Precisamos – Por Junio Duarte – Teatro em Cena
Papo de Artista

Precisamos – Por Junio Duarte

(Foto: Junio Duarte)

Li, no jornal “O Globo”, uma entrevista da atriz Fernanda Montenegro na qual ela falava, dentre outros assuntos, do lugar onde está o teatro brasileiro. Segundo ela, nosso teatro se encontra emburacado nas catacumbas e que ele está lá porque nosso país também está nas catacumbas. E completava, ainda, o discurso, falando do quanto nós artistas estamos desprestigiados.

Ela não é a primeira e nem a será a última a ressaltar esse tema nos tempos de hoje. A desvalorização do teatro e do artista pode ser notada no posicionamento do Estado e de grande parte da sociedade. Essa desvalorização tem invadido as mídias sociais, os meios de comunicação, as bases escolares etc. No Rio, o esvaziamento dos teatros se torna cada vez mais notável. Estamos perdendo nosso espaço de fala. Um Estado que não constrói e pouco investe em cultura, descredibiliza a função e o próprio valor do artista diante da sociedade. Assim, perdemos, aos poucos, nossa potência de ação.

Como ator, já me questionava muitas vezes sobre os valores e a representatividade da arte e da cultura na sociedade. Principalmente por ter passado por uma escola de teatro (Martins Pena) que, por décadas, enfrenta e resiste ao sucateamento cultural. Agora, minha experiência como produtor tem me feito refletir muito sobre isso. O tempo todo. As inquietações são muitas e as respostas são poucas. Estamos enfrentando tempos difíceis.

Vendo a situação caótica em que nos encontramos, me pergunto: como recuperar o lugar de valor e respeito do artista? Como dar valor ao nosso serviço? Como sobreviver e manter as produções sem recursos captados por lei de incentivo? Como resistir (mais uma vez)?

Os teatros estão fechando suas portas, as pautas estão cada vez mais difíceis, algumas cobram percentuais absurdos para um espetáculo que ainda precisa bancar toda a produção com bilheteria. As apresentações se dão duas ou três vezes na semana, o que torna difícil qualquer lucro. Na maioria das vezes, as produções mal se pagam.

O fechamento de salas de espetáculos e a evasão do espectador expõem o atual cenário em que se encontra o teatro carioca. É um momento complicado para os profissionais da cena, que vai além da falta de amparo do Estado, mas que também, ao me ver, alcançam patamares de uma crise de valores, que vem impregnado por um desinteresse do espectador, que aos poucos perde a consciência da relevância social que o teatro possui.

E assim me surgem mais perguntas… Será que o que falta realmente é só uma política de incentivo que não se paute pelos interesses do capital? Será que é a crise financeira ou a insegurança constante em que vivemos que está enclausurando o espectador em suas casas? Será que é culpa da comodidade dos serviços de streaming que aumentam a cada dia?

Não sei ao certo o que está acontecendo com o teatro carioca, mas como dizia Cacilda Becker: “não me peçam de graça a única coisa que eu tenho para vender.”

Não podemos (nós artistas) deixar que desvalorizem nossa arte. Precisamos entender como nos recompor e contornar essa situação. Como lutar por melhores incentivos culturais. Como recuperar o interesse do público. Precisamos entender como tornar nossa arte sustentável, para que nossa voz não se cale. Precisamos nos unir. Precisamos.

Junio Duarte é ator, produtor e mestre em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF).

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