Comportamento

Qualquer um é capaz de cantar?

Surpreendentemente, o ator mexicano Gael García Bernal foi colocado no palco do Oscar deste ano para uma apresentação ao vivo da música “Remember Me”, que acabou levando o troféu de melhor canção original. “Quando soube que a música estava indicada, fiquei feliz, mas um pouco em choque, porque pensei ‘ok, eles vão me fazer cantá-la”, confessou o artista antes do evento. De acordo com dados da imprensa americana, 26,5 milhões de telespectadores assistiram à cerimônia só nos Estados Unidos, fora a nata de Hollywood que estava no Teatro Dolby, em Los Angeles. É gente demais para dar opinião, e o renomado ator ficou exposto aos olhos do mundo inteiro. “Eu nunca imaginei que cantaria no Oscar algum dia na minha vida. Eu imagino sobre fazer um gol na Copa do Mundo, mas nunca cantar no Oscar. Agora cá estou eu”, disse. Redes sociais e sites internacionais repercutiram sua performance, não exatamente pelas melhores razões. Ele não foi perdoado. Uma apresentação no Oscar implica em altas expectativas, que não foram correspondidas. Por outro lado, Gael nunca foi cantor e só soltou a voz no filme “Viva: A Vida É uma Festa” porque o personagem pedia. Ele foi contratado como dublador. Poderia ser um ator-cantor para a função? Claro. Mas quiseram Gael, apesar da falta de habilidade para o canto. Isso gera uma bom questionamento: qualquer um pode cantar?

(Foto: Reprodução)

No Brasil, produções de musicais teatrais volta e meia surpreendem o público ao escalarem atores famosos mas que nunca cantaram profissionalmente. Eles entram para aulas de canto rapidamente e tentam recuperar o tempo perdido até a estreia. Às vezes convencem, às vezes não. Mas a aposta, claro, sempre é que vai dar certo. Isto é: alguém acreditou em seu potencial. Procurados pelo Teatro em Cena, especialistas afirmam que, sim, qualquer pessoa pode aprender a cantar. Mas isso exige tempo. “É claro que existem aqueles com facilidades, mas não acredito em um dom divino ou um talento sobrenatural”, destaca o ator Reiner Tenente (de “Cantando na Chuva”), fundador da escola de teatro musical CEFTEM. Segundo ele, dá para começar do zero, treinando o ouvido, tornando-o musical, e trabalhando a qualidade da emissão vocal. Para isso, obviamente, são necessárias aulas.

Já o ator Hugo Kerth (de “Rapsódia – O Musical”), professor de canto no Estúdio VOCÊ, acredita que existe sim aquelas pessoas que nascem com o dom. “Existe o dom de cantar, assim como existe o dom de ser organizado, de ser fluente em inglês ou de guardar dinheiro. Tudo depende da energia que você canaliza para este dom. Um dom nas mãos erradas faz muito estrago, ou seja, não adianta ser um exímio cantor mas péssimo aluno e não estudar”, observa. Para quem não tem o dom, a dedicação tem que ser à altura. Uma boa dose de paciência e força de vontade também é importante, porque o processo de aprendizado e melhoria tende a demorar mais. “Precisa só esperar o tempo. Cada um tem o seu. O meio artístico é cheio de comparativos: ‘fulano melhor que beltrano’, mas se você parar e competir consigo mesmo, comemorar a cada micro vitória que você conquistar, você dará passos largos na sua excelência vocal”, defende.

No caso de Gael García Bernal, ele não estava preparado para o que viria. São situações bem diferentes gravar uma música para um filme, em estúdio, com toda a produção vocal disponível, e cantar ao vivo na frente de centenas de pessoas. A lista de indicados ao Oscar saiu em 23 de janeiro e pouco mais de um mês depois ele tinha que se apresentar ao vivo. O tempo não estava a seu favor. Todos os especialistas ouvidos pelo Teatro em Cena confirmam os problemas de afinação que os telespectadores notaram e comentaram na Internet. Para a atriz Lu Vieira (de “Zeca Pagodinho – Uma História de Amor ao Samba”), coordenadora na Escola Pedro Lima, o fator nervosismo também não pode ser ignorado. “Abrir os ouvidos e controlar a emoção não é para qualquer um”, diz a profissional, “acho que ele fez uma tentativa de se apresentar e o fez. Vejo bastante nervosismo”. Reiner Tenente, por sua vez, dá um crédito ao mexicano: “o nervosismo deixa sua voz instável, mas tem uma escolha interpretativa ali presente”. Para o ator, Gael García Bernal se utilizou bem dessa fragilidade como recurso interpretativo. “Para aquela performance, valeu. Mas precisaria de bastante treinamento para fazer um musical, por exemplo”, pontua.

Foi assim com o próprio Reiner. Ele não cantava nada até começar a fazer aulas. “Hoje canto um bocadinho, estou até fazendo uns musicais por aí”, brinca o ator. Modéstia à parte, essa é uma inspiração para quem quer cantar e quizá fazer musicais. Escute aí, Gael. Segundo Lu Vieira, para desenvolver o canto basta estar vivo e paciente, porque o aprendizado é uma jornada de pesquisa física e aulas para a maioria dos mortais. “Todos podem desenvolver seu canto. O que acontece muito é a ansiedade do aluno para cantar logo e consequentemente a desistência por não alcançar rapidamente sua expectativa. Mas é absolutamente possível criar essa habilidadde”, opina. Ela defende o treinamento constante: a frequência é importante. Vale mais estar preparado do que tentar se preparar quando surge uma audição ou um trabalho que exija cantar.

– Qualquer ator pode cantar profissionalmente em um filme ou musical. – afirma Hugo Kerth – Conheço vários que foram fazer aula só para isso. Muitos abandonaram depois, e eu pergunto: de que adianta? A voz é musculatura. Pare de malhar e veja o sofrimento que é voltar depois. Truques não existem, porque cantar não é mágica. Mas a força de vontade de aprender e o trabalho individual do ego, da expectativa e da paciência com certeza farão o iniciante cantar mais rápido.

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