu essa vontade. “Ai, queria tanto ter feito tal personagem…”. Não. Do fundo da alma, não. Eu posso pensar “Nossa, que personagem bacana! Nossa, que autor bacana! Que vontade de trabalhar com esse autor! Como seria bacana fazer um personagem assim”. Mas não aquele. Aquele é daquela atriz que está fazendo ali. Isso nunca me aconteceu. Nunca mesmo.

Você passou 14 anos fazendo “A Grande Família” e a Nenê, e está também há um tempão fazendo “Incêndios”. Como é sua relação com esses personagens: você se apega, se cansa, tem dia que é mais difícil ser a Nenê, a Nawal?
Se eu tivesse passado 14 anos só fazendo a Nenê, talvez tivesse ficado impossível. Eu não ia conseguir. Mas a Nenê me propiciou estar na televisão fazendo muitas coisas. Eu pude fazer teatro, pude fazer cinema, a gente criou o Poeira, o Poeirinha… Quantas coisas eu fiz estando na televisão! Era uma equipe tão maravilhosa que, a cada ano, a gente sentia que se reciclava e se reinventava. Nunca me deu a sensação de voltar e pensar “Ai, meu Deus, olha aqui, tudo igual…”. Não, porque eu voltava, e perguntava o que a gente ia mudar, o que os diretores já tinham pensado que ia ser diferente… Foi um programa sempre em ebulição criativa, e por isso eu acho que ele durou tanto. Ele nunca se acomodou no sucesso dele. Era uma equipe não só de atores, como de diretores, que não ficava na mesmice. A gente sempre dava um jeito, a cada ano, de “Opa, olha só!”, e isso estimulava, alimentava.

E a Nenê passou por tantas fases que é como se ela tivesse sido várias personagens também.
Aí vem outras coisas do personagens, outras situações. Esse ano ela vai fazer não sei o quê. Esse ano o Lineu ficou em coma! Olha que loucura, que doidice! A Dona Nenê vai ter um namorado. Ei! Como é que é? Isso tudo propiciou essa duração toda.

Com a turma de "A Grande Família": 14 anos seguidos no ar (Foto: Divulgação)

Com a turma de “A Grande Família”: 14 anos seguidos no ar (Foto: Divulgação)

Você passou 11 anos sem fazer TV porque seu então marido, Chico Buarque, era censurado e você não aceitava trabalhar onde o nome dele não podia ser citado. Com isso, você focou mais no teatro. Essa sua atenção para os palcos então foi intencional ou um acontecimento da vida?
Não… Vamos dizer que “aconteceu”, porque eu, criança, nunca pensei em ser atriz. Minha família não tinha nada a ver com mundo artístico, era fora disso. Eu primeiro queria ser bailarina, e depois professora. Estudei ballet na minha infância até os 13 anos, fazia aula sem parar. Mas, na hora de fazer exame para o Teatro Municipal, o meu pai, mineiro fora desse mundo todo, falou que era muito cedo e mandou esperar, porque achava aquele mundo todo mundo esquisito. Aí eu fui fazer escola normal, essa história que já contei várias vezes. Fui estudar em frente ao Tablado, comecei a frequentar o Tablado, passei a fazer aula no Tablado, aí teve teste para uma peça, e a primeira coisa que eu fiz foi teatro. Mas logo no mesmo ano fiz cinema e fiz televisão logo em seguida.

Seu foco no teatro não era uma intenção, então?
(silêncio) Meu foco no teatro? Eu não tinha intenção nenhuma! Eu era uma garota de 20 anos sendo levada pela vida. Não tinha intenção nenhuma não. Eu tinha as minhas admirações. Eu tinha uma profunda admiração pelos grupos, que tinham um espaço muito importante na época. O que me chamava a atenção era o Grupo Oficina, o Teatro de Arena, o Grupo Opinião, que eu fui trabalhar com eles imediatamente quando me chamaram. O meu foco, o que eu assistia, o que me sintonizava, era com eles, mas eu ainda era bem perdida, sem saber direito como é que era. Você vai apurando sua antena. É claro que você já tem uma sensibilidade e uma intuição que te leva para um lado ou para o outro, né. A minha foi me levando por aí.

Você está com o Poeira há dez anos, mas há quanto tempo você queria abrir um teatro?
Eu tive essa vontade muitos anos atrás, quando começou o Circo Voador. Eu era muito amiga do Maurício Sette e ele sabia da minha vontade, me ofereceu um espaço ao lado do Circo Voador. Nós chegamos a fazer a planta, mas era muito grande, ia ser um empreendimento muito grande, aí o Mauricio ficou doente, morreu, e esse plano ficou de lado. Ele voltou, junto com a Andrea Beltrão, há 12 anos atrás, e rapidamente a gente fez o Poeira, porque era uma coisa pequena, menor, que podia ser bancada por nós. Porque nós é que bancamos.

O “Incêndios”, como você mesma falou, foi um projeto trazido pelo Felipe de Carolis, e você não o conhecia. Você está sempre aberta a propostas de artistas novos ou prefere trabalhar com seu grupinho, sua panelinha?
Não, eu não tenho panelinha! A minha panela, pode-se dizer, é o pessoal do Poeira: a Andrea e o Aderbal [Freire-Filho], que é o curador. Isso é minha panela! (risos) Trabalhamos bastante juntos. Nós somos praticamente um grupo. Com eles, eu realizei esse sonho do grupo, que é um sonho muito da minha geração, né? É um pequeno grupo, mas é um grupo, sempre em função do Poeira e de gostar de fazer projetos juntos. Mas esse elenco, por exemplo, eu nunca tinha trabalhado com nenhum deles. É um elenco completamente novo para mim, que foi escolhido dentro de teatro, do pessoal que gosta de teatro, que faz teatro.

Para terminar, você, que tem seu próprio teatro, diga sua avaliação da cena teatral carioca atual.
A minha avaliação da realidade é sempre muito positiva, talvez por já ter vivido tantas formas de realidade. Eu acho que tem muita gente jovem querendo fazer muita coisa, e fazendo muita coisa. Eu vejo o panorama do exercício de teatro com alegria. Eu assisto muito teatro, gosto muito de teatro, sou uma boa espectadora, e vou atrás de coisas que acho que são instigantes e interessantes. Eu olho e penso “Não conheço esse grupo! Esse grupo foi premiado, que bacana!”. Tudo jovem. Gente jovem chegando, entendeu? Isso para mim é ótimo. Eu vejo em cena. O Poeirinha acolhe muito esses experimentais novos. Tem muita gente fazendo muita coisa interessante. É claro que tem um espaço maior para os musicais, que colocam anúncios enormes e são acolhidos por uma divulgação maior, mas tem muita gente fazendo muita coisa experimental, criativa, nova, interessante. Eu fui ontem ao Prêmio Questão de Crítica e fiquei emocionadíssima vendo um grupo jovem, que faz teatro de rua, sendo premiado. Olha que bonito! Olhar para aquela garotada toda ali… Eu quero olhar para isso. É claro que tem muitas dificuldades, mas eu quero fixar meu olhar nisso aí, então sou sempre muito otimista.

Marieta com artistas da nova geração: Felipe de Carolis e Keli Freitas, seus filhos em "Incêndios" (Foto: Divulgação)

Marieta com artistas da nova geração: Felipe de Carolis e Keli Freitas, seus filhos em “Incêndios” (Foto: Divulgação)

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h; dom, 19h. R$ 40 (balcão) e R$ 60 (plateia). 120 min. Classificação: 14 anos. De 16 de abril até 3 de maio. Teatro Carlos Gomes – Rua Pedro I, nº 4, Praça Tiradentes – Centro. Tel: 2224-3602.

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