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Periferia + academia: espetáculo propõe descolonização do conhecimento

O palcão da UNIRIO, na Urca, recebe a partir desta semana o espetáculo acadêmico “Arame Farpado”, que propõe uma reflexão acerca das articulações entre universidade, teatro e favela. O título se refere à dificuldade que jovens da periferia têm para entrar e permanecer no ambiente acadêmico. “Por que para uma classe social é certeza fazer o ensino superior e para classe pobre é um milagre que precisa festejar? Por que, de uma forma geral, a educação básica é fornecida a todos e a educação de nível superior precisa ser conquistada? Porque a educação superior precisa ser merecida? Qual a diferença do acesso da educação básica para superior? Por que poucos têm acesso ao ensino superior? Quando a democratização do acesso será radicalmente estabelecida”, provoca o ator e diretor Phellipe Azevedo, integrante da Cia. Marginal, apoiadora da montagem.

“Arame Farpado” (Foto: Divulgação)

O espetáculo faz parte da monografia de Phellipe, que tem 29 anos e é oriundo da favela do Caju e atualmente mora no Morro da Providência. Para conseguir entrar para a faculdade pública, foram quatro anos seguidos de vestibular. Durante o processo de perseverança, admite que foi assolado pelo sentimento de “emburrecimento”. “Quando apareceu meu nome, no ano que fiz o ENEM, foi fantástico. Parecia um milagre, mas ainda não tinha caído a ficha de como seria quando eu entrasse”, relembra. No primeiro semestre, feliz pelo espaço conquistado, ocorreu tudo bem. Não tardou, porém, para que Phellipe começasse a achar que sua identidade cultural estava se perdendo, porque os diálogos eram pautados unicamente no mercado teatral do Centro e da Zona Sul. Tudo só mudou quando a turma foi assistir ao espetáculo “Qual É a Nossa Cara” da Cia. Marginal.

– A professora afirmou que era um trabalho que tinha conexão com a aula. Aquele respiro de ver a Cia Marginal no palco da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro foi transformador. Eles falavam da Nova Holanda, mas eu ouvia as histórias do Caju, da minha rua C. A minha rua estava materializada ali, num dos bairros mais ricos do Rio de Janeiro. Eu estava no palco. Mas aquela noite foi uma faísca do que precisa se estabelecer com a universidade. Foi apenas um dia, um dia extra. Ainda não tinha a clareza do que foi aquele dia, mas aquilo não tinha que ser extra, tinha que ser rotina.

(Foto: Divulgação)

“Arame Farpado” surge a partir dessa necessidade de ocupar a academia com vozes periféricas. A pesquisa para concepção da peça foi desenvolvida junto com os atores – Sol Targino, Lidiane Oliveira, João Pedro Zabeti e Peterson Oliveira – a partir de suas memórias. O espetáculo sobre o ser periférico no espaço acadêmico.

– Acredito que uma pauta que o espetáculo traz é a descolonização do conhecimento. Encontrar e explorar formas alternativas e emancipatórias para a produção de novos conhecimentos. – adianta o diretor – O pensador e artista de rua Eduardo Marinho disse numa entrevista o seguinte pensamento: “a parte mais importante da comunicação é o receptor. Então não adianta eu chegar lá e falar em paradigma. Não adianta falar academês. O academês foi formulado pra servir de cerca de arame farpado para o conhecimento não alcançar a maioria. Pra não dar acesso. É preciso pegar essa cerca e derrubar. É preciso falar errado. É preciso engolir plural, errar concordância. É fácil falar. O Einsten já dizia se você não consegue falar pra sua vó o que você acabou de aprender, então você não entendeu direito”.

(Foto: Divulgação)

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SERVIÇO: qui a sáb, 20h. Entrada franca. De 16 até 25 de novembro. Palcão da UNIRIO – Centro de Letras e Arte – Avenida Pasteur, 436 – Urca. Tel: 2542-2717.

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