Paulo Gustavo pede desculpas por blackface em carta aberta – Teatro em Cena
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Paulo Gustavo pede desculpas por blackface em carta aberta

As fotos do Paulo Gustavo (de “Hiperativo”) fazendo blackface nos bastidores da nova temporada do programa “220 Volts”, do Multishow, deram o que falar. O ator, depois de muita polêmica na Internet, com críticas massivas do movimento negro, reconheceu seu equívoco e pediu desculpas em carta aberta postada no Instagram. Leia na íntegra:

(Foto: Reprodução)

(Foto: Reprodução)

“Nesses últimos dias li, ouvi, pensei e entendi que há uma longa discussão sobre o uso de ‘blackface’ muito anterior e muito maior do que eu, minha carreira, minha personagem e o 220 volts, por isso decidi refazer a Ivonete sem que ela pareça uma caricatura risível da mulher negra. Ela não é. Ivonete é esperta, crítica, consciente e questionadora. É uma brasileira que passa por todas as dificuldades absurdas que todos passamos como a falta transporte eficiente, sistema de saúde precário, violência, etc etc etc… Ela se revolta, reclama, exige, sofre, mas não perde o rebolado, mantém-se de cabeça erguida, forte, guerreira e sobretudo alegre. Mas o blackface historicamente remete a experiências que são dolorosas para muitas pessoas e, mesmo não sendo a intenção, eu peço desculpas se ofendi ou magoei alguém. Eu posso pintar minha pele, posso fingir, representar, tentar dar voz a essa mulher, mas eu nunca saberei de verdade como é ser uma mulher negra. Nos textos, a alegria da personagem não fazia dela uma alienada, mesmo assim eu compreendi que a negra animada é um estereótipo que os movimentos negros combatem com razão pois na vida real, muitas vezes, não é nada engraçado. Apesar de conhecer e adorar muitas Ivonetes, ser negro no Brasil é difícil sim. Como ser mulher também é difícil; como ser gay também é difícil. Tanto na minha arte quanto na minha vida pessoal tenho feito o que posso pra tentar transformar o mundo num lugar melhor. Casei com o Thales, assumi isso publicamente, mudei minha certidão. Entendo que temos um grande processo de conscientização sobre o racismo, o machismo e a homofobia no Brasil e ele vem passando por etapas dolorosas. Eu não quero de forma alguma ser agente dessa dor, corroborar com preconceitos e manter o status quo de uma sociedade que necessita melhorar. Todos nós precisamos conversar e pensar mais a respeito. Eu tenho feito isso. Eu e a Ivonete.”

Ivonete é a personagem para a qual ele aderiu ao blackface na TV. O personagem existe há várias temporadas e também pode ser visto no teatro, no espetáculo “220 Volts”. Por questão de rapidez, no teatro, Paulo não pinta o rosto. Mas, no programa televisivo, ele por vezes usou esse artifício, que é historicamente racista.

Essa é uma discussão que está cada vez mais em voga no mundo das artes. Em 2015, a Cia. Os Fofos Encenam chegou a cancelar sessões do espetáculo “A Mulher do Trem” em São Paulo por conta da discussão criada entorno do blackface. Por fim, o grupo optou por abandonar a pintura facial nas apresentações. No Rio, o ator Leandro Melo (de “Dzi Croquettes em Bandália”) também teve problemas com as fotos de divulgação de seu monólogo musical, “Satã, um Show Para Madame”, nas quais aparecia com metade do rosto pintado, em alusão à Madame Satã.

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