Papo de Artista

O pai que desculpe, mas a MÃE É FODA – Por Yuri Ribeiro

(Foto: Divulgação)

“Te amo pai, mas nós, homens, temos que reencarnar em loop infinito e ainda não as alcançaremos.”

Ela caminhava descalça ao lado do irmão rumo à escola, por quilômetros em busca do que sua mãe sempre ensinou – O conhecimento é a maior riqueza que o ser humano pode ter. Descalça por não ter calçados e as vezes para economizar os que tinha, porque nunca sabia quando ia poder ganhar outros. Para mantê-los limpos também, já que parte do caminho era de terra. Fato é que lavar os pés era mais simples que ter novos sapatos. Ela e o irmão, guardavam o material escolar, cada um num saco de arroz, que era lavado até sair a marca do fabricante, pra não ser tão escancarada a genialidade de minha vó em transformar o pouco ou nada no suficiente ou tudo.

Para cumprir a função social de aborto masculino bem realizado, o pai dos dois os abandonou, a esposa e o casal de filhos, logo cedo, covarde. Fato é que avô de sangue, eu só tive por parte de pai, e me despedi dele nesse ano de 2018, Deus o tenha.

Essa minha avó, Maria Cândida de Alvarenga, que chegou a me pegar nos braços por pouco tempo antes de partir, foi uma verdadeira guerreira. Literalmente abrindo mão do almoço, onde trabalhava como empregada doméstica, para servir de jantar aos dois quando chegava em casa, rebolava nas artes da culinária e transformava pão de ontem recheado com apenas cebola refogada em lanche de dar água na boca. Metade do sabor do que se tem na vida está relacionado ao amor dedicado a ela. Analfabeta, realizou o sonho de “trabalhar em uma empresa”. Foi na Telefunken, que trabalhou como cozinheira.

Por que estou contando essa história?

Porque, como ELA, existem muitas. Sei que não é mérito de minha vó apenas, carregar consigo a força de criar filhos solteira/desquitada/divorciada/SOZINHA. Mas inicio nela a sequência de mulheres que me ensinaram e me ajudaram a ser cidadão, que é muito mais que ser homem. Aliás, o que é ser homem? Sigo aprendendo.

Minha mãe e de minhas duas irmãs, com sede de conhecimento, se formou em letras, direito e passou num concurso público em São Paulo. Os pés descalços aprenderam a usar escarpam e salto alto.

Minha mãe teve a companhia de meu pai e a tem até hoje. – Te amo pai, mas nós, homens, temos que reencarnar em loop infinito e ainda não as alcançaremos.

Voltando…. Minha mãe, primeiro através de minhas irmãs, Ariane Ribeiro e Ana Carolina, me ensinou a amar as mulheres, a não bater em uma mulher nem com a “pétala de uma rosa”, a ser delicado com elas, beijar a mão, abrir a porta do carro, fazer carinho, cuidar, ser gentil…. Me ensinou a RESPEITAR, não só as MULHERES, mas principalmente elas.

E talvez em reposta a esse amor imensurável que tenho por ELAS o universo me presenteou com AS melhores.

Obrigado mãe, Vanda Maraisa de Sousa, por me dar o mundo e me ensinar a amar.

Obrigado professoras do primário, secundário, terciário, quaternário e por aí vai. Obrigado Professoras, pelas quais me apaixonei.

Obrigado Marilza Batista Correa, professora também, por ter sido minha mãe no Rio de Janeiro e ter me gestado por exatos 9 meses em sua casa enquanto eu aprendia a Cidade “maravilhosa”.

– Marilza posso morar na sua casa quando for estudar teatro no Rio de Janeiro?

– Pode, mas antes quero falar com sua mãe para saber se você não vem fugido(risos)…… Vanda você sabe que seu filho vem pro Rio?

– Sei. Não concordo, mas sei. Eu não criei ele pra mim. Criei ele para o mundo. Cuida dele pra mim?

– Cuido. Pode vir.

Obrigado Gabriela Vasselai e Catarina Saibro por dividirem comigo um lar em Laranjeiras e serem mais uma vez as mulheres que fazem parte de momentos decisivos na minha vida. Obrigado também as suas mães Silvia Aparecida dos Santos Vasselai e Moema Adami da Rosa por dividirem o amor maternal com o novo irmão.

E obrigado Claudia Wildberger por abrir as portas do seu coração, da sua casa, da sua alma e da sua família, que hoje é minha. São quase 6 anos de amor juntos. E reconheço em você a força das mulheres e por isso me orgulho de ter entregue um pedaço do meu coração pra você fazer morada. E sei que habito um pedaço do seu. Não temos um ao outro, pois no amor não há pertencimento, mas somos um com o outro nessa passagem pela vida.

Não pude listar todas as mulheres que fizeram a diferença na minha vida, pois de fato são muitas e caras. Mas quero registrar aqui a minha profunda admiração pela MULHER…

Para cada uma delas…

Da fruta… a mais doce

Da espécie… a mais forte

Dos Homens… a mais macho

Das flores a mais bela

Das cores… cada uma delas

Das fragrâncias…. a mais entorpecente

Mulher é quente, mulher é fogo

Mulher é afago, das mulheres eu trago:

Lembranças, carinho, saudade, lições e canções.

Poesias e crias, magias.

Tão fortes

Tão Frágeis

Mulher é mãe, mulher é mulher.

De todas as mulheres eu amo cada uma delas.

Mulheres são belas.

Mais belas.

A cada dia mais belas.

Perto delas somos todos feras.

(Poema retirado do “Pedaço de Mim” – caderno de poemas ainda não publicado de Yuri Ribeiro.)

Outros poemas estão na peça “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?” – Escrita em homenagem a Claudia Wildberger.

Yuri Ribeiro é ator, produtor e dramaturgo.

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