Papo de Artista

O apagamento trans que se repete – Por Dandara Vital

(Foto: Divulgação)

Primeiro de tudo quero agradecer ao Teatro em Cena por estar abrindo esse espaço para que eu possa ser “ouvida”, ainda mais pela importância que este site tem junto ao teatro carioca, e isso acende uma esperança em mim de que artistas e pessoas envolvidas com a arte também vão nos ouvir.

Ultimamente, muito tem se falado sobre Luis Lobianco e Transexuais. É só dar uma rápida pesquisada no Google que os resultados são diversos: “Ator gay que vive mulher trans é atacado por transexuais”, “Ator sofre ataques de transexuais durante peça: ‘chamaram o público de criminoso'” ou “Luis Lobianco sofre ataque de grupo trans: ‘isso é fascismo'”, entre outros… Isso porque, no último dia 23/03, organizei um ato junto com os artistas trans do Rio de Janeiro que integram o MONART – Movimento Nacional de Artistas Trans, no Teatro Rival. Apesar do ator Luis Lobianco tomar este ato como algo pontual contra ele, o verdadeiro motivo é pela luta por representatividade trans. Nós vivemos numa sociedade transfóbica, machista, e a arte está inserida dentro deste universo. Dessa forma, os artistas também são transfóbicos, e a prova disso é que um dos primeiros palcos a abranger espetáculos de travestis foi o Teatro Rival, que na época era dirigido por Américo Leal, nos anos 60. E foi Américo Leal que em 1973 conseguiu uma concessão para o retorno dos espetáculos com travestis, que havia sido proibido em 1969 por conta da ditadura militar. As travestis fizeram história no teatro de revista e Américo Leal era um apaixonado por este gênero teatral, então nem preciso dizer a forte ligação entre Américo, Teatro Rival e as Travestis. Sem contar que durante muito tempo o Teatro Rival só se manteve através dos shows com travestis e teatro de revista, musicais estrelados e produzidos por Jussara Calmon.

Neste mês de março, o teatro Rival completou 84 anos e toda sua programação foi voltada a esse momento especial, e muito mais do que a exclusão das artistas travestis desta comemoração, o Teatro Rival vem apoiar a falta de representatividade trans ao colocar um ator cis e branco representando as travestis e pessoas trans. Em uma sociedade pautada por corpos e suas corporeidades, o corpo trans é abjeto e marginalizado, e é uma pena saber que o Teatro Rival apoia isso.

A gente vem tentando trazer o debate por representatividade trans, inclusive já tentamos diversas vezes conversar com Lobianco e sua equipe e sempre somos ignorados. A luta por representatividade trans está em segundo plano porque Luis Lobianco vem usando de sua popularidade e alguns privilégios, como por exemplo, ter uma assessoria de imprensa, para lançar algumas matérias que faltam com a verdade, se vitimizando, estimulando o ódio das pessoas para com as pessoas trans, e isso já virou falta de responsabilidade. O corpo da travesti e da pessoa trans já é extremamente excluído, até mesmo pelos lugares onde a peça passou, como o CCBB tanto do RJ quanto o de BH onde travestis e mulheres trans são impedidas de usar banheiro feminino. Isso é só uma amostra do quanto a luta das pessoas trans ainda é por detalhes que não deveriam existir. Estamos anos luz atrás em relação a direitos, e todo esse discurso e vitimismo do Luis Lobianco vem reafirmar isso, ainda mais no Brasil que é o país que mais mata travestis e pessoas trans no mundo, somente este ano, de acordo com o levantamento da ANTRA, já são 45 assassinatos de pessoas Trans no Brasil, tendo um aumento 20% (10 casos) no número de assassinatos em 2018, em relação ao mesmo período do ano passado. E se Lobianco realmente é um militante LGBT+ e faz essa peça no intuito de trazer visibilidade para a causa trans, ele precisa parar de lançar essas matérias com esse teor, para preservação das vidas das travestis e pessoas trans. E para quem tem dúvidas é só ler os comentários dos seus fãs no Facebook dele ou nas próprias matérias. Quero trazer uma reflexão quanto a isso: porque as pessoas que estão sendo influenciadas por Lobianco não cobram dele um argumento plausível ao invés de ficarem acreditando em seu vitimismo? Isso muito me preocupa, pois estamos em um ano de eleições e isso mostra o quanto as pessoas não estão dispostas a buscar as informações e construir suas próprias opiniões, isso é triste demais! Umas pessoas e outras dizem coisas rasas sobre esse assunto e todos passam a se apoiar nisso como verdade absoluta, sem nem ao menos ouvir o outro lado. Dizem que queremos reduzir o teatro ao lugar de fala ou que o ator é livre… a gente não quer reduzir o teatro a nada, nós queremos na verdade trazer a igualdade para todos os atores, pois a arte não pode ser livre para uns e não-livre para outros, e é preciso entender que ao falar “por essas vozes” e “representar” por esses corpos, a produção artística ganha uma significação que não tem como se separar do momento político que vivemos.

A nossa luta é por representatividade. Ou seja, estarmos de corpo presente em todas as esferas: social, política, artística, cultural. É recuperar uma violação de acesso que nos é negado diariamente, inclusive pela produção da peça “Gisberta” e o próprio Teatro Rival, que negou ingressos de formação de plateia a travestis e pessoas trans em vulnerabilidade, como solicitado pelo grupo Transrevolução, que é uma organização que busca a garantia de direitos humanos da população trans e das trabalhadoras sexuais.

Convido todos a lerem o nosso manifesto neste link https://www.facebook.com/RepresentatividadeTrans/posts/1996303693972530 LEIAM! LEIAM! LEIAM! Para que entendam o verdadeiro sentido de tudo isso e não fiquem apenas no que uma parte diz, para que entendam que, neste dia do ato, o nosso intuito era dialogar e entregar para Lobianco e sua equipe uma lista de artistas trans envolvidos com a arte em geral. Essa lista é algo que fere tanto o Lobianco a ponto dele sair em diversos meios de comunicação dizendo que sua integridade física foi violada com um cartaz. Não procurar ouvir o nosso lado é um silenciamento muito parecido com o que sofremos na noite do ato, quando aguardamos a peça acabar para termos um momento de fala após os aplausos, e Lobianco estava no meio do palco, pedindo que o público continuasse a aplaudi-lo, finalizando com um gesto cínico e dando-nos as costas, fechando a cortina enquanto tentávamos falar. Disse que “o público já havia dado a resposta”, usando/influenciando o público que nem sequer teve a oportunidade de nos ouvir para finalmente entender toda situação, e essa tem sido a estratégia dele.

E com todo esse despertar de ódio que Lobianco vem induzindo as pessoas, eu já fui chamada de militante de teclado, fascista, doente, mal resolvida, recalcada, invejosa, balela, “esse ser humano se é que podemos chamar isso de ser humano”, louca, vingativa, sem escrúpulos, radical, oportunista… Ufa! Eu já sabia que não seria fácil, mas continuamos tentando conversar com Lobianco e com a equipe de “Gisberta”, continuamos recebendo portas fechadas, nem nas dos fundos nos recebem. Não queremos alimentar uma guerra pessoal contra ele, mas sim buscar um debate saudável, um debate sobre estruturas sociais transfóbicas que marginalizam, violentam, matam, excluem e silenciam nossos corpos, nossas vozes. E aí, Lobianco e sua equipe, vocês aceitam um debate cara a cara, no afeto?

Dandara Vital é atriz e ativista.

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