Papo de Artista

O discurso do artista – uma reflexão – Por Ester Jablonski

(Foto: Divulgação)

“…..no Estado totalitário onde vivi, as coisas eram simples porque o adversário era identificado. O inimigo era o poder. A urgência era demolir o sistema político e fazer a crítica do pensamento único, da ideologia que justificava o Estado totalitário….

…em uma sociedade democrática, o adversário é bem mais difícil de ser identificado e, ademais, é fácil equivocar-se quanto ao que é urgente…

…Mas quando me engajo em uma reflexão pública através de uma peça, jamais esqueço que devo sempre permanecer dentro do território da linguagem artística…

…Esse é para mim o grande desafio do teatro político… a dificuldade de estar, ao mesmo tempo, enraizado na matéria da realidade social e na beleza da expressão artística. Se o homem que se interroga sobre os problemas da cidade não consegue, ao mesmo tempo, fazê-lo de forma emocional, isto é, artística, o resultado será sempre nulo…

… dentro dessa lógica, creio que o teatro político, o teatro forte, o teatro que grita, o teatro que acusa, só tem sentido se continuar uma forma de arte”

Matei Visniec, fevereiro de 1996

Na ressaca de mais uma temporada encerrada, no rescaldo desse processo de fechamentos sem sinalizações do que ainda virá, tendo de viver esse luto sem o repouso que se costuma conceder a ele, a cabeça ainda fervilha em meio a um misto de sentimentos que este último ano de vida em O CORPO DA MULHER COMO CAMPO DE BATALHA me provocou.

Dentre varias questões, a que se refere ao papel da arte e do artista em tempos sombrios, tempos de graves convulsões politicas e sociais como a que estamos vivendo, e que muitas vezes nos dividem – como ocorreu recentemente com relação a suspensão dos espetáculos em virtude da paralisação geral – é o que trago para essa reflexão aqui.

A prova de que o Teatro é uma arte única é essa experiência vivida tanto por quem está no palco – em cena ou com sua arte para que a cena se faça – quanto por quem assiste. Sair com “a alma lavada”, como se diz, literalmente. A força do afetamento que uma peça nos provoca, presentificando e fazendo-nos viver ali, o trágico da condição humana, a cada vez que se assiste, está na origem do teatro, e há mais de 2000 anos sobrevive, talvez por isso, apenas.

Matei Visniec, citado acima, é o autor das palavras que tomei como minhas durante este último ano – jornalista e escritor romeno radicado em Paris desde 1987 como exilado politico da ditadura comunista em sua terra natal.
Ao artista cabe cumprir, da melhor forma, sua arte, cuidando para que que dela ecoe seu grito, sem que fique parado no ar, nulo, como disse Matei.

Esse é o nosso desafio. Nesse sentido, manter nosso trabalho resistente ao lado de ações como a comovente manifestação dos artistas do teatro municipal do RJ, me parece o melhor caminho.

Ester Jablonski é atriz, produtora e jornalista.

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