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O olhar de um professor de teatro – Por Daniel Freitas

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(Foto: Divulgação)

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No início de uma nova turma, o dia começa com ansiedade. A espera por quem adentrará a sala é algo que me traz uma profunda esperança. Mesmo após dez anos lecionando, minhas expectativas são inúmeras. Não me canso de imaginar quais experiências surgirão destes novos encontros.

Lembro-me muito bem que ao terminar minha formação acadêmica na UERGS – Universidade Estadual do Rio Grande do Sul, havia decidido que jamais seria professor de teatro, que após as experiências com os estágios, era fato consumado que aquilo não era pra mim. Mas como o único fato consumado da vida é que não sabemos de nada do que pode nos acontecer, meu caminho ao chegar ao Rio de Janeiro foi sendo direcionado para justamente aquilo que me dava mais medo: lecionar.

Sempre me pareceu assustador poder estar lá, pronto a participar dos sonhos de tantas pessoas, de ser, muitas vezes, a figura por trás das decisões diárias de qual jogo, qual texto, qual método seria mais transformador para essa ou aquela pessoa. Como me redescobrir sempre foi minha meta como ator, esperava ao menos poder partilhar no espaço da aula o mesmo interesse investigativo com os alunos/atores.

Depois da primeira turma iniciada não pude mais parar, passei a encontrar um enorme prazer nas aulas, mesmo quando me faço de durão e assustador, internamente minha criança artista se sente plena em mais essa forma do fazer teatral. Não busco nas aulas uma corrida de conteúdos, busco experiências com as quais possa tornar visíveis as possibilidades físicas e criativas ainda não exploradas pelos alunos, e também, com isso, aumentar suas potencialidades artísticas e humanas.

A sala de aula me trouxe preocupações, dúvidas, descobertas e alegrias imensas. As preocupações se deram quando percebi que inúmeras pessoas que buscavam e buscam cursos de teatro não assistiram a nenhuma peça na vida. Que mesmo ao responderem no primeiro dia de aula que amam o teatro, não percebia em suas ações fora da sala este amor, ou interesse, já que muitas mesmo após iniciarem o curso relutam ao fato de sair de suas casa e ir assistir a um espetáculo, ou ler uma peça. O que as leva então a procura pelo teatro? Mesmo com peças de baixo custo no Rio de Janeiro, em espaços como o SESC (presente em vários bairros), CCBB, entre outros, por que o não interesse em vivenciar o que de melhor a arte teatral pode nos proporcionar? Será que estamos nós artistas, educadores e produtores preocupados com a formação de platéia, ou só em criar nossos projetos artísticos?

Descobri que o fazer teatral pode não só ser um local para a formação de futuros atores profissionais, mas também, e principalmente, algo que torne as pessoas mais flexíveis, abertas para as relações humanas, mais confortáveis em se comunicar, menos preconceituosas e mais sensíveis para com a beleza que está todos os dias a nossa volta: a vida.

Já em matéria de alegria, ser professor de teatro acabou com minhas crises de abstinência de quando não estou nos palcos. Vou para os encontros com meus alunos na mesma alegria com quem vai para uma nova peça, assisto suas cenas com a felicidade de ver essa gente se entregando para a arte. E nada, nada me deixa mais emocionado, do que perceber o brilho, a presença cênica e o prazer do aluno que descobriu seu lugar no mundo.

Daniel Freitas é ator, diretor e professor teatral.

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