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O Ateneu: 37 atores em cena, sem patrocínio, e dando certo

(Foto: Ricardo Brajterman)

São 37 atores em cena no espetáculo “O Ateneu”, a maioria desconhecida do público. Sem patrocínio. É a fórmula perfeita para falir qualquer produção. Tem dado certo, contudo. A adaptação teatral do livro de Raul Pompéia (1863-1895) tem enchido o Oi Casa Grande, no Leblon, e realiza sua segunda temporada no local, devido ao sucesso de público da primeira vez, quando teve média de 400 espectadores por sessão, de acordo com a produção. As apresentações têm acontecido terças e quartas às 19h, e atraído uma plateia diversa.

– Pessoas que gostam de teatro; que assistiram às outras três montagens de “O Ateneu”; que tem uma relação forte com O Tablado; senhoras fãs do clássico literário; um público gay que se envolve com a história; familiares e amigos de todo o elenco; e principalmente muitos jovens, sem dúvida, que se identificam por nosso elenco ser basicamente composto por jovens. Tudo deu muito certo também pelo apoio incrível do Teatro Oi Casa Grande e do Leo Haus, que foi um grande parceiro do espetáculo e sem ele também nada disso estaria acontecendo. – lista Oberdan Junior, que assina a direção do espetáculo ao lado de Marcelo Cavalcanti.

(Foto: Rhay Salina)

Essa é uma remontagem da peça dirigida por Carlos Wilson (1950-1992) em 1987. O espetáculo revelou talentos como Selton Mello (de “Zastrozzi), Eduardo Moscovis (de “Um Bonde Chamado Desejo”), Marcelo Serrado (de “A Noviça Rebelde”), Leonardo Brício (de “Nem Mesmo Todo o Oceano”), Otávio Müller (de “A Vida Sexual da Mulher Feia”) e Enrique Diaz (de “Cine Monstro”). A nova montagem se propõe ao mesmo, com grande parte do elenco vinda de alunos proeminentes da escola O Tablado. Poucos nomes, como Vitor Thiré (de “Querida Quitinete”), João Fernandes (de “# Meninos e Meninas”) e Caio Manhente (de “Os Alunos do Colégio Santa Disciplina”), já são conhecidos por trabalhos na TV.

– A seleção foi muito parecida com as montagens anteriores. Somos a grande maioria alunos e ex-alunos do Teatro Tablado. O processo de criação do Ateneu é cansativo e desgastante. Fomos chamando jovens atores que admirávamos. Muitos ficaram, outros saíram por todos os motivos possíveis e depois de mais de 100 atores passarem pelos ensaios, chegamos ao nosso número ideal de 37 atores. Temos um grupo sólido e com ótimos atores. – o diretor diz ao Teatro em Cena – Com tanta gente, tudo é potencializado: o trabalho, as crises, as alegrias, as conquistas. É muito intenso e é impossível cada pessoa do elenco e da equipe sair do Ateneu o mesmo que entrou.

(Foto: Divulgação)

“O Ateneu” se passa dentro de um internato para meninos do final do século XIX. A trama acompanha o aluno Sérgio, que vive suas primeiras amizades e o primeiro amor, assim como experimenta a hipocrisia e enfrenta injustiças nesse pequeno mundo que é um colégio interno. Existe também uma tensão homossexual entre o protagonista e os amigos – tema que era um tabu na época e ainda hoje desperta alguma polêmica. “O livro não é sobre uma história homossexual, e sim sobre sentimentos, sobre a trajetória de um herói e entre outras coisas sobre a descoberta do amor, no caso entre meninos de um colégio interno. E o amor sempre vai fazer sentido. Para qualquer plateia”, diz o diretor. Oberdan Junior acredita que o texto sobreviveu ao tempo. É possível relacionar as injustiças da peça, por exemplo, com a reforma do Ensino Médio, proposta arbitrariamente, sem discussão com os principais interessados. “Não houve debate, como não havia dentro do Ateneu”. Mesmo sem ter a vivência de um internato, as pessoas se identificam com os temas levantados pela peça.

– Ela fala sobre questões fundamentais e principalmente sobre a repressão. Hoje, a repressão de certa forma é muito mais sofisticada que antigamente. As pessoas têm a sensação que tem o poder de escolha sobre o que comer, vestir, como agir, o que falar, em que trabalhar, mas na verdade o tempo todo somos reprimidos e manipulados para fazer escolhas que são boas para quem manda e não para nós mesmos. – O público, incluindo os jovens, tem saído impactado e emocionado dos espetáculos. O tempo passa e as questões humanas continuam as mesmas. A descoberta do amor, a hipocrisia e o interesse nos relacionamentos, a loucura, a injustiça, a vingança, o poder, são questões presentes na vida de jovens ou adultos em qualquer época.

(Foto: Julio Ricardo)

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SERVIÇO: ter e qua, 19h. R$ 60. 110 min. Classificação: 16 anos. De 8 até 30 de maio. Teatro Oi Casa Grande – Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Leblon. Tel: 2511-0800.

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