O cinema como caminho para democratização ao acesso de musicais teatrais – Teatro em Cena
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O cinema como caminho para democratização ao acesso de musicais teatrais

(Foto: Caio Galucci)

Quando o orçamento de grandes musicais teatrais é divulgado, muita gente fica surpresa com as cifras. São milhões e milhões de reais gastos para um ou dois meses de temporada. Os espetáculos, em geral, ficam em cartaz somente em São Paulo e, com sorte, no Rio de Janeiro, mas raramente conseguem viajar por outras regiões do país. A democratização ao acesso ainda é um problema, principalmente em um país de dimensões continentais e tantas disparidades sociais. Pensando nisso, a Aventura Entretenimento, uma das maiores produtoras do país, está investindo no cinema como forma de alcançar um público mais amplo. “Romeu e Julieta”, seu musical mais recente, indicado ao Prêmio Reverência e ao Prêmio Cesgranrio, encerra sua temporada paulista no Teatro Frei Caneca, neste domingo (21/10), com transmissão ao vivo em salas de cinemas de mais de 15 cidades, de norte a sul. “Romeu e Julieta” até tem uma turnê nacional agendada (por Florianópolis, Porto Alegre, Curitiba e Belo Horizonte), mas incapaz de chegar a tantos rincões. A transmissão cinematográfica levará o espetáculo, por exemplo, a Manaus.

Além dos custos altos para viajar com um musical, a realidade do Brasil é triste: 37% da população nunca entrou em um teatro, segundo pesquisa realizada pela JLeiva Cultura & Esporte em parceria com o Instituto Datafolha e apoio da Fundação Roberto Marinho. Em Manaus, somente 23% das pessoas frequenta teatro. O cinema desfruta de um quadro mais favorável. O país têm 3.279 salas em funcionamento (ainda que a maioria esteja no sudeste), de acordo com levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Em 2017, 181 milhões de ingressos para filmes foram vendidos no Brasil, informou o Observatório do Cinema e do Audiovisual (OCA). É mais fácil o brasileiro ter acesso ao cinema do que ao teatro – sobretudo o musical. A maioria das cidades não tem espaços adequados para receber grandes produções.

– Os grandes musicais são inviáveis de viajar o Brasil inteiro. – reconhece Fernando Campos, um dos sócios da Aventura Entretenimento – Seria um desperdício produzir um musical desse tamanho e não eternizar eles para outras pessoas, em outros lugares do país.

(Foto: Felipe Panfili)

A exibição de “Romeu e Julieta” é a segunda empreitada audiovisual da produtora teatral. A primeira foi com “Ayrton Senna – O Musical”, gravado e exibido em 70 cidades no primeiro semestre. A parceira da iniciativa multimídia é a empresa Cine Experience, que também já levou a comédia teatral “Gatão de Meia Idade” para as telonas. Ainda novidade para o teatro brasileiro, a utilização das salas de cinema para alcance da massa já é comum entre cantores. Tiago Iorc, Luan Santana e Anavitória já exibiram shows em cinemas de todo o país. A nível internacional, a prática é ainda mais consolidada – e rentável. No caso dos espetáculos filmados, eles ainda não são economicamente rentáveis, admite Fernando Campos.

– Mas os custos não são tão altos. Entretanto, acreditamos que ao tocar o universo dos cinemas e do digital, conseguiremos ter modelos de negócios que escalemos o produto, já que o custo de reproduzir um espetáculo no digital é menor do que em um teatro. Conectando isso a interesse de marcas patrocinadoras, que estão procurando conteúdo, interesse de cinemas que querem distribuir, atingindo públicos que não tem acesso, a gente imagina que possa ser rentável. – pondera o produtor.

Depois da transmissão ao vivo de “Romeu e Julieta” neste domingo em cinemas de Belém, Bauru, Barueri, Fortaleza, João Pessoa, Natal, Manaus, Marília, Jundiaí, Ribeirão Preto, Salvador, São Luis, São José do Rio Preto, Sorocaba, Uberlândia, Teresina e Curitiba, o espetáculo será gravado e editado para nova exibição em novembro. A direção para as telonas está a cargo de Gustavo Garcia, irmão de Guilherme Leme Garcia, diretor do espetáculo – que mescla a dramaturgia de William Shakespeare (1564-1616) com as canções de Marisa Monte.

– A questão da rentabilidade ainda está sendo construída e não sabemos ainda como que ele chegará, porém já conseguimos, hoje, democratizar o acesso para o Brasil inteiro e esperamos que a iniciativa entre para o mercado de todas as produtoras. – conclui Fernando.

(Foto: Felipe Panfili)

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