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Pelado! Pelado! Nu com a mão no bolso!

À espera da tradicional náusea que acomete as mulheres da família na noite de núpcias, a filha natimorta de Dona Flávia entra no quarto e enxerga o marido. Na história, nenhuma mulher do clã consegue ver os homens – e esse defeito é motivo de orgulho. Mas ela enxerga. Pela primeira vez, vê um homem. A cena é de “Dorotéia”, de Nelson Rodrigues. Na montagem em cartaz no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico, o diretor Jorge Farjalla (da Cia. Guerreiro) optou por botar no palco um ator completamente nu – e bem dotado, diga-se de passagem – para que se veja bem. No que a noiva enxerga, o público também, igualmente surpreso. A plateia acompanha a personagem na descoberta do corpo masculino.

O nu frontal não é exclusividade de “Dorotéia”. Corre nos teatros da cidade uma espécie de desmistificação do pênis. O falo ainda é um tabu? Há controvérsias. Os risinhos ouriçados e gritinhos das mulheres mais atrevidas são facilmente ouvidos na plateia da tragicomédia “Sabe Quem Dançou?”, quando Tiago Homci fica nu durante uma troca de roupa de seu personagem, ironicamente chamado Passarinho. A cena, aliás, já virou notícia em jornal: sinal de que homem pelado ainda não passa batido. O mesmo espetáculo, nos primeiros meses de trajetória, se divulgava com pôsteres dos atores com bumbuns de fora, e nunca amargou teatros vazios, o que indica que a estratégia de marketing funciona. “Eu colocava as bundas nos cartazes anteriores exatamente para alertar que teríamos nudez. Agora que a peça já é conhecida, não precisa mais mostrar no cartaz”, explica o diretor Hermes Carpes, que defende com veemência sua opção para a dramaturgia de Zeno Wilde (1947-1998).

Thiago Homci e Hermes Carpes em cena (Foto: Divulgação)

Thiago Homci e Hermes Carpes em cena (Foto: Divulgação)

O pôster de “Dorotéia” também explora a nudez – mas a da atriz Letícia Spiller. O encenador não vê isso como apelação, e já apostou em cartazes com nu em outras duas montagens, pelas quais foi bastante criticado nas redes sociais. “Há um porquê nas minhas exposições dos corpos dos atores, aliás, o desnudamento vem de dentro: o físico é consequência”, pondera. “No ‘Paraíso Agora! Ou Prata Palomares’, outro espetáculo, eu tinha um ator que ficava de quatro e completamente nu na cena final, ele se transformava num cachorro do personagem principal, e não era o único nu do espetáculo. Alguns expectadores se chocavam, mas ninguém questionava o ‘porquê’ daquilo. Se gratuito ou não, sempre há algo a dizer com isso, tanto pra mim quanto pra outros encenadores”.

Aclamado pela crítica, “Caranguejo Overdrive”, da Aquela Cia., traz uma situação parecida, que pode ser vista no intimista Teatro Poeirinha, em Botafogo. O ator Fellipe Marques tira toda a roupa e se lambuza de lama no palco para se metamorfosear em caranguejo aos olhos do espectador. Depois, permanece imóvel, meio agachado, por cerca de 15 minutos, até que diz: “vocês acham que é confortável ficar assim?”. Não é sequer erótico.

Fellipe Marques em "Caranguejo Overdrive" (Foto: Reprodução)

Fellipe Marques em “Caranguejo Overdrive” (Foto: Reprodução)

– No “Caranguejo”, a nudez é imprescindível, fundamental, para o público perceber essa metamorfose, e nada mais cru, nada mais direto que o corpo exposto ali. – defende o dramaturgo Pedro Kosovski (da Aquela Cia.) em entrevista ao Teatro em Cena – O teatro, por ser um dos raros espaços de liberdade, de alguma liberdade possível, tem grande intimidade com a nudez. A nudez possibilita um olhar para o corpo de outro modo. A gente é metralhado por uma ideia de corpo extremamente banalizado, eu não diria nem sexualizado. E o teatro possibilita que a gente possa reviver, experimentar e ver o corpo de outros modos. Ele ressignifica um pouco da nossa percepção cotidiana. A nudez, a principio, não é nenhum problema. Pelo contrário, há uma beleza.

A nudez masculina, de alguma maneira, ainda repercute mais do que a feminina. Até mesmo as telenovelas exibidas à noite expõe corpos femininos. Já o masculino é sempre cercado de ângulos perspicazes para pouco ou nada mostrar. Quando há algo, como em “Verdades Secretas” (2015), gera um frisson e divide opiniões. “A nudez feminina vem, pra mim, arraigada à sociedade machista, por isso é mais fácil assimilar uma mulher nua e não um homem. Há o pudor, o medo, a vergonha…”, observa Jorge Farjalla. O panorama, porém, está mudando. Em época de #mandanudes, o desnudamento tem seu apelo perante o público. Quem se esquece do musical “Ou Tudo Ou Nada”, que tinha na cena final, do strip-tease total com Mouhamed Harfouch, seu grande clímax? Senhorinhas ocupavam as poltronas do Theatro Net Rio ansiosas. De alguma forma, atores nus no teatro também são chamarizes de público, embora evite-se dizer isso com essas palavras.

"Ou Tudo Ou Nada": sucesso na Zona Sul e na Zona Norte com comédia de homens atípicos montando show de strip-tease (Foto: Divulgação)

“Ou Tudo Ou Nada”: sucesso na Zona Sul e na Zona Norte com comédia de homens atípicos montando show de strip-tease (Foto: Divulgação)

– O tabu vem de uma pequena parcela de pessoas que enxergam a nudez masculina como se estivéssemos nos anos 80. Pessoas apegadas ao passado, que dizem não gostar de filme nacional pois ainda acham que estamos na era da pornochanchada. Vejo muitas peças com mulheres nuas, ou seios de fora e que não são nem comentadas. – opina Hermes Carpes, diretor de “Sabe Quem Dançou?”, que prorrogou sua temporada no Teatro Vannucci até 30 de março – Semanas atrás, vi “Ricardo III Está Cancelada” e caiu uma fralda que um dos atores estava usando. Até agora, não sei se foi proposital ou não. Ele ficou totalmente nu, e em nenhum momento o foco da cena foi desviado, pois ele estava imerso no personagem e todos ali presentes eram pessoas acostumada com o verdadeiro teatro. Mesmo assim, o assunto no final da peça era a nudez do ator.

Hermes, Jorge e Pedro: o Teatro em Cena perguntou e todos foram capazes de justificar a nudez em seus espetáculos. Não que a gratuidade seja um problema unânime. Jorge, inclusive, ressalta que o nu sempre esteve presente em seus trabalhos. E Pedro é autor de “Laio e Crísipo”, que ganhou publicidade espontânea com o nu frontal do ator global Erom Cordeiro. Em todos os casos, sempre há um contexto. “Eu nunca colocaria uma cena de nudez gratuita. Quem quiser ver apenas nudez, existem boates e saunas para isso. Nós contamos uma história”, posiciona-se Hermes. Ele admite, no entanto, que há mais interesse do que resistência ao nu por parte do público. É Jorge que encontra a melhor conclusão para o assunto, citando Nelson Rodrigues: “Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu”.

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CARANGUEJO OVERDRIVE: qui a sáb, 21h; dom, 19h. R$ 50. 75 min. Classificação: 16 anos. Até 1º de maio. Teatro Poeirinha – Rua São João Batista, 104 – Botafogo. Tel: 2537-8053.

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DOROTÉIA: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50. 90 min. Classificação: 16 anos. Até 3 de abril. Espaço Tom Jobim – Rua Jardim Botânico, 1008 – Jardim Botânico. Tel: 2274-7012.

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SABE QUEM DANÇOU?: qua, 21h. R$ 60. 60 min. Classificação: 18 anos. Até 30 de março. Teatro Vannucci – Shopping da Gávea – Rua Marquês de São Vicente, 52 – Gávea. Tel: 2274-7246.

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