.Entrevista

Mateus Ribeiro, o Peter Pan do Brasil

(Foto: Caio Gallucci)

Mateus Ribeiro passou o fim de semana recebendo mensagens de parabéns pelas redes sociais. O motivo? Ele foi o escolhido, dentre quatro mil inscritos, para protagonizar a montagem brasileira do musical da Broadway “Peter Pan”, que será dirigida por José Possi Neto (de “Ghost – O Musical”). O anúncio foi feito com direito a uma reportagem grande em um dos maiores jornais do país, a Folha de S. Paulo. Nada mal para o primeiro protagonista do ator de 24 anos. “Estou muito feliz, obviamente, não só por ser um protagonista, mas por fazer esse personagem que eu queria tanto”, ele diz ao Teatro em Cena. A estreia está marcada para 8 de março de 2018 no Teatro Alfa, em São Paulo, com expectativa de chegada ao Rio de Janeiro em setembro. Vai ser uma grande produção: 32 atores, 17 músicos, números aéreos e orçamento divulgado de R$ 12 milhões.

– É incrível. Eu vejo como uma oportunidade de mostrar mais meu trabalho. Mas, ao mesmo tempo, penso que é um trabalho e a gente não pode tirar o pé do chão. Eu me preparei muito para esse teste, porque é um personagem que tem muita dança, muito canto e muita atuação. Eu gosto muito quando um personagem consegue fazer as três áreas bem. Então, estou em êxtase! Muito feliz! – divide o ator.

“Peter Pan” será o décimo musical profissional de Mateus Ribeiro desde 2011, quando estreou no ensemble de “Cabaret”, estrelado por Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello. A direção também era de José Possi Neto – com quem ele voltou a trabalhar em “Crazy For You” (2013). O ator também fez “O Mágico de Oz” (2013), “Chacrinha – O Musical” (2014), “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos” (2015), “Meu Amigo, Charlie Brown” (2016), uma versão pocket de “Rock in Rio” em Lisboa (2016), “60! Década de Arromba – Doc. Musical” (2016) e “2 Filhos de Francisco – O Musical” (2017), trabalhando com Miguel Falabella, Andrucha Waddington e Breno Silveira. Dividiu palco com nomes como Stepan Nercessian, Marisa Orth, Totia Meireles, Tiago Abravanel, Wanderléa e Laila Garin. Em 2016, chegou a ficar em cartaz com dois espetáculos simultaneamente e a fazer sete sessões em um fim de semana. Sua interpretação como Linus em “Meu Amigo, Charlie Brown” lhe rendeu indicações aos prêmios CBTIJ e Bibi Ferreira. Mas sua carreira aconteceu em um crescente até “Peter Pan”.

Mateus Ribeiro nos bastidores de “Meu Amigo, Charlie Brown”

Natural de Florianópolis, Mateus teve suas primeiras experiências com teatro na infância em Fortaleza. Fez parte do Grupo Ouse, de teatro de pesquisa, e passou a estudar teatro musical na adolescência, quando vivia em Brasília. Sim, ele é cosmopolita – algo que lhe serviu mais tarde, quando passou a morar onde estava em cartaz: ora no Rio, ora em São Paulo. Primeiro, vieram os trabalhos como ensemble. Depois, os personagens pequenos e, por fim, coadjuvantes. Antes do protagonista em “Peter Pan”, ele bateu na trave em testes para os papéis principais de “Yank! – O Musical”, que ficou com Hugo Bonemer, e “2 Filhos de Francisco”, que ficou com Beto Sargentelli. Para fazer o gol, ele se preparou bastante.

– Há um ano e meio, vocês fizeram uma matéria no Teatro em Cena sobre quem poderia ser o Peter e eu pensei: “será que vão fazer com um homem no Brasil ou vai ser com uma mulher como na Broadway?”. Não tinha como saber. Eu lembro até hoje: no dia 14 de junho, na época era o Miguel [Falabella] que ia dirigir, saiu uma matéria falando que ia ser um homem. Eu já pirei, porque pensei: “se é um homem, eu tenho o perfil”. Já comecei a pesquisar o máximo possível sobre o musical, porque tem muitas versões. Uma semana depois, comecei as aulas de ginástica olímpica, focado nisso, porque a minha versão favorita do musical é da Cathy Rigby, que fez nos anos 1990, e ela é a que mais usava o corpo. Eu não sabia o que eles iam querer nos testes, então me preparei o mais próximo possível da versão que eu mais gosto da Broadway, que é essa. A Cathy era ginasta, então fui fazer ginástica olímpica para ter essa outra qualidade.

Cathy foi indicada ao Tony Award pela remontagem de 1990 na Broadway. Aliás, sem querer pressionar Mateus, mas quase todas as atrizes a darem vida a Peter Pan na Broadway foram indicadas ao prêmio. Mary Martin, da montagem original de 1954, levou o troféu na cerimônia que também rendeu o prêmio de melhor ator coadjuvante para Cyril Ritchard por Capitão Gancho. No Brasil, o personagem será de Daniel Boaventura (de “A Família Addams”), co-produtor do espetáculo. Mas é Mateus que vai voar, literalmente. Em 2018, todos os olhos estarão voltados para ele.

(Foto: Caio Gallucci)

Como foram as audições?
Uma tensão, como toda audição na vida. Ultimamente, eu estava bem mais tranquilo com audição, porque você vai se acostumando. Sempre rola um nervosismo, mas você acaba entrando em um lugar mais rotineiro de fazer várias audições e se propor apenas a dar o seu melhor. No “Peter Pan”, eu queria muito e, quando chegaram as audições em agosto, eu já estava me preparando há algum tempo, então tinha uma expectativa muito grande. Tanto é que, na primeira audição, eu vomitei. Durante a audição! Acabei vomitando de muito nervoso. Era um teste de dança bem puxado, e eu tinha acabado de tomar café da manhã, era muito cedo, e estouraram todas essas questões. Nas outras, eu já fui mais calmo, mais tranquilo, mas é aquela coisa de nunca saber o que vai ser. O Peter foi o último personagem decidido. O elenco inteiro já tinha resposta, menos quem faria o Peter. Depois que acabaram os testes, ainda fizeram uma final entre mim e outro ator para decidir.

Em algum momento, você achou que não ia conseguir?
Nunca levei como jogo ganho, porque não dá para saber. Ainda mais se estava entre eu e outra pessoa. Eu imaginei de tudo. “Vai que a outra pessoa…”, “vai que querem dois…”, não dá para saber. Você tenta dar o seu melhor na audição, mas não dá para saber o que eles vão querer. Acho que foram umas quatro ou cinco etapas.

(Foto: Divulgação)

O Peter Pan não quer crescer, mas vai justamente marcar seu crescimento no teatro musical. Que balanço você faz da sua carreira até aqui?
Nossa carreira é muito louca, mas estou feliz com o que venho conquistando. Acho que cada vez mais as pessoas vem conhecendo meu trabalho – principalmente no mercado. É meu décimo musical, então já trabalhei com a maioria das grandes produtoras, trabalhei com muitos dos diretores com quem queria trabalhar, o Miguel e o Possi, e inclusive com diretores que eu nem imaginava, como o Breno e o Andrucha, que são de cinema. Eu acho que estou conquistando um espaço bem legal. Acredito que tudo tem o tempo certo, e nada é por acaso. Já fiz teste para outros protagonistas de peso e só surgiu agora, então acho que era mesmo para ser agora. É legal, porque vim em uma crescente: fiz o primeiro espetáculo com a Claudia [Raia] e foi muito bom, porque ela é muito disciplinada e seus espetáculos ficam bastante tempo tem cartaz, então pude conhecer o mercado e entender como é trabalhar com teatro musical; aí fui crescendo, ganhando participações maiores; no ano passado, teve o “Charlie” que foi muito importante para mim, porque me deu uma visibilidade maior e fui indicado a prêmio pela primeira vez. É isso. Acho que estou em um caminho legal e bonito para conseguir mostrar meu trabalho sempre da melhor forma possível e deixar boas impressões.

Você saiu de “Os 2 Filhos de Francisco” para fazer o “Peter Pan”, mas os ensaios só começam no ano que vem. Como está sendo essa preparação pré-ensaios?
Continuo com as aulas de ginástica olímpica, que comecei em junho por causa dos testes. Também faço aulas de canto e fono. Estou estudando muito os vídeos da Broadway. Minha mãe comprou para mim os livros originais do Peter Pan em português e em espanhol para eu ler. Como é um personagem muito antigo, estou tentando entender também de onde ele vem. Ele foi escrito há muito tempo e apareceu pela primeira vez em um livro que nem era sobre ele. Era uma peça teatral, que virou romance, e a história foi mudando, porque toda vez que [o autor] J. M. Barrie lançava uma nova edição, ele mudava alguma coisa por conta do que as pessoas estavam sentindo ou do que ele estava sentindo da resposta das pessoas lendo. Tem muita coisa por trás e milhões de histórias muito legais. Estou tentando aprender o máximo que posso, para o personagem ficar o mais humano que eu puder.

(Foto: Moises Almeida)

É raro ter esse tempo de preparação antes dos ensaios, né?
Sim, pois é! Até por ser uma peça que já existe – só na Broadway, estreou há muito tempo – é muito legal já ter esse embasamento. Saber as músicas, poder pesquisar, por ser um livro tão antigo, conhecer as histórias por trás, e tentar entender porque o escritor escreveu determinadas coisas. Tem muitos filmes, tem até sobre a história do escritor, “Em Busca da Terra do Nunca”. Tem todo esse material por trás para eu me aprofundar e não ficar uma coisa superficial.

Você tem emendando trabalhos e pulado de um musical para outro nos últimos anos. Qual foi a última vez que você ficou sem trabalho?
Pois é, graças a Deus, né? Desde que cheguei a São Paulo, acho que só fiquei sem trabalhar por três meses, que foi na safra entre um musical e outro. No ano passado, eu resolvi dar uma pausa de musical e pedi demissão do “60” para fazer “A Despedida”, peça independente aqui em São Paulo. Fui para um caminho contrário: um lugar bem menor, com público bem reduzido, totalmente experimental, sem cachê, mas porque eu estava sentindo falta justamente de pesquisa e poder estudar mais. Estava com saudade. O “60” era um musical só com música, e minha formação é como ator, então estava sentindo falta de estudar, de falar, de ver as coisas de uma outra forma. Todo tipo de arte e entretenimento diz algo, mas era uma coisa interna minha: precisava pesquisar e estudar mais. Então, no ano passado, fiquei parado dos musicais, mas trabalhando também, com outro tipo de vertente.

Ensaio de “A Despedida”
(Foto: Felipe Quintini)

Em cena de “A Despedida”

Como foi a experiência com esse espetáculo?
Foi muito bom. Já passei por muitos momentos na minha carreira, até porque morei em muitas cidades, mas quando comecei, em Fortaleza, era muito novo e participei de um grupo de estudos experimental. Eu fazia aula com o Jadeilson Feitosa, que é um professor e diretor de lá. Eu era bem novo e ele precisava de uma criança para uma peça. Como eu fazia aula com ele, fiz um teste e fiz essa peça com ele, “Contos da Montanha”, que é um livro que caiu no vestibular lá de Fortaleza. Acabei fazendo essa peça adulta e ficando nessa companhia, que era formada por pessoas mais velhas, todas maiores de idade e só eu criança. Era muito engraçado. Vivi essa experiêcia de ficar oito ou nove meses montando cada peça e a maioria era adulta, “Ana Terra”, “Contos da Montanha”, “A Casa”, de Natécia Campos… Minha primeira experiência em teatro foi com teatro de pesquisa, teatro experimental, com bastante estudo. Depois, em Brasília, comecei a estudar teatro musical. Quando voltei para São Paulo, estava trabalhando bastante com musical, só que é isso: nossa carreira varia bastante no que você está fazendo – se é coro, se é personagem, se tem fala… Tive essa experiência em “60!”, que foi a primeira vez que fiz um musical só de música, e comecei a sentir falta de voltar a fazer esse tipo de teatro, de falar coisas novas, de ter esse tempo de estudo, porque no musical é tudo bem rápido. Hoje em dia, tudo é rápido, porque não tem muito tempo nem muito dinheiro para parar e estudar. Por sorte, veio esse convite para fazer “A Despedida” e resolvi fazer. Achei que tinha ficado bastante tempo no “60” e preferi focar nisso. Foi superlegal para retomar coisas do início da minha carreira e ver as coisas de uma forma diferente. Lá, a gente produzia e atuava, então você vê as coisas de uma forma diferente: você sabe quanto custou até do papelzinho da divulgação. Você começa a ver a realidade do país, que é uma realidade difícil da arte. O teatro musical, graças a Deus, tem um marketing maior, mas a gente sabe que é muito difícil fazer teatro no nosso país e que a realidade varia muito – de acordo com cada cidade, com cada teatro, com cada elenco, com cada espetáculo.

Você enfrentou essas limitações orçamentárias por opção própria em “A Despedida”. Já passou por algum perrengue real na carreira?
Financeiramente, não, porque graças a Deus emendei um trabalho no outro. Nossa carreira é essa montanha-russa: você nunca sabe o que vai ser de amanhã. Nunca tem como saber se vai ter um personagem legal, se vai ter um salário legal. O que já aconteceu – e não considero perrengue – são questões internas mesmo: se perguntar o porquê quero fazer, se estou seguindo o caminho que quero, para onde a arte está indo, como quero representar ela e participar dela. São questões internas de descoberta, que acho normal de cada ser humano. No ano passado, foi bem isso para mim: por isso preferi fazer um espetáculo que não dava dinheiro a um que estava me dando dinheiro.

“60!”: trabalho com Wanderléa (Foto: Reprodução / Facebook)

Com Claudia Raia, fez “Cabaret” e “Crazy For You” (Foto: Reprodução)

Em “Chacrinha – O Musical”, deu vida ao filho do apresentador (Foto: Caio Gallucci)

“Meu Amigo, Charlie Brown”: primeiras indicações a prêmios

O “Peter Pan” é um ponto de virada na sua carreira. Quais você considera que foram outros pontos marcantes?
Todos os espetáculos foram importantes por motivos diferentes. Quando me perguntam os mais importantes, não consigo responder. Mas ponto de virada é uma pergunta boa. Acho que o primeiro foi “Cabaret”, porque foi o primeiro musical e me trouxe para São Paulo. “Chacrinha” também foi muito legal, por ser o primeiro brasileiro que eu fiz. E o último foi “Meu Amigo, Charlie Brown”, porque era um elenco muito menor e eu pude mostrar mais meu trabalho. Como disse, foi a primeira vez que fui indicado a prêmio. Acho que esses foram os pontos de virada, de alguma forma.

Quais são seus personagens ou espetáculos dos sonhos?
Tem alguns. Eu gostaria muito de fazer o Morritz de “O Despertar da Primavera”. Sou apaixonado por esse musical e por esse personagem. Também é um sonho fazer o “Pippin”. Tem um menos conhecido, off-Broadway, que é muito legal: “Bare”, uma ópera rock, e eu adoraria fazer o personagem Peter. Hum… (pensa) Acho que esses são meu Top 3. Tem outros, como “Cantando na Chuva”, mas que acabou de ter no Brasil, então quem sabe algum dia lá para frente… Que mais? “Sweeney Todd”, amo o espetáculo em si. Faria qualquer coisa no “Sweeney Todd”. Eu amo. Ah! “Newsies” da Disney!! Eu participei do work session do Brasil, mas ainda não foi montado profissionalmente. É. “Newsies” está junto com aqueles três primeiros que te falei.

Você está com 24 anos. Como você imagina e quer estar aos 30?
Como quero estar aos 30? Meu sonho é ter um trabalho reconhecido e poder transitar entre os meios. Eu componho música, apesar de nunca ter lançado nada, então tenho muita vontade de fazer meus projetos. Espero estar conciliando meus projetos pessoais com as coisas que já venho fazendo. Espero ser um artista reconhecido e respeitado, que as pessoas pensem “se o Mateus está envolvido, deve ser bom”. Quero poder fazer um pouco de teatro, de teatro musical, e também de filme e televisão, que são duas coisas que ainda não experimentei. Já fiz coisas independentes, curtas e tal, mas não profissionalmente ainda. Acho que qualquer ator sonha com isso, né? Fazer todas essas frentes.

(Foto: Reprodução / Facebook)

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