Rafael Primot traz ao Rio montagem inédita de texto premiado em SP – Teatro em Cena
Entrevista

Rafael Primot traz ao Rio montagem inédita de texto premiado em SP

Os cariocas poderão assistir, a partir desta semana, a uma nova montagem de “O Livro dos Monstros Guardados”, texto vencedor do Prêmio Shell de São Paulo em 2010. O ator Rafael Primot (de “O Desaparecimento do Elefante”), autor da peça, desta vez está mais envolvido com a produção, assinando a co-direção com João Fonseca (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”) e assumindo um dos sete personagens. “Quando esse texto foi montado em São Paulo, eu já tinha escrito há uns cinco anos mais ou menos, então acho que ele tem dez anos. É bacana revisitá-lo. É um universo que ainda me interessa”, pontua o artista, que também está dirigindo um longa-metragem paralelamente. “Eu dirijo mais cinema, né. Essa é minha primeira direção no teatro. O João ainda é o grande encenador, mas eu estou perto também”.

Rafael Primot, no centro, com elenco da nova montagem (Foto: Leo Viana)

Rafael Primot, no centro, com elenco da nova montagem (Foto: Leo Viana)

O espetáculo reúne sete monólogos entrecortados de personagens muito peculiares. Rafael Primot, por exemplo, interpreta o interno de um sanatório, que acredita que é são, mas opta por esconder sua sanidade pois prefere ficar ali. Há também um atendente de videolocadora que alivia o estresse atropelando cachorros, e uma justiceira que mata pessoas para beneficiar outras. O autor define a trama como o “retrato do universo daqueles que guardam um segredo e um lado obscuro” – que, basicamente, pode ser qualquer um. “Apesar de alguns personagens terem lados bizarros, a gente tentou mostrar de uma maneira que as pessoas olhem e pensem ‘esse cara pode ser meu vizinho, esse cara pode ser meu marido’, sabe? É um pouco o final do ‘Hannibal’, que termina ele andando no meio da multidão”, diz ao Teatro em Cena, referindo-se ao filme americano “O Silêncio dos Inocentes” (1991), que acompanha um serial killer canibal que se esconde atrás da máscara de psiquiatra.

A ideia de remontar a peça foi do ator Erom Cordeiro (de “Laio e Crísipo”), idealizador do projeto, que também está no elenco, ao lado de Carolina Pismel (de “Beije Minha Lápide”), Guilherme Gonzalez (de “Me Leva Pra Casa”), Jefferson Schroeder (de “Infância, Tiros e Plumas”), Laila Zaid (de “Cachorro Quente”) e Leandro Daniel (da novela “I Love Paraisópolis”). Nenhum ator esteve na montagem original de São Paulo, do Núcleo Experimental, dirigida por Zé Henrique de Paula (de “Urinal, o Musical”). “Nesta montagem agora, acabei mais próximo da escolha dos atores. Na outra, só cedi os direitos e fui assistir”, ressalta Rafael, que retorna ao próprio texto com outra bagagem. Nesse intervalo de seis anos entre as duas produções, ele interpretou a travesti Stephanie por três anos na série de TV “Tapas & Beijos” (2013-2015), estreou seu primeiro longa como roteirista e diretor, “Gata Velha Ainda Mia” (2014), botou nos palcos os textos de “Um Sonho Pra Dois” (2012) e “Uma Vida Boa” (2014), e atuou em “Inverno da Luz Vermelha” (2011), “O Desaparecimento do Elefante” (2012), “Ensaio” (2013) e “33 Dedos Bem Aquecidos” (2013).

Com Orã Figueiredo, caracterizado como Stephanie em "Tapas e Beijos": maior destaque de Rafael Primot na TV (Foto: TV Globo/Alex Carvalho)

Com Orã Figueiredo, caracterizado como Stephanie em “Tapas e Beijos”: maior destaque de Rafael Primot na TV (Foto: TV Globo/Alex Carvalho)

– Percebo que algumas coisas se repetem no meu trabalho, quando eu escrevo. Alguns temas que estão presentes: tem uma coisa urbana, uma coisa sobre a solidão, uma coisa que eu costumo falar talvez sobre… É muito difícil a gente se ver, tentar enxergar o que liga esse trabalho com outros trabalhos, mas vejo que tem uma ligação. Se você lê ou assiste aos filmes, tem alguma coisa ali que me pertence, sabe? Que se repete. Acho que tem um pouco essa história da solidão urbana, da dificuldade de se relacionar, um lado obscuro dos personagens, um segredo que escondem, um pouco essa névoa em torno dessas figuras. – pondera Rafael Primot, dias antes da estreia da peça no Centro Cultural Justiça Federal, no Centro.

“O Livro dos Monstros Guardados”, que realmente virou livro, foi a primeira peça adulta dele montada profissionalmente. Agora, marca também sua primeira direção teatral. Rafael está especialmente feliz, por ser ao lado de João Fonseca (que, curiosamente, também montou “R&J”, outra peça primeiramente apresentada por Zé Henrique de Paula no país). “Ele me convidou e eu fiquei meio reticente no começo, mas como é o João, um artista que admiro pra caramba, boa pessoa de lidar, eu topei”. O retorno à própria obra, com olhar de diretor, “é meio esquizofrênico”, ele diz. Rafael garante que não tem apego como autor e não se importa de cortar e alterar o necessário. “É como se realmente não me pertencesse. Eu consigo ter um olhar afastado da coisa, quando estou dirigindo ou atuando. Até brinco, xingando o autor: ‘nossa, que horrível esse pedaço’”, conta. “Se eu ficar tentando reproduzir exatamente aquilo que imaginei quando tinha escrito para ser feito no palco, eu não vou estar aberto ao que aparece nos ensaios, ao que cada ator traz, ao que o outro diretor traz como ideia. Eu tento ficar aberto a isso, porque é sempre uma surpresa e podem surgir coisas novas que você mesmo não enxergou”.

Rafael com o Prêmio Shell 2010 (Foto: Divulgação)

Rafael com o Prêmio Shell 2010 (Foto: Divulgação)

De qualquer forma, o espetáculo já tem um bom cartão de visitas. Além do Prêmio Shell, a primeira montagem rendeu também o Prêmio Cooperativa Paulista de Teatro de melhor texto. O que será apresentado no Rio é diferente, mas o texto, que rendeu os prêmios, já vem com certificação de qualidade. “Tem isso, né? Tem essa responsabilidade que você está me atentando agora, mas a gente tenta não pensar nisso. É uma montagem diferente, nova”, diz o ator. Os prêmios, no entanto, ajudaram a abrir portas. Os artistas de São Paulo enfrentaram rejeição dos espaços para apresentar a peça na época, devido ao teor dos personagens. No Rio, foi mais fácil. “Um prêmio ajuda. Quando você chega falando que foi um texto que ganhou um Prêmio Shell em São Paulo, apesar da temática pesada, a pessoa te olha de outra maneira. ‘Ah, então alguém gostou, tem um selo de qualidade’, alguma coisa do gênero que te ajuda. Estamos com expectativa que isso venha a somar”. O Centro Cultural Justiça Federal, conhecido como CCJF, é um lugar que já recebeu também seu texto “Uma Vida Boa”, sobre a discriminação enfrentada por um trans. “A gente queria um espaço pequeno, intimista, onde conseguisse contar essa história. A gente vai tentar fazer em outras salas depois. Mas eu acho também que, pelo tema em si e pelos personagens, a gente não tem um espetáculo super comercial. Não sei como vai ser depois, se vai continuar ou não”.

A temporada no CCJF está garantida por dois meses, até 4 de fevereiro. Tentando não pensar na pressão de trazer o texto premiado para o público carioca, Rafael se debruça sobre a “investigação artística da melhor maneira de contar essa história”. “Queremos mostrar que essas pessoas, por mais esquisitices que tenham, são pessoas que estão entre a gente, que são nós mesmos. Se botar uma lupa em cima de mim, se fosse eu no palco, contando minha história, talvez eu também tenha minha esquisitice. Talvez eu nem perceba e seja um cara com TOC, sabe?”.

Laila Zaid, Rafael Primot e Erom Cordeiro: na peça, uma assassina justiceira, um louco que acha que é são, e um atropelador proposital de cães (Foto: Leo Viana)

Laila Zaid, Rafael Primot e Erom Cordeiro: na peça, uma assassina justiceira, um louco que acha que é são, e um atropelador proposital de cães (Foto: Leo Viana)

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SERVIÇO: qua e qui, 19h. R$ 30. 70 min. Classificação: 16 anos. De 3 de dezembro até 4 de fevereiro. Centro Cultural Justiça Federal – Avenida Rio Branco, 241 – Centro. Tel: 3261-2550.

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