Luiz Buarque

O Pequeno Musical Que Podia

(Foto: Reprodução)

Lembram desse desenho?

A história da pequena locomotiva que embarca em uma arriscada viagem capaz de apavorar até seus colegas grandões inspirou o jargão do showbiz reservado aos musicais que (tão determinados quanto a locomotiva da história) comem pelas beiradas até alcançar o sucesso. Nada mais justo do que ele ser o título do texto, já que a cerimônia do Tony Awards deste domingo viu o intimista The Band’s Visit arrebatar dez prêmios e deixar superproduções como Frozen de mãos abanando.

Não é como se o espetáculo (baseado no filme indie sobre o encontro entre uma banda egípcia e os habitantes de uma cidadezinha no deserto de Israel) fosse um completo azarão, mas uma bem sucedida temporada no Off-Broadway e críticas gloriosas não eliminavam o risco dele ser ofuscado por um grande contingente de superproduções e a tendência dos votantes de prestigiar aqueles que estreiam perto do final da temporada.

Mas à medida que a festa avançava e o musical de David Yazbek (música e letra) e Itamar Moses (texto) ganhava prêmio atrás de prêmio (além dos autores e do musical em si, direção, três membros do elenco e três categorias técnicas foram contempladas) ficou claro que a noite reservava um final esperançoso para uma temporada bastante fraca.

O musical estrelado por Katrina Lenk e Tony Shalhoub levou dez das onze indicações que recebeu. (Foto: Matthew Murphy / Playbill)

Prêmios nunca serão um termômetro infalível de qualidade, mas são uma boa forma de indicar tendências. Após uma safra morna com apenas sete novos musicais, o sucesso de um material desafiador renova a crença (melhor representada pelo fenômeno Hamilton) de que o musical da Broadway não só está voltando a se firmar como formato artístico capaz de abordar questões relevantes, mas fazendo isso através de interessantes inovações formais e estéticas.

Pois se todos os indicados na cobiçada categoria de “Melhor Musical” levantaram bandeiras de tolerância e pertencimento, venceu aquele que melhor conseguiu casar forma e conteúdo: as versões teatrais de franquias como “Meninas Malvadas” e “Bob Esponja” (talvez preocupadas em satisfazer as expectativas dos fãs ou justificar o preço dos ingressos) optaram pela opulência e a segurança de caminhos já testados, soando um tanto quanto genéricas. No caminho oposto, The Band’s Visit destacou-se ao investir nas necessidades específicas de sua história.

A dificuldade de mediar essa relação “forma/conteúdo” ficou ainda mais evidente através dos revivais deste ano. Essas produções estão acostumadas a andar na eterna corda bamba entre preservar os aspectos adorados dos grandes clássicos ao mesmo tempo em que atualizam o que se tornou defasado, mas o desafio foi elevado a um outro patamar com a presença numa mesma edição de dois dos mais polêmicos clássicos da Era de Ouro do musical americano.

Carousel (1945) e My Fair Lady (1956) são famosos por suscitar desconforto em plateias contemporâneas por conta de suas abordagens de questões de gênero e relacionamentos abusivos. Ainda assim, continuam a gerar interesse de novas gerações de artistas. Talvez porque, sob um olhar atento, a qualidade excepcional desses musicais possibilite a abertura de portas para novas interpretações dessas histórias.

A nova montagem de My Fair Lady, por exemplo, toma consciência das várias transformações sociais ocorridas nos sessenta anos desde a versão original e ressalta a intrincada discussão de gênero e classe social por baixo dos figurinos suntuosos e melodias apaixonantes. O “novo final” gerou certa polêmica, mas sendo o teatro uma arte do presente, um bom musical só morre se a ideia de “clássico” for tomada como sinônimo de “fóssil”.

Até o vencedor da categoria – Once on This Island (1990) – mesmo sendo bem mais “jovem” do que os outros dois, ainda se preocupou em atualizar o material. A potência dessas montagens é sinal de que a solidez de uma obra está em sua capacidade de renovação e mesmo as respostas encontradas pelos autores na época original não sendo eternas, podem inspirar novas rotas. Ao passo que um material que não se arrisca tende a ser esquecido pelo caminho.

Lindsay Mendez ganhou seu primeiro Tony como a Carrie Pipperidge de Carousel (Foto: Julieta Cervantes / Vulture)

Em 2011, Neil Patrick Harris abriu a cerimônia fazendo graça com o status de “nicho” conferido aos musicais. Sete anos mais tarde, a edição apresentada por Josh Groban e Sara Bareilles começou com os anfitriões consolando os futuros “perdedores”, ressaltou a importância da educação artística (incluindo uma versão de “Seasons of Love” cantada por um coral escolar) e apresentou fotos dos indicados em seus primeiros papéis, incentivando os espectadores a compartilhar registros similares nas redes sociais com a hashtag #TonyDreaming.

É o retrato de uma Broadway focada em plantar novas sementes e garantir um futuro para uma forma de arte com prazo de validade constantemente estendido. E mesmo que os altos custos de produção sigam sugerindo projetos baseado em marcas conhecidas e escolhas seguras, o histórico de sucesso de desbravadores como Fun Home, Hamilton e agora The Band’s Visit pode seguir incentivando novas obras capazes de “jogar a bola pra frente” como Carousel e My Fair Lady fizeram em seu tempo.

Vida longa às pequenas locomotivas.

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Luiz Buarque é dramaturgo e diretor, escreve musicais e fica feliz com qualquer coisa envolvendo Hammerstein e/ou Sondheim. Também pode ser encontrado em https://leituradramatizada.wordpress.com

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