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No amor – Por Giselle Batista

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(Foto: Sergio Baia / Divulgação)

(Foto: Sergio Baia / Divulgação)

Quem aqui é ator sabe bem o que vou contar. E não é nenhuma história que se passa num mundo distante não. É o que acontece no nosso mercado de trabalho, em especial no Rio de Janeiro, que é onde conheço mais. Muitas vezes nos chegam propostas de trabalho nesse lugar: oi, é uma série muito legal, mas baixíssimo orçamento. O fulano de tal não vai ganhar nada, vai fazer no amor. O ciclano também. Vai ser uma grande visibilidade pra você, uma super oportunidade. Sejamos sinceros: isso não é uma proposta de trabalho, é um pedido de ajuda. Com sorte, é uma parceria.

Vamos aos pontos: claro que já fiz muita coisa de graça e ainda posso fazer quando desejar, mas ninguém deveria te convidar como se estivesse te ajudando. Quando se está muito no início da carreia, ok. É bom se experimentar, ganhar horas de voo, ter um material de trabalho com várias opções. Mas isso não pode virar rotina. Não mesmo. Já não gosto quando vem com a história de que fulano de tal faz sem receber. Ninguém é obrigado a ter a mesma condição de vida que o outro. Muita gente tem na família uma estrutura super sólida que até lhe permite ficar sem receber alguns meses, outros não. A comparação não pode ser um ponto de partida. Trabalhar de graça não é uma questão de amor à arte.

Raras vezes vejo equipe técnica trabalhando de graça, maquiagem, figurino. São sempre os atores que devido à alta competitividade decidem abrir mão do salário para não perder o job. Você não recebe, libera seus diretos de imagem forever and ever, e se a obra for vendida você não ganha nem uma jujuba. Estranho esse trabalho. Para ser sem cachê todo mundo deve ser um pouco dono do projeto. Caso ganhe alguma verba, tem que ser repartida para todos. Ou investidas na melhoria do trabalho, de forma que todos se sintam mais estimulados com melhores estruturas. Mas o que vejo se repetir são produções que não pagam atores, o projeto dá certo e eles substituem por um outro ator que goste mais (pagando, é claro).

Pra entrar num projeto sem grana você tem que amar as ideias, se identificar com a equipe. Associar-se. A fim de que ele seja também seu. Você vai recusar outros compromissos que surgirem e vai se dedicar para que o resultado seja o melhor possível. Um diretor iniciante que você ama e muito acredita, um texto que você sempre quis falar, o elenco mais afiado que já viu, um personagem para o qual ninguém te escalaria. Essas coisas. Formar uma trupe que todos estejam investindo seu suposto cachê no filme, no projeto. Ator não recebe, todos não recebem. Projeto ganha, todos ganham. É o mínimo para que se possa pensar em embarcar.

Não se trata de ter amor ou não. Faço sempre com amor, faço quase nunca de graça. Tomara que a competitividade não desvalorize nosso trabalho. Acredito em qualidade e devemos cobrar de acordo com o que oferecemos. Não é barato fazer cursos, especializar-se. Não é barato viver e estar disponível para trabalhar no Rio de Janeiro.

Infelizmente as contas do fim do mês não são pagas com amor.

Giselle Batista é atriz.

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