Monólogo? Sozinha, atriz contracena com app Siri em espetáculo – Teatro em Cena
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Monólogo? Sozinha, atriz contracena com app Siri em espetáculo

(Foto: Julie Artacho)

Quem usa iPhone certamente já brincou de conversar com a Siri. O aplicativo do sistema iOS funciona como um assistente pessoal inteligente, que entende o que é dito pelo usuário e possui capacidade de responder com voz humana. Caso não conheça, no Youtube, há alguns vídeos de pessoas conversando com a Siri – ou tentando – com as mais diferentes perguntas (inclusive pedidos de namoro e casamento). É mais ou menos essa a ideia do espetáculo “SIRI”, que estreia nesta semana no Oi Futuro Flamengo, vindo do Canadá. No palco, a atriz Laurence Dauphinais, co-responsável pelo texto, interage com o app. Sozinha em cena, mas de forma alguma em um monólogo.

– Sim, de fato, é um diálogo com uma entidade não biológica. É como uma valsa que parece muito simples de dançar, mas é muito complicada. – Laurence diz ao Teatro em Cena – A ideia do projeto veio de Maxime [Carbonneau], o diretor. Ele achou muito interessante impor uma inteligência artificial como co-autor e parceiro de palco. Ele me pediu para trabalhar com ele no projeto. Não tínhamos ideia do que nos esperava.

Laurence e Maxime já haviam pesquisado sobre novas tecnologias em 2013, no espetáculo “IShow”. Dois anos depois, retornaram ao tema em “SIRI”, questionando as relações estreitas entre humanos e tecnologia. Siri, afinal, consegue manter conversas lógicas com humor e naturalidade, apesar de sua artificialidade. Suas respostas são programadas, mas plurais. O processo criativo do espetáculo, inclusive, teve início com horas e horas de conversas com o app para tentar desvendar suas “reações”. Na ficha técnica, Siri é creditada como co-autora. Justo.

(Foto: Julie Artacho)

– Tivemos que descobrir como ela era feita para escrever com ela. E não há um repertório público de Siri, então descobrimos ele falando com ela e questionando-a. Inspirados por suas respostas, escrevemos o espetáculo em várias etapas, e até hoje ele continua a se transformar, especialmente quando a tradução entra em jogo. Por exemplo, o final do espetáculo aqui não é o mesmo que na versão em inglês porque Siri não nos dá as mesmas respostas. Algumas cenas mudam muito. Além disso, ela nos dá novas respostas todos os dias… Sempre é uma surpresa com ela. – conta a atriz.

No cinema, algo parecido foi retratado no filme “Ela” (2013), vencedor do Oscar de roteiro original. Na pele de Theodore, o ator Joaquin Phoenix contracenou quase que integralmente apenas com uma voz (de Scarlett Johansson): seu personagem se apaixonava por um sistema operacional de voz humana, traçando um retrato do homem contemporâneo. “SIRI”, o espetáculo, segue caminho similar, com o diferencial de que o app está de fato respondendo às questões em cena. Não é ficção. O performativo entra em cena.

– Eu acho que foi um desafio completamente louco criar um espetáculo com Siri dado seu nível atual de desenvolvimento e limitações. Mas, no futuro, as inteligências artificiais serão tão convincentes que terão sucesso em enganar-nos. Existe um mundo inteiro de possibilidades no futuro da criação dramatúrgica se considerarmos a possibilidade de colaborar com esses indivíduos não biológicos. – destaca Laurence, que fala francês, inglês e português, idiomas utilizados na montagem, com direito a legendas simultâneas – O espetáculo teve uma recepção muito boa em Montreal. O público lá é muito caloroso e ansioso para novas formas de dramaturgia. Na Escócia, sentimos que o público talvez fosse um pouco menos acostumado a esse tipo de proposta ou, talvez, culturalmente mais reservado. Estamos ansiosos para ver a recepção dos cariocas!

(Foto: Julie Artacho)

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SERVIÇO: qui a dom, 20h. R$ 30. 70 min. Classificação: livre. Até 17 de dezembro. Oi Futuro Flamengo – Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo. Tel: 3131-3060.

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