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Meu Momento Irado – Por Gilberto Gawronski

(Foto: Renato Kuerten)

Há 35 anos, decidi vir morar no Rio de Janeiro para sedimentar minha carreira de artista. Optei por cursar a CAL, uma escola de teatro recém-aberta, por sugestão de Yan Michalski, na época o orientador pedagógico da instituição. Apesar de já ter cursado Artes Cênicas em Porto Alegre, “a cidade de onde eu vim” (assim já parafraseando Sérgio Blanco como descreve Montevidéu, sua cidade de origem, no texto que agora apresento intitulado “A Ira de Narciso”), e de ter frequentado aulas de Acting numa outra CAL , a CAL State na Califórnia, EUA , Yan me aconselhava a fazer o curso de Interpretação porque além de aprender sempre mais, seria também uma forma de ser visto, de que conhecessem o meu trabalho. Ele tinha toda a razão. Ator geralmente é escolhido para trabalhos por ser visto e raramente por currículo ou por formação. Contudo ter tido o privilégio de ser educado para virar ator, ter a orientação de profissionais que me apresentaram métodos para interpretar foram fundamentais na minha formação.

Foi na CAL que conheci Luis Antonio Martinez Correa, diretor com o qual me formei num espetáculo delicioso chamado “Ätaca, Felipe!”, onde fizemos uma pesquisa sobre o teatro musicado brasileiro e que originou o encantador “Theatro Muzical Brazileiro” – assim mesmo, com a grafia da época -, onde fui seu assistente e que me abriu as portas para a direção teatral. Na CAL, também conheci Alcione Araújo que, em seguida à minha formatura, me convidou para fazer parte de um ciclo de leituras sobre o teatro universal e que não só me colocou em contato com obras importantíssimas e seus respectivos autores, como me proporcionou já arcar com o meu aluguel na Guanabara! E foi nesta escola de teatro que convivi com Sérgio Britto, que se transformou no meu professor dileto, na testemunha de meus primeiros trabalhos de projeção aqui no Rio e que sempre foi e será uma referência para mim de como se manter na produtividade artística.

Os três já não se encontram mais neste plano, mas com certeza, se encontram presentes no meu trabalho. Nenhuma vez que entro em cena estou ou estarei sem eles. Procuro manter a retidão profissional que eles me apresentaram, o prazer de tornar o trabalho mais árduo para que seja cada dia realizado melhor. Aquela “loucura criadora” que nunca nos permite sentir que o trabalho está pronto. Quando uma peça de teatro não tem mais nada para ser trabalhada, para ser melhorada, é o momento de tirá-la de cartaz.

Lembro bem do dia em que Madalena, fiel escudeira de Sérgio, me ligou avisando da sua partida e dizendo que estavam levando o corpo para Assembleia Legislativa no Centro do Rio. Troquei de roupa e fui pra lá. Cheguei antes do corpo, bem como Sérgio me dizia para fazer, “chegue cedo, pra ter mais tempo de elaborar as coisas”. Sérgio, muito conceituado no meio artístico, mas não tão popular como atores que se dedicaram mais às artes audiovisuais, não provocou um fluxo muito grande de fiéis, ainda mais com o majestoso temporal que estava se preparando. Logo chegou sua irmã das artes, Fernanda Montenegro, e a chuva desabou. Assim como se estivesse esperando ela entrar em cena para acontecer. Uma chuvarada digna de uma bela montagem de Lear. Com a chuva se avolumando lá fora, quem chegou não saía e quem pretendia vir, aguardava a estiagem para fazê-lo. Aí Fernanda senta ao meu lado, ali diante do ataúde do seu parceiro de uma vida toda, e fico imaginando quantas cenas lindas e marcantes não passavam na sua cabeça diante daquele corpo, e delicadamente segura a minha mão e me diz: ocupa o lugar dele.

Estou por aqui montando “A Ira de Narciso”, carregando toda esta nau, e lembrando do pedido de Fernanda. Tentando trazer dignidade pro nosso ofício como Sérgio o fez. Junto com Ítalo, Rubens, Fernando, Ivan e tantos outros que abriram portas para que minha geração desfrutasse do prazer inigualável que é estar no palco, mas sem nunca esquecer a responsabilidade de exercer o nosso ofício. Eles passaram por momentos seguramente muito difíceis e perigosos, e foram plenos nesta trajetória e nos deixaram este lindo legado. Aqui estou eu tentando ser um pouco o que aprendi no convívio com eles, não só como espectador, mas como colega de trabalho. Meus colegas, muito obrigado por tudo, estou aqui fazendo teatro, tentando em tempos “turvos” (meu vocabulário está repleto de expressões de Sérgio Blanco!) manter a chama acessa e colocando, através do discurso da peça que estou encenando, todo o grito irado que acho necessário para o momento atual.

Gilberto Gawronski é ator e diretor.
Está em cartaz no Teatro Firjan SESI Centro.

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