Papo de Artista

O que fazer com isso tudo? – Por Vitor Novello

(Foto: Divulgação)

Antes de falar sobre as inquietações crucias, cabe uma introdução-escudo. Acho que as introduções desse tipo são aquelas que protegem os autores das certezas, sempre perigosas. Portanto, vou ser obrigado a me entregar logo de cara: Tudo aqui é roubado. Tenho um amigo que sempre diz que um artista tem que saber roubar bem, e acho que ele tem sua razão. Roubamos uma imagem da natureza, um jeito de conversar, uma ideia que se junta a outra que tínhamos roubado e modificado antes… No início desse ano, ingressei na escola de teatro da Unirio; depois de uma tentativa de cursar Cinema na UFF por três períodos, percebi que precisava estudar teatro. Então, no início desse ano, junto com a montagem do espetáculo “Coisas Invisíveis” e um workshop no Club Noir, comecei a conhecer uma série de possibilidades do que pode ser o teatro, do porquê fazer e do que é ou pode ser, como ator, o meu trabalho, ou os meus trabalhos. Todas essas referências e as que vieram antes borbulham na minha cabeça e produzem um resultado: muitas dúvidas, e a certeza de que todas as certezas vão mudar. Se aparecer aqui embaixo alguma dúvida mascarada de certeza me desculpa, é só um disfarce.

Comecemos então pela minha primeira dúvida: o que é o teatro? Apesar de prever o iminente fracasso dessa operação, ainda me dá vontade de definir. Então eu penso: “é claro que há coisas que não são teatro, Vitor, um livro por exemplo pode possuir uma teatralidade marcante, mas não é teatro”. Então é possível dizer o que não é teatro, mas definir o que ele é, será que é possível? Será que é ele, será que é ela, ou seja que é isso? Por enquanto fico com a ideia de “fazer teatro de tudo, e poder fazer teatro de nada”. Tudo pode ser teatro, e nada demais também pode. Se sairmos do Ocidente então, vamos pra longe do palco descobrir um “outro teatro”, riquíssimo em teatralidade mas esquecido por nós aqui desse lado, talvez pra simplificar a dúvida em questão. Tendo comigo esta incrível definição de que não consigo definir o que é o teatro (óbvio), apesar de achar muito importante me perguntar isso mesmo assim, parto para uma outra dúvida que pode ser muito mais fértil: O que pode ser o teatro? Uma reunião de um público para assistir a algo? Um instante aqui e agora que temos o prazer de presenciar? Uma religião por si só? Um instrumento de educação popular? Para cada um pode ser uma coisa, e o que eu sei é que, na minha relação ainda jovem com o teatro, tenho vontade de explorar a sua capacidade de transformar as pessoas, de fazer o amor vencer o medo, cada vez mais, nos outros e em mim mesmo. Li uma frase uma vez sobre os livros: “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. É isso! Só que com o teatro. E sabe, talvez não seja tão utópico assim, isso de mudar o mundo. Não se a gente for pensar que um abraço, um toque, um pensamento já transforma. Mas como?

O que consigo ter pra mim enquanto ator é que tem a ver com a presença. Eu enquanto ator preciso valorizar a minha presença física e existencial ali naquele espaço. É diferente ver um ator no presente na minha frente do que no passado já filmado de uma tela ( ou até no passado, mesmo que na minha frente). Os dois podem ser incríveis pra mim enquanto público, o palco e a tela, mas de fato essa presença não deixa de ser especifica do teatro, e uma de suas principais forças. Com um bom texto em mãos, sinto que devo colocar ele à frente, e não minhas escolhas. Se elas ficarem invisíveis então, aí a mágica fica incrível. Foi o que senti vendo Juliana Galdino fazer o velho protagonista de “Leite Derramado”. Se “toda técnica revela um posicionamento existencial”, como ela diz, a minha forma de se relacionar com o palco define não só a minha postura formal e estética, mas a minha ética quanto ao teatro e a sua mágica, a minha forma de ver o mundo e a minha própria profissão, os meus valores. Se eu digo a palavra “vida” da mesma forma que eu digo “quero pão”, com a mesma voz e sensação, provavelmente eu estou criando apenas uma forma abstrata, sem sentimento real. Se eu vou fazer um personagem velho e gasto minha energia pensando nos motivos pelos quais ele treme a mão, antes mesmo de me sentir ali, teremos uma ideia do personagem, fabricada meticulosamente no meu hiper-treinado cérebro esquerdo, e aí a chance da mágica acontecer fica muito menor. Não acho que temos que ser escravos dos sentimentos, ficarmos esperando sentir alguma coisa muito incrível sempre, quando na verdade o que interessa mesmo é que o público sinta. Mas penso que nosso trabalho tem algo sim de “autópsia do coração”, e o mistério esteja talvez aí entre o interno e o externo, em conseguir fazer essa passagem com o corpo, a voz, e a imaginação de um jeito sincero. Atuar mais do que avaliar, agir mais do que interpretar, ser vulnerável mais do que arrasar, acolher o público mais do que ameaçá-lo, agradecer a presença mais do que agradecer os aplausos. São coisas que tenho roubado e adaptado pra mim, e que acredito serem transformadoras. Relendo este texto pela última vez, percebo que lidas assim parecem até coisas óbvias e simples! Talvez sejam, o problema é que “o simples é o contrário do fácil”.

Roubos (alguns):
– Juliana Galdino : “O simples é o contrário do fácil”
– Mário Quintana : “Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas, os livros só mudam as pessoas.”
– Zeca Ligiéro : Conceito de “Outro teatro”, diferente das formas hegemônicas do espetáculo.
– Ariane Mnouchkine : “Autópsia do coração”, se referindo ao trabalho do ator.

Vitor Novello é ator.

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