Internacional

Myrthes Monteiro, a brasileira que é sucesso em musicais na Europa

(Foto: Reprodução / Instagram)

Um orgulho para o teatro musical brasileiro: Myrthes Monteiro. Pouco conhecida em seu próprio país, ela é uma estrela na Alemanha, onde vive há 11 anos. Por lá, já atuou em “The Lion King”, “Dirty Dancing”, “Tanz der Vampire”, “West Side Story” e, há três anos, é a princesa Jasmine de “Aladdin”. Também já fez “Fame” na Áustria, “Flashdance” na Suíça e “Cats” em turnê europeia. Tem carreira consolidada na Europa. Seus próximos trabalhos serão “An American In Paris” e “Ragtime” na Áustria – sempre como protagonista. O mais interessante: tudo aconteceu por acaso.

Aos 18 anos, a paulista foi acompanhar uma amiga nas audições para a montagem brasileira de “O Fantasma da Ópera” (2005) e, como estava lá, acabou fazendo um teste também. Resultado: entrou para o elenco de bailarinas do musical. Já naquela época, circulava a notícia de que estavam rolando testes em São Paulo para uma montagem de “The Lion King” na Alemanha. Lá foi ela atrás da audição. Eram 900 bailarinas. Ela chegou à final, com outras cinco candidatas. “Nos disseram para não criar expectativas, pois eles poderiam chamar alguma(s) de nós amanhã, em um ano, ou simplesmente nunca”, lembra. Dois anos depois, quando ela fazia seu segundo musical na capital paulista, “My Fair Lady”, foi contatada. “Quando me ligaram, pensei que era trote e desliguei o telefone na cara deles! (risos)”. Eles ligaram de novo, insistiram, ela acreditou e veio a emoção, claro. “Já preparei as malas, pedi minha saída do ‘My Fair Lady’ e comecei minha aventura pelo mundo”. E que aventura! Próxima parada: Alemanha.

Myrthes Monteiro: Jasmine há três anos (Foto: Divulgação)

TEATRO EM CENA – Mas você falava alemão?
MYRTHES MONTEIRO – Não falava alemão, nem inglês, nem nada. Somente português. Mas assim que cheguei fui muito disciplinada, comecei minhas aulas imediatamente, pois eu sabia que para chegar a um papel de protagonista, precisaria falar fluentemente o idioma. Além do alemão, aprendi também inglês e espanhol.

Você fica até quando com o “Aladdin”?
Com o “Aladdin” fico até o final de setembro. Esse já é o meu terceiro ano como Jasmine no musical e vou sair um mês antes de terminar meu contrato, devido a um novo projeto. Mudo-me em outubro para a Áustria, onde protagonizarei a primeira versão em alemão do musical “An American in Paris” que foi sucesso na Broadway e no West End em Londres. O papel da Lise Dassin é um presente incrível, onde vou reviver meu amor como bailarina nos palcos, além de cantar e atuar uma história linda e emocionante. Logo depois, já começo a ensaiar o próximo musical, “Ragtime”, onde darei vida à protagonista Sarah, que também é um presente, pois é um papel desafiador e lindo, tanto vocalmente como dramaturgicamente. Será a segunda vez que interpreto esse papel e estou muito feliz por isso.

Você está há muitos anos na Alemanha. Não dá para dizer que é temporário mais. Hoje em dia, pensa em voltar e fazer musicais no Brasil ou se interessa mais pelos trabalhos na Europa?
Realmente são muitos anos, 11 no total. Eu não diria que eu “excluo” uma opção de atuar no Brasil, imagino ser bem legal atuar em sua própria língua, sem as barreiras do idioma, da fonética, da pressão para com o público, que espera uma fala perfeita como a dos alemães que estão ao seu lado no palco (afinal, muitos deles perderam uma vaga do papel para você), atuar sem pensar, atuar livremente. Fora que eu amo o público brasileiro! Os europeus são mais reservados e apesar de incentivar muito a cultura e ter um grande reconhecimento pela arte, eles não se manifestam tanto, como público mesmo. Nosso povo é lindo e caloroso e nós como artistas, nos sentimos muito felizes quando temos uma recepção e um retorno do público cheio de amor e carinho. Eu gostaria sim de voltar, não permanentemente, de repente para fazer um musical aqui por uns meses e depois voltar pra Europa. Já recebi convites que infelizmente não casaram com a minha agenda, mas acho que estaria aberta para a ideia e a estudaria com muito carinho caso haja uma nova oportunidade.

Depois de “Aladdin”, Myrthes já tem dois musicais encaminhados na Áustria (Foto: Divulgação)

Qual a melhor parte da carreira internacional?
Nossa… são muitas, mas acho que a melhor parte da carreira internacional é poder estar em contato direto com diretores renomados e ter a oportunidade de ser dirigida por esses grandes nomes. É realmente uma honra.

E qual a pior parte?
Pra mim a pior parte é a saudade da família. Eu sou muito ligada com minha família e viver longe deles é um peso que eu carrego diariamente.

Você sonhava com isso ou foi uma surpresa da vida?
Eu desde criança sonhei em fazer minha carreira na Europa. Não sabia aonde, em qual país, nem como, mas sabia que seria na Europa. (risos) Acho que já estava escrito no destino.

Você conseguiu emendar trabalhos na Europa. Por que você acha que as coisas deram certo? Você enxerga algum diferencial em você?
Bom, é difícil falar da gente né (risos)… mas eu sempre fui extremamente dedicada. Sempre corri atrás e me esforcei mais do que o normal. Desde criança, eu sempre tive interesse por muitos tipos de atividades, desde ballet à judô, teatro, futebol, música, circo, desenho, sapateado, violão, pintura, danças de todos os estilos.. Tudo o que você pode imaginar! Acredito que isso tenha me criado uma pessoa versátil e, por minha dedicação, consegui desenvolver muitas dessas atividades relativamente bem. Me formei bailarina clássica, estudei atuação desde pequena, estudei canto disciplinadamente.. isso soma pontos para um artista de musical. Fora que minha família é toda de músicos e cantores. Literalmente todo mundo, tanto do lado da minha mãe como do meu pai. Tios, tias, avós, primos, irmãos.. todos. Cresci no meio musical, em coxias assistindo a minha mãe, no estúdio gravando com o papai, e em casa vestindo os figurinos da mamãe na frente do espelho, sonhando em ser uma grande estrela um dia também. Acho que juntando a veia musical com a minha disciplina e amor pela arte, criei um diferencial que vem trazendo frutos, graças a Deus.

(Foto: Morris Mac Matzen)

Teve algum perrengue relativo a trabalhar fora do Brasil?
Sim, tive muitos perrengues. A barreira da língua foi um grande perrengue. No começo, quando eu não falava a língua, recebi muita discriminação e sofri até preconceito. Uma vez um banco não queria me dar um cartão de crédito pois disse que nós da “África” (oi?) só estávamos ali tentando roubar o dinheiro deles. O alemão é mais fechado que o brasileiro e às vezes a sua frieza, que pra eles é normal, pode nos assustar um pouco, mas depois acostuma (risos).

Além do idioma, quais as principais diferenças de fazer musical no Brasil e em outro país?
Estando no mercado internacional, precisamente na Europa, estamos concorrendo com um grupo muito maior e mais diversificado de candidatos. Tem gente literalmente do mundo todo ali. Em um mesmo show, temos pessoas às vezes de 15 países diferentes. Isso aumenta muito a competitividade e o nível exigido. Na Europa, as temporadas são muito longas e exaustivas. O “Rei Leão”por exemplo, já está em cartaz há 17 anos. Os contratos são de 12 a 16 meses. Fora que ali fazemos shows quase diariamente, sendo de oito a nove shows por semana, com folga somente na segunda. E se der mole, tem uma fila de gente querendo entrar no seu lugar. O reconhecimento é grande, mas se trabalha muito.

Hoje em dia, seu maior interesse é fazer mais musicais fora do Brasil ou retornar e trabalhar em seu país?
Essa é uma pergunta que veio a calhar justamente em um momento de muita dúvida. Meu pai acabou de passar por um período hospitalar muito severo, onde larguei tudo e vim para o Brasil, com medo de não chegar a tempo de vê-lo mais uma vez. Graças a Deus, ele se salvou, mas a situação despertou em mim um desejo muito grande de estar mais próximo da minha família. Sei que minha carreira é na Europa, onde construí uma vida nova, mas estudo uma possibilidade de voltar ao Brasil, nem que seja apenas por um período, para viver alguns anos a mais com as pessoas que mais amo na vida: minha família.

(Foto: Wolle Werner)

Do que você teve ou tem que abdicar para trabalhar fora do país?
Tive que abdicar da minha família, de viver no meu próprio habitat, onde nos sentimos confortáveis, abdiquei de muitos verões e praias (risos) Abdiquei de muitas coisas. Em um período fui muito solitária, me dediquei completamente a minha carreira e, por essa razão, abdiquei de uma vida social, de festas, jantares, de um drink aqui ou ali, de férias. Muitas vezes, usei as minhas próprias férias para trabalhar paralelamente em um outro musical ou em outro país. Abdiquei de ver meus sobrinhos crescendo e de muitas reuniões de família, que sempre foram minhas preferidas. É uma vida árdua e acho que não é pra qualquer um. Tem que ter muita vontade.

Qual a dica para os artistas que sonham em fazer espetáculos fora do Brasil?
Muita dedicação, disciplina e persistência. Não é um trabalho fácil, portanto sejam fortes e tenham em mente a meta de vocês. Não se deixem abalar pelas primeiras barreiras que aparecem, pois barreiras são normais e elas sempre virão. Tenham sempre em mente o amor e a vontade que tiveram desde o início e mantenham essa chama acesa, pois é esse amor e essa chama que nos leva pra frente e quebra barreiras. O esforço e a dedicação é que vai fazer o diferencial no fim do dia. Às vezes, um pouquinho a mais que você se preparou para uma audição pode ser o diferencial contra um concorrente. Estude muito até ganhar confiança e acredite SEMPRE em você! Mostre essa confiança para a direção, que você é a pessoa certa com quem eles querem trabalhar. Você é o dono do seu destino e pode conquistar tudo o que quiser, é só querer e lutar para que isso aconteça. Seu futuro só depende de você.

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