CríticaOpinião

Peça O Livro dos Monstros Guardados revela lado obscuro das pessoas

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Texto vencedor do Prêmio Shell de São Paulo em 2010, “O Livro dos Monstros Guardados” ganhou uma montagem inédita para ser encenado no Rio de Janeiro pela primeira vez. Com direção de João Fonseca (de “O Beijo no Asfalto – O Musical”) em parceria com Rafael Primot, autor do texto, estreante na direção teatral, a peça esmiúça o lado obscuro da vida de sete personagens em monólogos minimamente interligados. Há um pai de família que ocultamente se delicia com transas submissas com outro homem (com direito a fisting – vale dar um Google); uma telefonista de atendimento a suicidas, que quebra as regras e decide ajudá-los pessoalmente (fazendo sexo oral em um homem virgem em banheiro público, se preciso); e um atendente de videolocadora que alivia a tensão atropelando cães, só para citar três exemplos aleatórios.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

A obra de Primot é bem humorada e incômoda ao mesmo tempo. Toca sem meias palavras em temas como pedofilia, homicídio, violência, insanidade, obsessão, solidão e, como já deve ter ficado claro, sexo. Alguns monólogos são melhores do que outros, e inevitavelmente o espectador vai se interessar mais por uns do que outros, até mesmo por razões pessoais. Eles são apresentados entrecortados, então você acaba torcendo para voltar logo para seus personagens ou tramas favoritos. A direção optou por deixar os sete atores no palco o tempo todo, com a iluminação (de Adriana Ortiz) indicando em quem prestar atenção, mas todos são vistos em tempo integral.

O elenco é afiado. Traz o próprio Primot, Laila Zaid (de “Cachorro Quente”), Erom Cordeiro (de “Laio e Crísipo”), Carolina Pismel (de “Beije Minha Lápide”), Guilherme Gonzalez (de “Me Leva Pra Casa”), Jefferson Schroeder (de “Infância, Tiros e Plumas”) e Leandro Daniel (da novela “I Love Paraisópolis”). Não há ninguém mal, mas Laila, Carolina e Erom tendem a ser mais cativantes. Carolina interpreta uma menina que esconde dos adultos sua primeira menstruação com medo de ter que usar absorvente – que ela pensa ser o vibrador que a mãe tem no quarto. É engraçado ver a atriz fazendo uma criança cheia de si de novo, depois de “Infância, Tiros e Plumas”. Ela realmente convence com o timbre infantil cômico.

A montagem é muito simples. Com exceção de um balanço e pilastras com lâmpadas, o cenário é formado basicamente por diferentes assentos para cada personagem. Quem assina a cenografia é o parceiro habitual do João Fonseca, Nello Marrese, também responsável pelos figurinos. Não é muito elaborado. A montagem de São Paulo, dirigida por Zé Henrique de Paula (de “Urinal, o Musical”), era mais sofisticada, como mostra qualquer vídeo no Youtube. A falta de possibilidades cênicas deixa a encenação um tanto lenta. São sete monólogos, afinal: teatro puramente narrativo. Os personagens pouco se locomovem e seus assentos são marcados com seus nomes, como se realmente não pudessem sair dali – e quase não saem, de fato.

Quando algum monólogo se torna arrastado ou tedioso, é quando o espectador se desconecta do palco e, de alguma forma, o espetáculo cumpre sua missão. Quem está na plateia começa a se questionar qual seria seu próprio segredo, seu lado obscuro: o que faz e os outros não podem saber. Mais do que isso: “o que essas pessoas sentadas do meu lado escondem?”. Esquisitos e bizarros podem ser qualquer um.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: qua e qui, 19h. R$ 30. 70 min. Classificação: 16 anos. Até 4 de fevereiro. Centro Cultural Justiça Federal – Avenida Rio Branco, 241 – Centro. Tel: 3261-2550.

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