Papo de Artista

Pensando Sobre Crítica – Por Lisa Eiras Fávero

(Foto: Arquivo Pessoal)

Leonardo Torres e eu iniciamos contato quando lhe escrevi a respeito de uma crítica sua a um espetáculo que havia encenado. A partir dali, trocamos vários e-mails sobre a peça e a crítica, experiência gratificante. Mais tarde, Leonardo convidou-me a escrever nesta coluna e achei que poderia ser interessante falar justamente sobre o tema que nos apresentou.

Pensando sobre crítica.

Ter opinião a respeito de qualquer coisa é algo natural e legítimo e, com a internet, trazê-la a público se tornou algo tão natural quanto. Apesar de tudo o que pode ser encontrado na rede, ainda acho legal que exista um grande espaço para muitas e divergentes vozes em oposição ao ínfimo espaço proporcionado pelos jornais e TV. Entrar em contato com a opinião da audiência a respeito de uma peça que estou apresentando é sempre um assunto de enorme interesse. Foi quando comecei a me perguntar o que diferenciaria, pra mim, a opinião do público geral ou de artistas que admiro, da opinião de um crítico de teatro do Rio de Janeiro. Falo do Rio porque é onde tenho contato mais direto com a crítica. Acho que a grande diferença é que um crítico teria um espaço oficial reconhecido, teria algum conhecimento específico e isso lhe daria “uma chancela”. Porém diante dos textos que venho lendo, muitas vezes não consigo entender bem a função deste espaço privilegiado. E isso não é algo pessoal em relação aos críticos que temos atuantes hoje, é sobre o modo de fazer estabelecido. Eu adoro uma boa conversa pós espetáculo sobre a intenção e o que pôde ser comunicado, sobre o que foi deslocado ou sentido, sobre novos pensamentos que foram gerados, sobre discussões e discordâncias que podem ser tão ricas que nos atravessam de modo a mudar o que está na peça, e muitas vezes sinto-me frustrada ao ler nestes espaços oficiais “isso é bom”, “isso é ruim”, “esperava mais”, ou pior, palavras degradantes, desrespeitosas sobre os trabalhos realizados. Isso não é incomum. Certa vez cheguei a presenciar um “crítico importante da cena teatral” dizer, durante um espaço oficial de fala em um festival de cenas e-x-p-e-r-i-m-e-n-t-a-i-s, pasmem, para um grupo de jovens artistas estudantes, que ele teve vontade de vomitar com a cena deles, além de outras ofensas constrangedoras, desqualificando o trabalho com justificativas como esta (senti raiva, confesso – ora, se está passando mal que tome um sal de frutas e nos poupe de tentar ser o protagonista da experiência). Percebo em mim, talvez por respeito a estes espaços eleitos, uma expectativa enorme de ler algo mais que opiniões irrelevantes como esta, mas sim ler pensamentos críticos embasados, bem desenvolvidos, sobre o assunto e a realização. Seria interessante para a audiência que teria sua visão ampliada sobre o que viu, para o artista que entraria em contato com novos questionamentos e para um leitor que não viu nada mas que se enriqueceria daquelas concatenações.

E para além disso é preciso entender com responsabilidade esse espaço de poder. É um espaço de poder porque qualifica ou desqualifica uma obra oficialmente, influencia a escolha do público sobre o que assistir, e mais ainda, determina se uma peça terá vida longa, realizando novas temporadas. Sempre que oferecemos nossos espetáculos a algum edital ou venda, ou até para conseguirmos pauta, nos são exigidas, sim, críticas. O que é um tanto cruel, principalmente quando os críticos não conseguem atender a demanda dos trabalhos apresentados. Aí rola uma inversão louca de precisarmos deles para ter chances de continuar o trabalho. É mais grave ainda quando estes mesmos críticos fazem parte de comissões julgadoras de aprovação de projetos e prêmios.

Sim, sabemos como é complexo o esquema de consumo de teatro por aqui. Sabemos que a bilheteria deveria ser o maior qualificador de um espetáculo. Que a grande maioria das pessoas consomem o que lhes mandam consumir. Da miséria e precariedade do mais básico do básico em que nós cariocas vivemos. Que o teatro não é dos maiores interesses dos cariocas. Que os interesses do carioca são bem manipulados. Que o teatro pode ser uma forma poderosa de questionar o que está estabelecido. Que o teatro experimental e crítico é fundamental e que não sobreviveria de bilheteria. Meus pensamentos não param e caminham para paradoxos que não consigo desenvolver no momento. Sinto vontade de conversar sobre todos eles e achar brechas onde respirar, mas peço permissão para voltar para esta ponta do iceberg que são as consequências da crítica no esquema em que estamos inseridos.

Já que vivemos num sistema de escassez e infelizmente não existe espaço para todos em nenhuma condição (sempre brinco que meu sonho é criar um festival de cinema que dure dia e noite, quanto tempo for preciso, para projetar todos os filmes enviados. Todos. As pessoas que decidam por si o que tem a ver com elas. rs), penso aqui, diante de tudo, seria mais justo que apenas artistas tenham o poder de contemplar projetos artísticos, entregar prêmios? Seria mais justo ainda que haja sempre, sempre, um rodízio destes profissionais para que mais visões sobre as inúmeras formas de se fazer teatro sejam alcançadas? Não sei. Presenciar ano após ano os mesmos críticos selecionando as peças que devem ser reconhecidas como boas ou mesmo aos artistas que seriam dignos de reconhecimento não é justo. Sempre me vem a cabeça o desafortunado Van Gogh que simplesmente não conseguiu vender um quadro em vida por conta desta seleção. Por que as pessoas ainda precisam de alguém lhes dizendo quando uma peça deve interessar a elas? Por que pessoas pensantes colaboram com este sistema de “direcionamento da boiada”, ainda hoje, em relação às expressões artísticas? Por que querer este poder e usá-lo desta forma simplista?

Vejo como uma grande oportunidade um espaço como esse, uma voz chancelada que atingirá aos interessados da cena teatral. Isso é muito. Talvez eu só esteja vendo tudo pelo ponto de vista de minha paixão pelo teatro. O Teatro não faz outra coisa senão resistir e resistir e resistir, e é tanta corrente contra que talvez a suposta proximidade entre os críticos e as obras me confundam e me pego a pensar que não é possível que até mesmo um interessado em teatro, que afirmou esta posição como ofício, possa querer prejudicar tanto uma produção teatral conquistada a tão duras penas. Nestes tempos sombrios de desmonte da cultura, a situação está tão séria que não posso deixar de pensar que uma crítica destas destruidoras é um posicionamento político a favor deste plano nefasto. Mesmo que não intencionalmente.

Li muitos textos críticos que ampliaram minha compreensão sobre assuntos da obra (e do mundo). Foi emocionante. Mas são poucos quando em comparação. Exige tempo, dedicação e espaço para dissertação e ouço muitas reclamações de profissionais sendo privados destas condições básicas. Compreendo. De verdade. Mas não tenho como, diante de tudo, aceitar simplesmente.

Este texto serve também como tentativa de interlocução. Me ajudem a entender melhor tudo isso.

Lisa Eiras Fávero é atriz, diretora e dramaturga.

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