Entrevista

Popstar do teatro, Paulo Gustavo garante: “nunca me deslumbrei”

(Foto: Páprica Fotografia)

(Foto: Páprica Fotografia)

Quem passa pelo Parque do Flamengo no fim de semana à noite pode achar que está acontecendo o show de uma banda internacional ali no Vivo Rio. Independente da hora, há sempre muita gente na porta: seja na fila para entrar, seja na aglomeração para tietar, após a apresentação. Mas não se trata de nenhum artista gringo. Ele é brasileiríssimo, de Niterói, e nem canta (mas dança muito!). O responsável por atrair um público grande noite após noite é Paulo Gustavo, em cartaz com a peça “220 Volts” – mais precisamente em sua terceira temporada na cidade. Ele também já levou sua megaprodução de seis toneladas de equipamentos para o Oi Casa Grande, no Leblon, e o Citibank Hall, na Barra da Tijuca, sempre um fenômeno de vendas.

Devido à grande procura por ingressos, o ator abriu sessões extras aos sábados no Vivo Rio. Então, ele interpreta Senhora dos Absurdos, Ivonete e outras personagens conhecidas do extinto programa de TV do Multishow às 18h30 e repete tudo às 21h30. Na saída, ainda têm ânimo para atender as pessoas que ficam na espera de fotos e autógrafos. São muitas. São fãs. Paulo Gustavo é tratado como os popstars da música e, com frequência, causa histeria no público. Nenhum outro ator em cartaz na cidade protagoniza esse tipo de cena na saída do teatro: com tanta gente, tanta adoração, tantas selfies. Mas nenhum outro ator, também, esgota ingressos para tantas sessões em locais tão grandes. Só no Vivo Rio, que acomoda duas mil pessoas, são 14 apresentações. Mas, no ano passado, ele fez mais: vendeu 10 mil ingressos em menos de 24 horas para a gravação do DVD da peça “Hiperativo” na HSBC Arena – local que já recebeu sua diva Beyoncé, por exemplo, mas não com uma venda tão rápida. Who run the world? Paulo Gustavo. Será que ele já se deslumbrou?

Paulo com fãs (e seguranças) na saída do Vivo Rio (Foto: Luiz Eduardo)

Paulo com fãs (e seguranças) na saída do Vivo Rio (Foto: Luiz Eduardo)

– Essa pergunta do deslumbramento é ótima (risos)… Cara, eu acho que não. Eu nunca me deslumbrei, porque um ponto muito legal na minha vida é que minha família é muito presente. Eu não acredito muito nesse mundo encantado da pessoa que fica famosa e não consegue mais andar nas ruas, que vai para um caminho que é meio vazio, meio nada a ver. Busco fazer coisas que me tragam realmente para a realidade. Acho até que se meu sucesso continua é porque tenho o pé bem fincado no chão. Se eu não tivesse mais pé no chão, eu não estaria mais fazendo sucesso. Esse é um ponto de vista meu. Não acho que tô no auge. Deus me livre estar no auge! Estar no auge parece que depois vem um abismo, então eu acho que tô sempre buscando fazer coisas novas e deixar o público com vontade de ver mais coisa minha. Não sou deslumbrado com isso. – pondera o comediante, que está comemorando dez anos de carreira. Com 1,9 milhão de seguidores no Instagram, indicativo do seu forte apelo popular, ele ressalta que nem sempre foi assim. Depois que se formou na CAL, estreou o “Minha Mãe É uma Peça” no Teatro Cândido Mendes, onde só cabem 90 espectadores por sessão. Sua ascensão foi gradual. – Não sou um cara que fui achado na rua, fui chamado para fazer novela das oito, fiquei famoso da noite para o dia e me deslumbrei. Sou um cara que vim do teatro. Fui sendo reconhecido na rua pelo teatro. Isso me deu uma noção mais ampla da minha carreira. O sucesso para mim veio de uma forma muito natural e acho que isso me ajudou muito a não ficar deslumbrado. E eu acho que esse deslumbramento, como a [personagem] Famosa da minha peça, esse lado meio arrogante de achar que está acima do bem e do mal, isso não tem a ver com sucesso. Isso tem a ver com o caráter da pessoa. Eu acho que o sucesso só potencializa o que a pessoa já tem de ruim. Você pode não ter sucesso nenhum e ser tão ruim quanto uma pessoa que faz muito sucesso. Isso é índole.

A Famosa, personagem arrogante que abre o "220 Volts" (Foto: Páprica Fotografia)

A Famosa, personagem arrogante que abre o “220 Volts” (Foto: Páprica Fotografia)

Um dado importante é que o fluminense conquistou a adoração popular sem um grande trabalho na Rede Globo. Seus pares – Tatá Werneck, Ingrid Guimarães, Leandro Hassum, Fábio Porchat (que, aliás, fez o fracasso “Infraturas” com ele, antes de estourarem) – ficaram conhecidos após trabalhos marcantes na emissora. Paulo criou um público no teatro, com “Minha Mãe É uma Peça” e depois “Hiperativo”, migrou para a TV paga, com quatro temporadas do “220 Volts” e o mais recente “Vai Que Cola” (que vai virar filme em outubro). Não precisou do plim plim para virar sensação. “Isso significa que a Globo não é a única plataforma e a única opção para você conseguir fazer sucesso e ser reconhecido nacionalmente”, ressalta o artista, que até livro de “Minha Mãe É uma Peça” já lançou. “Eu acho que existem outros caminhos e… que bom! Isso possibilita que outras pessoas, que não estão na Rede Globo, que é uma excelente empresa, consigam chegar a algum lugar. Existem outras maneiras de fazer sucesso”. A sua é no palco. É ali a sua praia.

É no teatro que ele mostra sua visão de mundo e consegue se expressar totalmente. No dia a dia, diz que é tímido, apesar de alegre e brincalhão. “Você vê que eu não apareço muito em programa de auditório. Eu dou uma evitada, porque eu realmente, por incrível que pareça, sou um cara tímido. Fico tímido quando estou ao vivo na TV. Não fico totalmente à vontade. Eu só vou quando não tem jeito – quando tenho que divulgar alguma coisa – porque acho que faz parte do meu trabalho também dar entrevista e divulgar”, revela ao Teatro em Cena, no intervalo entre uma sessão e outra de seu espetáculo no Vivo Rio. “Eu fico mais à vontade no palco, porque já sei o que vou fazer, já ensaiei, já estou em cartaz há alguns anos. É um lugar mais confortável para mim”. Mesmo quando não está 100% bem, ele consegue chegar ao teatro, se desligar e se realizar. Não é um esforço fazer os outros rirem, nunca. Ele é assim naturalmente.

Com "Hiperativo": HSBC Arena lotada (Foto: Divulgação)

Com “Hiperativo”: HSBC Arena lotada (Foto: Divulgação)

– Se eu estiver passando por algum momento difícil ou tiver discutido com alguém… – aqui, ele mesmo se interrompe para uma explicação – Isso é mega difícil de acontecer, porque eu sou naturalmente muito bem humorado. Eu não acordo de mau humor, não tenho essas loucuras, não sou de lua, como tem algumas pessoas.. Sou sempre alegre, divertido, leve. Eu acabo que tiro riso das coisas. Então, eu acho que se tiver passando por algum momento difícil, eu consigo chegar ao teatro, me desligar, rezar, me divertir, conversar com as pessoas e entrar no palco já diferente do que cheguei. Eu acho também que o palco é um lugar que transforma não só a plateia como a gente também.

Transformação da plateia

Quando você pensa que parte da sociedade brasileira consegue pressionar uma das maiores emissoras de TV a reestruturar seu principal produto, a novela das 21h, em repúdio aos personagens gays e lésbicos, fica claro que Paulo Gustavo está realmente transformando plateias. Seu primeiro filme, “Minha Mãe É uma Peça”, bateu recorde de público em 2013, com 4,6 milhões de espectadores nos cinemas. A peça homônima ficou nove anos em cartaz pelo país, com alta aceitação por onde quer que passasse. E o que é a Dona Hermínia senão um homem travestido de mulher? Amado pelos mais conservadores, o personagem virou até garota-propaganda de uma rede de supermercados popular. Ninguém critica, ninguém propõe boicote. De alguma maneia, Paulo está conduzindo o público – o seu, cada vez maior – à aceitação das figuras trans. Na peça “220 Volts”, ele vai além: interpretando seis mulheres, sobe no palco de maiô purpurinado, botas, peruca loira e, acompanhado de dançarinos, dança e dubla “Run the World” da Beyoncé. Não há nada ali que diferencie a cena de um show de drag queen. E ele é aplaudido, enaltecido. Sem falar de toda a conotação política da Senhora dos Absurdos. Mesmo assim, Paulo foi atacado por ativistas e dividiu opiniões na própria classe artística ao falar, em 2014, que “levantar bandeira é o que gera o preconceito” (contra os homossexuais). Depois, se explicou. Mas o que ele faz pela comunidade LGBT na cultura pop não vale mais do que uma foto nas cores do arco-íris (foto, aliás, que ele também botou), por exemplo?

Paulo Gustavo em um dos momentos mais drag queen de "220 Volts" (Foto: Páprica Fotografia)

Paulo Gustavo em um dos momentos mais drag queen de “220 Volts” (Foto: Páprica Fotografia)

– Eu uso minhas personagens para poder me posicionar. Eu acho que o teatro e a comédia, principalmente, é uma forma mais leve e sutil de você falar de assuntos mais sérios. Acho que você pode usar o teatro para isso, usar a comédia para isso, e eu prefiro usar a arte, a minha arte, para dizer as coisas que eu estou a fim, dar a minha opinião, me posicionar, do que ficar em rede social brigando. Prefiro discutir como personagem em cena do que discutir com alguém na Internet. Não faço muito isso. Não sigo muito essa linha. Eu acho que é legal eu estar de mulher em cena, fazendo vários personagens femininos, travestido, e mesmo assim amado. Isso é, com certeza, um acontecimento, né.

Eleito o artista mais popular do Teatro em Cena em 2014, Paulo Gustavo está na mira da mídia – para o bem ou para o mal. Se recebe muito confete, chove também muita crítica. Seu relacionamento com a imprensa é complexo. Ele já reclamou publicamente de críticas especializadas de seus espetáculos e também de reportagens da revista Serafina e do jornal O Globo que supostamente distorceram ou tiraram de contexto o que ele disse. Paulo passa a impressão de acreditar ser frequentemente usado para criar polêmica, como quando diz que “nego muda TUDO que falo”. Sempre usa o Instagram para se defender. “Quando eu vou na Internet brincar ou falar de algum assunto que me incomodou, sempre vou com muito humor e de uma forma muito divertida. Nunca vou muito querendo brigar de verdade, e isso sempre tem um retorno mega positivo para mim, graças a Deus”. Ele lamenta pelos artistas que não têm a mesma força na Internet (além do Instagram, ele tem 2,4 milhões de seguidores no Facebook) e não desfrutam dessas ferramentas para desmentir e esclarecer maus entendidos diretamente com o público com o mesmo impacto.

– Eu acho que o jornalista que pega uma coisa que a gente diz e modifica, deturpa e fala como convém a ele dizer é a coisa mais antiga que existe, desde que mundo é mundo. Se você pegar um texto do Nelson Rodrigues, de 1900 e varada, “Beijo no Asfalto”, já falava sobre a imprensa marrom, né? O que eu faço, no meio dessa confusão toda, de uns profissionais ótimos e outros péssimos, é encontrar o que seja ótimo. A gente que é artista está meio acostumado com isso. E tem que ser mais esperto para não dizer algo que vai dar pano pra manga.

No centro das atenções, e às vezes na berlinda, Paulo vem experimentando algo diferente com o “220 Volts”. Se “Minha Mãe É uma Peça” era um monólogo e “Hiperativo” um stand up, o espetáculo mais recente é uma grande festa. Pela primeira vez, ele faz sucesso no teatro dividindo os créditos com atores, dançarinos e até um DJ em cena. “Eu tô amando. É praticamente uma Disneylândia”. Paulo só faz questão de destacar que, embora estivesse sozinho no palco antes, ele sempre contou com uma equipe de amigos, que é praticamente uma família. Então, o que mudou mesmo é o que o público vê. Mas, nos bastidores, sempre houve um grupinho. Embora uma peça sobre a própria mãe e outra sobre histórias pessoais possam indicar uma megalomania, Paulo se demonstra muito parceiro de todos que o cercam. E é uma pessoa grata. “Eu sou grato a muita gente. Você teria que acabar com a entrevista e botar só a quem sou grato. Não tem nem página. Sou grato aos meus pais, aos meus amigos, às pessoas que trabalham comigo…”. Ele faz questão de dividir o sucesso com os demais. Nas redes sociais, está sempre ajudando a divulgar o trabalho dos amigos – seja a peça de uma atriz, o clipe de uma cantora ou a capa de revista de uma modelo.

Paulo Gustavo entre amigos: Fiorella Mattheis, Marcus Majella, Samantha Schmutz, Ingrid Guimarães e João Fonseca (Fotos: Reprodução / Instagram)

Paulo Gustavo entre amigos: Fiorella Mattheis, Marcus Majella, Samantha Schmutz, Ingrid Guimarães e João Fonseca (Fotos: Reprodução / Instagram)

– Se eu soubesse o segredo do sucesso, daria para todos os meus amigos, porque fazer sucesso sozinho não tem graça nenhuma. Eu acho que tem espaço para todo mundo… – diz o ator, antes de pensar um pouco no que o diferenciou da massa de artistas que tiveram a mesma formação e não chegaram nunca ao mesmo patamar – Acho que só fazer CAL e se profissionalizar não é o único caminho para chegar a algum lugar. Eu acho que você tem que correr atrás, botar a mão na massa. Essa é uma característica minha, né? Não sou só ator. Sou ator, autor, produtor, eu corro atrás de tudo na minha vida e sempre foi assim. Meu cenário quem pagou fui eu, parcelei no meu cartão. Essa vocação eu tenho: para a arte, para produzir, me inventar. Então, se eu fosse dar uma dica para chegar a algum lugar é se produzir, é um caminho.

Paulo autografando seu mais novo empreendimento bem sucedido: livro de "Minha Mãe É uma Peça" (Foto: Divulgação)

Paulo autografando seu mais novo empreendimento bem sucedido: livro de “Minha Mãe É uma Peça” (Foto: Divulgação)

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