Renato Livera resgata história do manicômio Colônia em solo teatral – Teatro em Cena
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Renato Livera resgata história do manicômio Colônia em solo teatral

Para comemorar seus 20 anos de carreira, o ator Renato Livera (de “Savana Glacial”) escolheu um desafio para sua volta aos palcos: fazer seu primeiro monólogo. Desde o último fim de semana, ele apresenta o solo “Colônia” no Espaço Sérgio Porto, no Humaitá. Em cena, ele trata do significado de colônia em um conjunto de ideias – política, sociologia, botânica, ecologia, perfumaria, biologia. Colônia pode remeter a coletivo, mas estar sozinho no palco tem sentido dentro da proposta: “colonizar é substituir, de certa forma, algo que ali estava. Isso exclui, às vezes humilha, destrói, enfim. Isso nos instigou porque queríamos falar justamente dessas pessoas que são marginalizadas por não se enquadrarem nos padrões estabelecidos”, diz o ator.

(Foto: Patrick Sister)

A ideia para o espetáculo surgiu em 2014, quando Renato conheceu o livro “Holocausto Brasileiro”, da escritora Daniela Arbex, que trata de um esquema de tráfico de corpos entre um manicômio e universidades em Minas Gerais. “Colônia” era o nome do hospital psiquiátrico de Barbacena, onde 60 mil pacientes morreram e tantos mais ficaram aprisionados mesmo sem problemas mentais. “Foi um encontro explosivo. Nunca fiquei tão surpreso com a crueldade do ser humano. No mesmo instante, sabia que aquele tema seria meu próximo argumento”, lembra o artista. De lá para cá, ele se associou ao dramaturgo Gustavo Colombini (de “O Silêncio Depois da Chuva”), que assina o texto, e ao diretor Vinícius Arneiro (de “Os Sonhadores”). Uma amostra do trabalho, work in progress, foi apresentada no ano passado na Mostra Hífen de Pesquisa-Cena.

– Achei que teria que ter um cuidado pra não levantar bandeira demais e representar aquele horror vivido pelos pacientes do extinto “Colônia” de Barbacena. O Gustavo trabalha justamente com o discurso não convencional, e investigava ao mesmo tempo o teatro conferência. Foi um casamento certo, porque precisávamos falar de uma loucura social, não psicológica. Ele então, juntamente comigo e com o diretor, se aventurou no delírio de um orador que é uma espécie de palestrante nada comum. – Renato conta ao Teatro em Cena.

(Foto: Patrick Sister)

Renato é um ator de companhia, então ver-se sozinho no palco é especialmente diferente. Fundador da Cia. Físico de Teatro, que existe desde 2007, o ator tem em “Colônia” uma experiência inédita em sua vida. “Há uma diferença enorme porque, no diálogo, o jogo é estabelecido entre os atores e no meu caso agora tenho que estabelecer esse jogo com a própria plateia. Preciso do olho no olho pra falar tudo que tenho pra falar”, diz. O frio na barriga existe – mas ele sente em todos os trabalhos. “Completo 20 anos de carreira sem aprender a controlar essa vontade avassaladora de desistir na hora H. Acho que é uma condição frequente na vida de quem se expõe a dizer algo para a sociedade”. E ele tem convicção do que quer falar neste momento.

– Vivemos um momento de profundo atrito geopolítico. Nações estão migrando pra outros lugares, morrendo, sobrevivendo às guerras. Pessoas lutam por seus direitos de igualdade, os preconceitos existem, a intolerância gera conflitos de ideias, e a sociedade parece ter dado um passo atrás com governos que excluem os “diferentes”. Nada mais atual pra se falar que “Colônia”, uma peça cuja única pretensão é refletir como não olhamos o outro, como enterramos e soterramos o nosso passado e o quanto estamos perdendo nossa memória. – conclui.

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SERVIÇO: sáb a seg, 19h. R$ 30. Classificação: 14 anos. De 12 de agosto até 4 de setembro. Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto – Rua Humaitá, 163 – Humaitá. Tel: 2535-3846.

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