Comportamento

Por que o corpo nu incomoda tanto?

“Perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”.

O premiado performer Wagner Schwartz é o atual inimigo nº1 da tradicional família brasileira, guardiã da moral e dos bons costumes. Ok, na verdade, ele divide o título com a exposição “Queermuseu”, mas vá lá. Você deve ter ouvido falar por aí: em recente performance de “La Bête” no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, Wagner, completamente nu, foi tocado no pé por uma criança, que estava acompanhada da mãe. Fotos e vídeos do exato momento da interação viralizaram na Internet e rapidamente levantaram um estigma de incentivo à pedofilia e abuso de menores. Um factoide sem sentido, mas que gerou protestos virtuais e presenciais, agressões físicas, queixas na polícia, uma declaração do prefeito João Dória (“tudo tem limite”), um abaixo-assinado pelo fechamento do MAM, um pedido do Ministério Público para que Google e Facebook retirem do ar vídeos da performance, e até o boato de que o artista teria sido morto a pauladas. Tudo isso porque ele estava nu. Em um museu. Com câmeras. E uma criança o tocou… no pé. Por que o corpo nu incomoda tanto?

Wagner Schwartz durante apresentação no MAM-SP: mesma performance abriu o Festival de Curitiba em 2016 (Foto: Reprodução / Internet)

Diante do estado de histeria coletiva, Wagner Schwartz não pode responder a esse tipo de questão. Ele foi aconselhado a manter-se calado. Outros artistas, no entanto, têm debatido o tema nas redes sociais. Em meio ao caos, essa pode mesmo ser uma oportunidade para refletir algumas questões. A premiada diretora e coreógrafa Ana Catarina Vieira, que colocou seus bailarinos nus em cena no espetáculo “Estado Imediato” (2015), resgata a origem indígena do povo brasileiro para lembrar que nem sempre a nudez foi um tabu. “Hoje, o nudismo se tornou um incômodo, porque levanta questões, expõe preconceitos, comportamentos e julgamentos. O nudismo se tornou uma ferramenta de comunicação para pautar questões pertinentes do momento em que estamos vivendo”, diz ao Teatro em Cena. A dificuldade generalizada de ver a nudez fora de um contexto de erotismo é outro ponto, levantado pelo ator e diretor Ricardo Cabral, que fica pelado em cena semanalmente no espetáculo “Fora da Caixa” na Lapa. “É uma falsa questão o problema ser o corpo nu. O problema é o que se entende sobre o corpo nu”, diz. Ele defende que corpo é apenas carne, osso, músculo, tendão, como o de qualquer animal, e que são os espectadores que projetam nesse corpo histórias, narrativas e ideais, de acordo com suas experiências.

– O corpo nu, em si, não tem nada. Não carrega sexualidade inerente em si. Se eu me sentir incomodado à beça com o corpo nu em cena, talvez valha a pena eu me perguntar de onde vêm esses incômodos. Quando eu terceirizo essa responsabilidade do incômodo para o corpo ou para a obra de arte, eu aquieto essa relação: “eu não tenho nada a ver com isso, o problema é da peça, da obra de arte, da exposição”. Mas e se eu começar a pensar que o problema talvez seja aqui dentro? Que eu só consigo olhar o corpo nu e ver sexo? A importância de tirar o incômodo da obra e colocá-la sobre nós é que, assim, a gente pode efetivamente mudar a nossa realidade. Se eu olho um corpo nu, ele me desperta uma sexualização louca, e passo a questionar isso, posso perceber que a gente vive em uma sociedade que supersexualiza o corpo. O que mais eu posso ver em um corpo nu? – reflete o ator.

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O performer e pesquisador colombiano Carlos Monroy tem um pensamento similar. Também adepto da nudez em suas performances, ele defende a potência do corpo como agente ou matéria de criação artística e diz que se expor nu é talvez o gesto mais primário e honesto de entrega do artista com o público.

– Normalmente, o nu é feito para que, através de um reflexo, o espectador experimente o que esse corpo exposto experimenta (vergonha, medo, frio, calor, dor, etc.), tornando-se uma espécie de espelho de mim, espectador, no outro, artista. Todos tem um corpo e o de todos é igual, portanto posso me relacionar com ele. Esse é um princípio fundamento de toda a body art dos anos 60 e que ainda hoje norteia a maior parte da performance. Então, um corpo nu em cena, seja performática ou teatral, é isso: entrega, honestidade, procura de um espaço comum.

Em “La Bête”, Wagner Schwartz convida o público a manipular seu corpo – inspirado na série de esculturas “Bichos” de Lygia Clark (1920-1988). No ano de 1960, a artista brasileira apresentou esculturas de alumínio com dobradiças potentes para que o público participante descobrisse suas inúmeras formas, manuseando-as um por vez. Em “La Bête”, o performer submete seu corpo desnudo à mesma ideia. Cada pessoa se aproximava e alterava a formação de seus braços e pernas, enfim. A ocorrência da nudez era sinalizada de antemão aos visitantes. Representantes do MAM-SP afirmam, inclusive, que o público da sala era formado majoritariamente por artistas. A menina que interagiu com a obra viva era nada menos que a filha da performer e coreógrafa Elisabeth Finger.

Imagem mostra como acontece a performance “La Bête” (Foto: Humberto Araujo/Clix)

– Alegar que teve “pedofilia” ou crime realmente é uma tática para dividir a opinião pública e fazer com que os espectadores desentendidos, que faz muito tempo não tem contato com o que acontece no museu (pelo menos um século), tome partido sem informação. – observa Carlos Monroy – Penso que o que anda por trás é muito pior: censura e falta de informação. O que existe é um coletivo político que se organizou e tem por alvo o circuito da arte contemporânea, seus agentes e discursos. O interesse desse grupo não é outro mais do que marginalizar, polarizar e manipular o público com desinformação, ou com o que resulta ser informação mal-intencionada ou pelas metades, sobre trabalhos artísticos que recorrem ao corpo como matéria prima de análises ou de discurso. Este ataque ao campo das artes claramente não é gratuito e anuncia, ou melhor confirma, parcerias criadas entre agentes políticos e civis que querem a volta da ditadura e sua lógica “progressista”.

A polêmica em torno da performance de Wagner começou quando o Movimento Brasil Livre (MBL), apresentado como uma organização não governamental de ativismo político, divulgou o vídeo em suas redes sociais chamando “La Bête” de repugnante, inaceitável, erotização infantil, afronta e crime. Uma matéria do El País publicou nesta semana uma reportagem que sintetiza o quadro: “de liberais anticorrupção a guardiões da moral: a metamorfose do MBL”. O ator e performer Hugo (ele se apresenta assim, sem sobrenome), autor do projeto “100 NUDE Shoots”, no qual posa nu para 100 fotógrafos diferentes, também culpabiliza a MBL por incentivar “o linchamento, o autoritarismo e a censura” que artistas sofrem atualmente. Não faz dois anos corridos que a performance “Macaquinhos” – aquela das dedadas no ânus – foi outro escândalo nacional. De tempos em tempos, uma obra é pega para Cristo, todo mundo surta e a massa fica cada vez mais distante do circuito de arte contemporânea.

Performance “Macaquinhos” também causou polêmica (Foto: Divulgação)

– É uma lástima que nos vejamos de repente no fundo do poço da educação cultural, e portanto sujeitos a essa manipulação. Não importa o conteúdo ou a motivação, mas sim que haja um alvo fácil. Esses grupos são muito eficazes em se comunicar com as massas e direcionam a insatisfação pública, que é legítima, da forma mais perversa possível: em forma de ódio, e em benefício dos próprios opressores. Há anos, o povo tem sido treinado a jogar seus problemas, sua insegurança, na culpa de bodes expiatórios, e não é de hoje também que os artistas são alvo preferencial, pela dificuldade de um povo ignorante de compreender que o sentido da arte é justamente questionar. O problema de uma hora para outra deixa de ser a desigualdade, o desemprego, a corrupção, e passa a ser, para muitos, que o país está dominado por pedófilos ameaçando seus filhos. Tristíssimos tempos, que há pouco não poderíamos imaginar que estaríamos vivendo. – diz Hugo.

O ator, que trabalha com o Grupo Os Satyros em São Paulo, aponta outro problema: a visibilidade e a livre discussão das questões de gênero, corpo, sexualidade, política e livre arbítrio são cada vez mais reprovadas, reprimidas, desqualificadas, proibidas e agredidas justamente onde e quando deveriam estar sendo expressamente fomentadas – nas famílias, nas escolas e universidades, nas igrejas e templos, na televisão, no judiciário, na Internet. “A nudez incomoda porque um corpo nu é um corpo vulnerável. Sem as roupas, que são sobretudo um instrumento de linguagem, o corpo nu esfrega em nossas caras o fato de que somos feitos de carne e pelos, não muito diferente dos animais”. Ricardo Cabral é da mesma linha de raciocínio: “a história do homem ocidental é uma busca de eternamente se ‘desanimalizar’, se sentir mais que os outros animais, uma coisa separada na natureza. O homem é muito soberbo, prepotente, quer ser muito mais que natureza, então se defrontar com isso talvez seja uma relação um pouco assustadora”.

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No mês de setembro, o ator Cirilo Luna esteve em cartaz com “O Princípio de Arquimedes” no Sesc Tijuca, com cenas de nu todos os fins de semana. O espetáculo tratava, justamente, das diferentes perspectivas e como uma incerteza pode ser disseminada como verdade pelo Facebook e causar o terror coletivo. Na história, ele era um professor de natação acusado de abusar de um aluno. Questionado sobre o ponto da nudez, o artista sublinhou entraves culturais para que o corpo seja tratado desvinculado da erotização. “Ainda temos e nos ensinam muito sobre a culpa e sobre o pecado, e tudo isso potencializa um discurso mais radical, mais alarmante quando se debate e se discute o corpo nu”, pondera, “existem muitas barreiras, entraves vinculados à nudez e me parece muito preocupante quando na arte, onde deveríamos ter um terreno livre para se pensar e debater, vemos esse tipo de censura voltar a acontecer”.

Falando em censura, o prefeito Marcelo Crivella está decidido a proibir a exposição “Queermuseu” no Rio. Após ser fechada em Porto Alegre pelo Santander Cultural, ela está em negociações para ocupar o Museu de Arte do Rio (MAR). O prefeito, no entanto, postou um vídeo garantindo aos cidadãos de bem que não permitirá que isso aconteça. Confundindo a exposição com a performance de Wagner, ele escreveu o seguinte na descrição do post: “não é legal estimular uma criança a tocar em um homem nu em ‘nome da arte’. É preciso respeitar a família, vamos cuidar das nossas crianças”. Ninguém contou para ele que a menina estava acompanhada da mãe. Em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo, o ator Gregorio Duvivier comentou: “sugiro às pessoas que viram erotismo nessa cena que procurem tratamento psicológico. Amigo, você sofre de alguma doença grave: ou tem tesão em crianças, ou tem tesão em pés, ou tem tesão em crianças tocando em pés. Ou é pedófilo, ou podófilo, ou pedopodófilo”. Fica a questão.

(Foto: Divulgação)

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