O monólogo sem corpo que tensiona presença de Gustavo Vaz – Teatro em Cena
EntrevistaEspecial Festival de Curitiba

O monólogo sem corpo que tensiona presença de Gustavo Vaz

Em “Frequência Ausente 19Hz”, público é conduzido por fones de ouvido, sem presença de atores

Início da experiência: instalação com cena em áudio 3D (Foto: Kelly Knelves)

CURITIBA – Está em um festival de teatro, mas é teatro? “Frequência Ausente 19Hz” é uma das propostas híbridas que compõe a programação do Festival de Curitiba. Escalada para a principal mostra do evento, a “experiência imersiva” criada pela Ex-Companhia de Teatro, de Gustavo Vaz e Bernardo Galegale (mesmo dupla de “O Enigma Voynich”), leva o espectador a uma jornada individual pela cidade. Um espetáculo itinerante, então? Não exatamente. Cada pessoa ganha um fone de ouvido e um conjunto de arquivos, que devem ser baixados em seu smartphone. Munido desse material, a pessoa caminha pela rua, de acordo com coordenadas dadas pelo personagem em seu ouvido. A voz é de Gustavo Vaz, vencedor do Prêmio Shell de melhor ator neste ano por “Tom na Fazenda”. Em resumo: trata-se de um “espetáculo” sem atores. Pelo menos, sem a presença física de alguém. Mas não dá para se sentir sozinho na experiência exclusiva.

Em Curitiba, a base de “Frequência Ausente 19Hz” é na Casa Damaceno, no alto da Rua Treze de Maio, no Centro. Com intervalos de cinco em cinco minutos, o espectador entra em uma sala repleta de folhas secas no chão e com duas cadeiras no centro – uma instalação. Senta-se em uma, coloca o fone de ouvido, fecha os olhos e imediatamente ocorre a transposição para uma realidade paralela. Trata-se de um áudio em 3D, que dá a sensação de que o ator não só está na sala, como te rodeia e cochicha em seu ouvido. Você acredita que há alguém pisando nas folhas no chão, por mais que esteja totalmente sozinho ali. Dá até para sentir um arrepio. Na história, este ator, há um ano, esteve nesta mesma sala para apresentar seu monólogo no festival. Só que ninguém apareceu para assisti-lo. Atordoado, ele sai dali e vagueia pela cidade, desmaterializando-se. É esse percurso que ele convida o espectador a reviver.

O espetáculo leva o espectador a um percurso pelas ruas de Curitiba, algo que dura pouco mais de uma hora (Foto: Kelly Knelves)

– A gente tem uma pesquisa que mistura algumas linguagens, baseada na perspectiva do teatro e nessa experiência ao vivo. É uma pesquisa sobre a apoteose da experiência ao vivo em uma obra de arte. “Frequência Ausente” é um trabalho que começou em 2015, na Virada Cultural de São Paulo, e a gente felizmente fez em alguns lugares em São Paulo e fomos para fora, em Portugal, em Montenegro, e agora estamos em Curitiba. – Gustavo Vaz conta ao Teatro em Cena – É uma experiência em áudio 3D, o áudio binaural, que é assim: a partir do momento que você grava alguma coisa e reproduz em fone de ouvido, essa tecnologia reproduz uma sensação de presença física do áudio gravado. Por exemplo, se eu gravo você andando em volta de mim com esse microfone e reproduzo, parece que você está presente naquele momento para a pessoa que está ouvindo. Tem uma discussão sobre essa presença ou não presença dentro desse trabalho.

O trabalho é inspirado no romance existencialista “A Náusea” (1938), de Jean-Paul Sartre (1905-1980). No livro, o personagem vai para uma cidade fazer uma biografia de um marquês e, durante esse processo, começa a sentir nojo do ser humano e não consegue se relacionar com as pessoas. Não se explica muito bem de onde isso vem.

– Na nossa história, a gente transforma isso em um ator que foi fazer um monólogo em uma cidade – e a gente sempre usa a cidade onde se apresenta como base da dramaturgia, usando a história da cidade, conversas com moradores, para construir a dramaturgia para cada cidade, então é uma dramaturgia site-specific. Esse ator foi para o Festival de Curitiba, ficcionalmente, no ano passado… – diz o ator.

Gustavo Vaz, a voz da experiência imersiva, em encontro com a imprensa em Curitiba (Foto: Annelize Tozetto)

TEATRO EM CENA – Lendo a sinopse, eu achei que era verdade isso!
GUSTAVO VAZ – É, então! Ele foi fazer um monólogo inspirado em “A Náusea” do Sartre e no dia da estreia dele ninguém está lá. Ninguém aparece para ver. Ele sai pelas ruas da cidade, sem rumo, sem sentido – um ator sem público – e se desmaterializa. Então a gente usa esse mote para, um ano depois, ou seja, no festival que a gente vai estar, esse ator reaparecer invisível, mas presente a partir dessa tecnologia de áudio 3D para mostrar o que aconteceu com ele nesse dia. Esse caminhar pela rua é recheado da história do lugar e de uma percepção existencialista da vida e desse conflito desse ator durante a caminhada por alguns pontos da cidade.

Então não tem ator em cena?
Você tem a sensação de que tem um ator do seu lado, porque a sensação do áudio 3D é que sempre tem um personagem andando junto contigo. Mas não tem. Mas tem. Mas não tem. Mas tem.

E você fica onde?
Eu sou o ator que gravo tudo isso e estou com as pessoas virtualmente durante essa caminhada.

Na hora, nada?
Não, na hora, inclusive, é uma experiência individual. A pessoa chega no teatro, onde a gente cria essa ficção de que foi lá que aconteceu esse monólogo, ela escuta a primeira cena em áudio 3D, reencontra esse personagem, esse personagem entra na cabeça dela através dos fones de ouvido e leva ela pelas ruas. É uma experiência individual que dura cerca de uma hora, uma hora e quinze, e as pessoas fazem uma espécie de jornada pela cidade, se relacionado com a história da cidade, com elas próprias, com a arquitetura do lugar, e retorna pro espaço inicial.

Só pode uma pessoa por vez?
Uma por vez a cada cinco minutos. A gente fica aberto por sete horas. A obra é toda em áudio e vídeo e a gente coloca no seu celular. Então, além do áudio 3D, a gente tem o áudio stereo, que acontece só dentro da cabeça, que não tem essa sensação de espacialidade, fotografias e vídeos, que a gente produz no lugar onde a pessoa está, então ela tem uma espécie de duplicidade de realidade. Por exemplo, se eu faço um vídeo aqui nesse lugar de uma coisa que aconteceu naquele momento onde o ator estava pelas ruas, reproduzo aqui e você coloca o seu celular sob esse lugar, você tem uma duplicidade de realidade do que está acontecendo no vídeo e do que realmente está acontecendo fora.

Por que isso é teatro e não instalação, por exemplo?
Não sei te dizer. Já passei por essa dúvida algumas vezes na minha vida: chamar ou não chamar de teatro. A minha companhia chama Ex Companhia de Teatro. O que é uma ex companhia de teatro? Ela pode ser qualquer coisa. Hoje, no Festival de Curitiba, a gente está chamando de áudio-teatro imersivo. Mas, se não me engano, no ano passado, tinha um espetáculo que era com robôs em um festival. Isso é teatro? Não sei. Acho que a gente está em um período histórico de tentar quebrar um pouco esse engavetamento do que é, do que não é. A minha companhia tenta quebrar essas barreiras para falar que pode ser, pode não ser. Quem decide é quem está vivenciando. Ou não precisa decidir também. É só a experiência que vale, no fim das contas.

A dupla criadora de “Frequência Ausente 19Hz”: Gustavo Vaz e Bernardo Galegale (Foto: Annelize Tozetto)

Como é feita a adaptação para cada cidade?
A gente chega normalmente uma semana antes no lugar, mas a pesquisa efetivamente começa cerca de um mês antes. Claro que é mais difícil pesquisar de longe, porque a gente não tem acesso a materiais físicos e a pessoas diretamente para o encontro pessoal. Estar no lugar faz toda a diferença para o trabalho. Mas a gente começa a pesquisa presencial por volta de sete dias antes e aí, quando a gente chega, já chega com o percurso mais ou menos pensado, com alguns lugares para ir, com algumas pessoas para conversar. A gente lança um questionário pela Internet uns 15 ou 20 dias antes – isso não é uma regra – para as pessoas da cidade responderem algumas perguntas, para a gente começar a sentir a cidade. A gente faz o “Frequência Ausente” desde 2015, então essa dramaturgia foi construída para o primeiro e a gente tem alguns movimentos internos do personagem, que às vezes reutiliza. A gente tem também uma linha de conflito, uma linha dramatúrgica, uma linha de ação do personagem, que a gente tenta também repetir um pouco. Aqui em Curitiba, por exemplo, acho que 80% do texto, até um pouco mais, foi criado especialmente para cá. A gente mudou algumas cenas de ordem, porque quem dita o trabalho é realmente o espaço – físico e histórico. A gente estava até brincando esses dias que está sempre reestreando. É uma loucura. Todo mundo chega em Curitiba para o festival com o texto pronto, o cenário de caminhão, a luz preparada… a gente não chega com nada. Isso é muito doido. O cenário é construído com materiais da cidade. As cadeiras do cenário, as folhas secas, isso tudo é recolhido pela cidade. O texto é só essa base. Tudo se efetiva quando a gente está na cidade. A gente tem sete dias para sair do nada para uma experiência que a gente não sabe como é, porque não estreou ainda, sabe? A gente está sempre estreando.

Como as interferências do espaço urbano afetam o espetáculo? Se chover, por exemplo.
Durante? Choveu! E é bom. Sei lá, como é que vou dizer? Vou usar esse exemplo da chuva. Acho que a gente pega pouca chuva. Acho que é bom pegar. Quando a gente é moleque, a gente pega chuva. Hoje em dia, a gente se protege da chuva, da cidade, do sol. Tudo é um problema. Em 2009, eu e Baba [Armando Babaioff, ator] fizemos “Solidão Nos Tempos de Algodão” lá no Centro Cultural Correios e a peça acontecia com chuva. O cenário da Bia Junqueira era aberto. Aqui no nosso caso, a gente até usa a chuva na dramaturgia, porque chove muito em Curitiba. Isso acabou virando parte da dramaturgia. Se chover, pra gente, vai ser incrível. Eu acho.

Vocês tem planos de levar para o Rio?
Vou te falar uma coisa. A gente está quase fazendo o “Frequência Ausente” mais fora de São Paulo [a Ex-Companhia de Teatro é da cidade] do que em São Paulo. Parece que é mais fácil sair de lá do que fazer na própria cidade.

Por quê?
Não sei. Fica a pergunta para vocês. Não sei. Tem uma parte que sei que é responsabilidade nossa: como a gente é uma companhia experimental, não tem uma estrutura de subsistência para ficar o tempo inteiro dentro da companhia. E a gente precisa se dedicar pra coisa funcionar, né? Neste ano, a gente está se estruturando para ter uma estrutura de produção mais forte para que o “Frequência Ausente” aconteça mais vezes. Mas não sei te dizer. É mais fácil ir pra fora do país com esse trabalho do que fazer no espaço do lado da nossa casa, ali em São Paulo. Então, claro, seria incrível fazer no Rio, capitais, cidades do interior… e cada lugar vai ter uma história, porque ele é criado para cada cidade. Eu queria muito. Rio é minha casa também.

(Foto: Annelize Tozetto)

*O jornalista viajou a convite do Festival de Curitiba.

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