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Rodrigo Monteiro fala sobre sua nova peça, Alice e Gustavo

Renomado crítico teatral, Rodrigo Monteiro “troca de lado” e se submete à opinião pública assinando a autoria de uma comédia romântica. “Alice e Gustavo”, recém-estreada no Teatro Candido Mendes, em Ipanema, é resultado de sua parceria com a atriz Carol Loback (de “O Último Lutador”), com quem escreveu o texto via e-mail. O espetáculo, que traz ainda o diretor Jorge Farjalla (de “Senhora dos Afogados”, “Vou Deixar de Ser Feliz Por Medo de Ficar Triste?”) na ficha técnica, acompanha o encontro de uma dona de casa evangélica, recém-separada do marido, e mãe de dois filhos com um jornaleiro gay e solitário.

Carol Loback e Marcos Nauer, atores de “Alice e Gustavo” (Foto: Divulgação / João Salamonde)

Rodrigo assistiu ao espetáculo pela primeira vez na semana passada, depois de três anos sem ler o texto. No palco, conheceu a visão de Jorge Farjalla para a peça e a interpretação de Carol Loback e Marcos Nauer (de “O Último Lutador”) para os personagens. Ele se diz um dramaturgo “sem apegos”. “Quando a peça estreou, eu já não lembrava de várias coisas do texto”, confessa ao Teatro em Cena, “eu não tenho uma relação de apego talvez porque não me sinta criador. Para mim, os personagens já estão criados e eu só os descubro. Estou com vontade de ver ‘Alice e Gustavo’ de novo e acho que as pessoas também vão sentir essa vontade. Eles parecem tolos, mas têm muito a dizer pra gente sobre a contemporaneidade. E eu quero ouvi-los mais e aprender com eles, refletir sobre o que eles dizem. Nem passa pela minha cabeça que boa parte do que eles dizem foi algo que eu escrevi para a boca deles. Não tenho mesmo essa relação de posse”.

Esse é o quarto texto de Rodrigo levado aos palcos, embora seja mais conhecido pelo trabalho de crítico. Com Farjalla, é sua segunda parceria. Ele havia dirigido outro texto da autoria de Rodrigo, “Vou Deixar o Amor Pra Outra Vida” (2014), que foi apresentado em um apartamento em Copacabana, em uma experiência imersiva que convidava o público a jantar com os personagens.

– Farjalla é um encenador, mais que um diretor. Ele fez com o “Alice e Gustavo” quase o que fez com o “Vou Deixar o Amor Pra Outra Vida”. No texto, quase não há rubricas, há apenas falas. Todo o entorno é merito dele. E o que é o entorno: os subtextos, os movimentos, as intensidades e, principalmente, o colorido e a poética teatral. Texto dramático não é teatro, é literatura. Farjalla faz teatro e, pelo que eu tenho visto nos meus textos e também nos de outros autores, faz um teatro cheio de poética e beleza que merece ser valorizado. – elogia.

(Foto: João Salamonde)

TEATRO EM CENA – Como surgiu o projeto?

RODRIGO MONTEIRO – Carol vinha alimentando a ideia de uma peça desde quando ela fazia “Tango, Bolero e Tcha-tcha-tcha”, um espetáculo que ela fez com Edwin Luisi, que eu não vi, mas que soube que ficou anos se apresentando sempre com muito sucesso. Eu e ela nos conhecemos em junho de 2012 e, nessa mesma noite, ela me convidou para ajudá-la. Existia um mote inicial – uma mulher que descobre que seu marido está tendo um caso com um outro homem – e um lugar – uma banca de jornais. O resto nós dois criamos juntos.

Qual foi a inspiração para essa história e os personagens?

RM – Não sei qual a resposta que a Carol daria para essa pergunta, mas a minha é que não houve inspiração em ninguém em específico. A Alice e Gustavo são dois completos estranhos pra mim, eu duvido que eu seria amigo deles. O mais interessante disso tudo é que, para mim, um não seria amigo do outro não fosse a situação de vulnerabilidade emocional em que ambos se encontram.

Você e a Carol Loback escreveram a quatro mãos e à distância. Como se deu essa experiência?

RM – A peça foi escrita por volta de 2013, já se passaram 5 anos, então, eu não lembro exatamente a ordem do processo de criação dramatúrgica. Mas era mais ou menos assim: eu escrevia um pouco e enviava por e-mail pra ela. Ela lia o que eu tinha escrito com toda a liberdade para alterar, apagar tudo, continuar e me mandar novamente. Eu recebia, lia o que ela tinha criado e tinha também a liberdade de voltar ao que eu tinha escrito antes, concordar com as alterações dela, escrever mais um pouco e devolver pra ela novamente. E assim fomos descobrindo os personagens mais do que os criando. Foi uma experiência ótima.

Como recebeu a visão do Jorge Farjalla para a peça?

RM – Farjalla é um encenador, mais que um diretor. Ele fez com o “Alice e Gustavo” quase o que fez com o “Vou deixar o amor pra outra vida”, texto escrito por mim, que ele dirigiu em 2014. No texto, quase não há rubricas, há apenas falas. Todo o entorno é mérito dele. E o que é o entorno: os subtextos, os movimentos, as intensidades e, principalmente, o colorido e a poética teatral. Texto dramático não é teatro, é literatura. Farjalla faz teatro e, pelo que eu tenho visto nos meus textos e também nos de outros autores, faz um teatro cheio de poética e beleza que merece ser valorizado.

Dirigido por Jorge Farjalla, espetáculo conta a história do encontro de uma dona de casa evangélica e recém-separada com um jornaleiro gay e solitário.
(Foto: João Salamonde)

A peça é montada durante o hiato do exercício de seu ofício de crítico teatral. Ela sinaliza um redirecionamento na carreira?

RM – De modo algum. “Alice e Gustavo” deveria ter entrado em cartaz em 2015, quando eu ainda estava escrevendo críticas e fazendo parte do júri da APTR. Meu hiato no exercício da crítica se deu por outros motivos: por causa do meu doutorado em Letras na UFRJ; por causa da minha mudança pra Niterói, onde trabalho 10h por dia em uma escola na coordenação pedagógica; mas também pela necessidade de se repensar. Foram 9 anos seguidos de atividade, mais de mil críticas publicadas. Tem sido bom dar um tempo e se desintoxicar. Na minha vida de crítico, chegou uma hora em que eu senti que já não precisava ver a peça para escrever a crítica. Eu conhecia o texto, conhecia as pessoas que estavam fazendo e já sabia o que veria. Uma vez, cheguei a escrever a análise antes de ver a peça, mas obviamente não publiquei. Quando cheguei em casa depois de ter visto o espetáculo, não alterei nenhuma linha do que eu havia escrito antes. Aí vi que era hora de parar, que eu tava viciado, com o olho já admoestado. O crítico lida com arte, não pode ser um burocrata. Eu gosto de ser um crítico que chora, que ri, que se diverte com a peça e não um que faz uma pose de bravo só para parecer com uma imagem tosca que inventaram para a Bárbara Heliodora.

Como é estar “do outro lado”? Como lida com as críticas – positivas ou negativas?

RM – “Alice e Gustavo” é meu quarto texto encenado. Antes veio “O Xirê das Águas”, da Companhia Caixa de Elefante (2008); depois “O Vendedor de Palavras”, do Grupo Mototóti (2009); por fim “Vou deixar o amor pra outra vida” (2014), do Coletivo Capricórnio. As duas primeiras estão ainda nos repertórios dos grupos e continuam se apresentando no sul do país. “Vou deixar” ensaia um retorno há quatro anos e talvez isso aconteça em 2019. Eu lido muito bem com as críticas porque me comporto com elas do jeito como acho que todo mundo deveria se comportar: ouço tudo, guardo o que acho que devo, expurgo o que considero desnecessário e mantenho a elegância. Na minha vida, a maior parte das críticas mais negativas que eu recebi foram dadas por mim a mim mesmo. Que os gaúchos não nos ouçam, mas o Rio de Janeiro é um lugar muito elegante. Aqui as piores brigam terminam num chopp. Em Porto Alegre, as peleias são mais sérias. Quem vence as de lá, lida muito bem com as de qualquer outro lugar do mundo.

Sente falta de escrever críticas?

RM – Sinto. Analisar um espetáculo teatral é algo que está dentro de mim, me vem ao natural. Eu já o fazia quando era adolescente, antes de ler “A Poética”, antes de saber quem é Patrice Pavis. Mas agora estou vivendo um outro momento que eu acho que vai ser bom para a escrita, quando ela voltar. No doutorado, eu criei um modelo de análise do ritmo do texto dramatúrgico, que é uma coisa completamente original. Já se pensou sobre o ritmo na música, no verso e também no espetáculo, mas, no texto dramático em prosa, não. E é a essa contribuição que eu estou me dedicando.

Podemos esperar mais peças?

RM – Sim. Eu sou um dramaturgo muito desvezenquandário, mas, no ano passado, traduzi “Ricardo II”, misturei com “Coriolano”, ambas de Shakespeare, e levei para a história do Rio Grande do Sul, entre agosto e novembro de 1889, nas vésperas da proclamação da república. A peça se chama “O Rei do Rio Grande”. Já houve duas leituras lá no sul, quero fazer uma aqui no Rio, mas pretendo cortar um pouco, pois tenho a achado muito longa. Difícil cortar. Quer me ajudar? (rs) Além disso, Carol Loback e eu escrevemos juntos uma outra peça, essa chamada “Todos querem Dulce Veiga”, que está na gaveta. E eu sozinho tenho mais três textos que nunca foram encenados: “Xeque-Mate” (o diálogo de um Rei e uma Rainha na iminência do fim da partida), “Família Nazaré (uma comédia vaudeville sobre Jesus) e “Boa noite, Scheherazade” (uma noite de desventuras de um ex-BBB esquecido pela mídia).

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SERVIÇO: qua e qui, 18h e 20h30. R$ 50. Até 20 de dezembro. Teatro Candido Mendes – Rua Joana Angélica, 63 – Ipanema. Tel: 2523-3663.

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