Entrevista

Rodrigo Portella, o cara do momento

Quem é o homem por trás dos prêmios?

(Foto: Humberto Araújo)

“Tenho a sensação de que passei a vida inteira me preparando para fazer o ‘Tom na Fazenda’. E agora? O que eu vou fazer?” – a declaração é sintomática do momento que vive Rodrigo Portella, diretor do espetáculo-sensação da cena carioca, que já levou 11 mil espectadores ao teatro em pouco mais de um ano. Vencedor de praticamente todos os prêmios por esse trabalho, incluindo o Shell e o Cesgranrio, Rodrigo se tornou o nome do momento na cena teatral. É o trabalho dele que o público quer ver, e é com ele que os artistas querem trabalhar. Convites, não tem faltado. Aos 40 anos de idade, ele vive um período de glória. “Tom na Fazenda”, inclusive, fará três apresentações no festival FTA no Canadá no mês que vem – o que desperta o diretor para o desejo de uma carreira internacional.

– É lógico que estou feliz: finalmente um reconhecimento maior. Mas eu virei diretor de uma peça só, né? Isso me preocupa um pouco. Eu vou dar uma palestra, uma oficina e, antes, na hora de me apresentar falavam “esse é o diretor da Cia. Cortejo” ou “formado na UNIRIO”, era sempre algo mais múltiplo, agora virei “esse é aqui o Rodrigo, diretor de Tom na Fazenda”. É só isso que as pessoas falam. Fiz parte de uma banca, fui ser júri de um festival, e tudo que as pessoas falam é isso: diretor de “Tom na Fazenda”. – ele diz ao Teatro em Cena, direto de um quarto de hotel em Brasília, onde seu novo espetáculo, “Insetos”, parceria com a Cia. dos Atores, estreia uma nova temporada. Um dia antes, ele e o elenco estavam em Porto Alegre, apresentando-se com o Palco Giratório. A resposta do “e agora?” está clara: ele está seguindo em frente.

Diretor no palco do Prêmio Cesgranrio (Foto: Divulgação)

Mas é preciso falar um pouco mais de “Tom na Fazenda” (sorry, Rodrigo!). Protagonizada por Armando Babaioff e Gustavo Vaz (mesma dupla de “Na Solidão dos Campos de Algodão”), a peça trata de homofobia, discriminação e como pessoas LGBTs são socialmente forçadas a mentir. É um tema necessário, na opinião do diretor. Quando venceu o Prêmio Cesgranrio, no palco do Golden Room no Copacabana Palace, Rodrigo Portella lembrou de uma história de sua infância: o pai de um amiguinho disse para o filho “se algum dia você virar viado, eu vou te bater tanto que, se eu não te matar, eu te aleijo”. Adolescente, o artista descobriu que o pai do menino tinha um caso com um enfermeiro. “Nesse dia, eu entendi que o que aquele cara sentia não era ódio. Era medo. Foi a partir dessa memória que comecei a desfiar o texto de Michel Marc Bouchard e surgiu aí o ‘Tom na Fazenda'”, contou. O espetáculo estreou em março de 2017 no pequeno teatro do Oi Futuro Flamengo, com 63 lugares, e está em cartaz ininterruptamente desde então. As críticas foram maravilhosas, o boca a boca surtiu efeito, sessões esgotadas se tornaram costume e temporadas foram emendadas. De lá para cá, já foram seis temporadas em seis teatros diferentes: a montagem passou pelo Centro, Zona Norte e Zona Sul. Atualmente, está em cartaz no Teatro do Leblon, com capacidade para 408 espectadores por sessão. “Tom na Fazenda” já teve mais de 100 apresentações, segundo a produção. No total, recebeu indicações a 45 prêmios – e venceu 24. Em outras palavras, um fenômeno.

O INÍCIO

Nem sempre foi assim para Rodrigo Portella. Durante a entrevista, realizada por Facetime para encaixar melhor na agenda do diretor, ele responde as perguntas olhando para dentro e resgatando memórias duras da infância, da adolescência e do início da vida adulta. Por vezes, é evidente como as recordações ainda mexem com ele. “Eu não esperava falar essas coisas. Não sabia que ia tocar em tantos pontos da minha vida. Se eu tiver insônia hoje, a culpa é sua”, brinca. O teatro o salvou, mas também cobrou um preço alto. Rodrigo tem 25 anos de carreira. Começou cedo. Natural de Três Rios, no interior do estado do Rio de Janeiro, ele nasceu em 21 de agosto de 1977. A altivez, a autoconfiança e a vaidade típicas do signo de leão foram confrontadas ainda criança. Desde pequeno, tem complexo de vira-lata. Filho de uma professora e de um ferroviário, encontrava-se no núcleo mais pobre da família. Os primos sempre tiveram muito mais que ele e isso doía. “Minha infância foi marcada por uma dor existencial enorme! (risos) Eu tinha problemas com Deus, com a minha família, principalmente com os parentes – primos e tios. Tinha problemas sociais, econômicos, muito sérios”, diz. Ele não consegue olhar a infância com alegria ou nostalgia, como a maioria das pessoas.

(Foto: Annelize Tozetto)

– Minha família toda tinha um poder aquisitivo bastante razoável, e eu sempre fui muito pobre. Meus primos tinham o que gostavam, o que queriam, um monte de danoninho na geladeira, biscoito de chocolate, e a gente não tinha nada disso. Aí ia para casa deles e tinha que pedir, né? “Você não está com fome, não?”: falava para ver se eles pegavam biscoito e me davam. Meio cachorro assim, sabe? É, vira-lata mesmo. Meio João Grilo [de “Auto da Compadecida”]. Só que não era tão alegre. Eu era astuto, conseguia driblar muito, mas driblava me voltando para dentro de mim. Então as crianças iam brincar na rua, meus irmãos, a turma toda, e eu ficava em casa, ouvindo música, vendo novela, ouvindo meus discos no fone de ouvido, gravando fita K7, no meu mundo, dando aula para ninguém, porque tinha uma lousa enorme na minha casa, aí eu ficava dando aula para as cadeiras vazias. Uma coisa muito solitária.

O teatro era um escape. Três Rios conta com o Teatro Celso Peçanha e o Grupo de Amadores Teatrais Viriato Corrêa, com 80 anos de estrada. “O teatro movimentava muito a cidade, a economia da cidade, era um negócio impressionante. Foi o que me salvou. Se a cidade não tivesse teatro, não sei o que teria acontecido comigo, não”, sinaliza. Foi naquele lugar que se deu início a trajetória artística de Rodrigo Portella. A primeira peça que viu foi “Pluft, o Fantasminha”, de Maria Clara Machado (1921-2001). Na adolescência, quis fazer um curso de artes cênicas. No dia em que foi se inscrever, um diretor o chamou para fazer um teste, porque tinha um personagem com o perfil dele em um espetáculo. “Quando o curso começou, eu já estava inserido na peça. Eu tinha 15 anos. Já entrei em uma peça adulta, texto do Khalil Gilbran, uma montagem à la Gerald Thomas – uma mistura de Gerald Thomas, Bia Lessa e Antunes Filho. Teatro amador, mas bastante conectado ao que estava acontecendo. Era uma peça louquíssima, extremamente física, com um apelo visual muito grande. Eu não entendia nada, não entendia a peça. Fui entender a peça muitos anos depois”, admite. Quando as apresentações acabaram, ficou esperando alguém o chamar para fazer outro. Não gostou da situação e empreendeu: começou a fazer suas próprias peças. Escrevia, dirigia e atuava. Isso com 16 anos. “Aí com 18 para 19 anos, resolvi montar uma companhia fora desse grupo. Muito novinho ainda. Fiz ‘A Cartomante’, de Machado de Assis, e a inscrevi no Festival de Teatro da Universidade Veiga de Almeida [no Rio]. Passou, ganhou o festival… daí a gente foi para um monte de festival, comecei a rodar muito com esse espetáculo. Foi quando comecei a ganhar dinheiro. Uma merreca, mas muito legal”. O próximo passo era lógico: a faculdade.

RIO DE JANEIRO, AÍ VOU EU

Rodrigo Chernicharo Portella passou no vestibular para o curso de artes cênicas na UNIRIO em 1997 e teve que se mudar para a então Cidade Maravilhosa. Ficou na casa de parentes em Niterói, e descobriu que os problemas poderiam ir muito além do danoninho. “Foi um inferno, né? Pobre”. Quando saiu de casa, o pai disse que lhe daria R$ 100 por mês para ajudá-lo na universidade. No segundo mês, não deu mais. “Passei muito perrengue. Comia muito mal, virei um osso, uma magreza absurda. Tinha que escolher se almoçava ou jantava, então almoçava às 16h para ficar no meio. Na época, a faculdade estava com problema no bandeijão”. Para levantar algum dinheiro, para pelo menos pagar o transporte Niterói-Urca, ele passou a dar aulas de reforço de matemática para estudantes do Ensino Médio. Com o tempo, conseguiu trabalhos como professor de teatro em Búzios, Rio das Ostras, Macaé, Paraíba do Sul e sua própria Três Rios. Conclusão: passava muito tempo longe do Rio. A faculdade levou nove anos para ser concluída, porque ele só conseguia puxar duas ou três disciplinas por semestre. Fez o curso inteiro de interpretação e migrou para direção no meio do caminho.

(Foto: Divulgação)

– No início de tudo mesmo, eu queria fazer teatro para um dia quem sabe fazer televisão, fazer novela, ser um ator famoso, ser reconhecido na rua, tirar foto e dar autógrafo. Isso todo mundo, né? A menos quem já nasceu nesse lugar… não é meu caso. Vindo de uma família muito humilde no interior, a projeção de vida era ser famoso. Quando comecei a fazer minhas peças como ator, logo entendi que mediar e conduzir aquele processo era o que me dava mais prazer. – explica.

Terminada a faculdade, Rodrigo fez alguns espetáculos no Rio de Janeiro como “Incidências” (2002), “A Fábula da Casa das Mulheres Sem Homens” (2002), “Aqui Jaz Afrodite” (2004) e “Que História Espera Seu Fim Lá Embaixo” (2006), se casou, teve um filho (Gael, atualmente com 10 anos, vive com a mãe em Buenos Aires) e se viu novamente confrontado com o problema financeiro. Não tinha como se sustentar na cidade – ainda mais com a chegada de um bebê. “Estava em cartaz no Teatro Glauce Rocha terça e quarta, sabe? Não conseguia me firmar no mercado, ganhar nenhum edital, ganhar dinheiro, ganhar nada. Os atores da minha companhia estavam esperando algo melhor acontecer, sabe? ‘Enquanto não tem nada melhor, eu tô aqui'”. Ele andava com Armando Babaioff, Verônica Rocha (de “Antes da Coisa Toda Começar”), Fábio Enriquez (da Cia. Barca dos Corações Partidos) e Vinícius Arneiro (da Cia. Teatro Independente) na época: todos em início de carreira, e caçando oportunidades. Cada um tomou seu rumo. “Fui perdendo as pessoas e percebendo que não tinha mais sentido. Os que não iam embora trabalhavam em uma loja no shopping e não podiam ensaiar até tarde, mas só podiam chegar às 23h (risos). De repente, vi que tudo estava errado. Eu saí de Três Rios, onde eu fazia teatro amador como se fosse profissional, porque eu ensaiava seis horas por dia dentro do teatro, com toda estrutura que precisava – luz, som, segurança, palco, tudo à minha disposição – e fui para o Rio de Janeiro fazer teatro amador achando que era profissional. Falei ‘tá tudo errado, vamos embora'”. Ele e a mãe de seu filho conversaram e decidiram ir para o interior. Na época, abandonou o curso de cinema que fazia na Escola Darcy Ribeiro (nunca mais retomou). Não era uma desistência da profissão: era enxergar oportunidade na contramão do senso comum. O Ministério da Cultura do governo Lula, na época, trabalhava com pontos de cultura e havia oportunidades criativas fora do eixo Rio-SP.

(Foto: Renato Mangolin)

CIA. CORTEJO

Foi feita a viagem de volta a Três Rios – sem sofrimento. “Achei que era melhor pra mim, pra minha família, pro meu filho, pra minha carreira. Achei que poderia fazer alguma coisa diferente. Fui pra lá, criei milhões de projetos”. Em 2010, ele fundou a Cia. Cortejo e se tornou gestor do Ponto de Cultura Teatro Aberto. Era o início, de fato, de sua fomentação artística na cidade. Foi a primeira guinada em sua vida. “Eu tinha um curso de cinema, um curso de teatro, outro lindo, chamado Educacine, no qual produzimos vários filmes, participamos de vários festivais, tudo feito pelos alunos, tudo jovem. Muita coisa boa aconteceu lá. Mais de mil jovens foram contemplados por esses projetos”. Dois membros da companhia, Luan Vieira e Léo Marvet, foram alunos de Rodrigo em um desses cursos.

Outra de suas criações em Três Rios foi o Off Rio – Multifestival de Teatro de Três Rios, que teve cinco edições e ajudou a movimentar a cidade. “Hoje, por exemplo, você leva qualquer espetáculo a Três Rios. Você lota um teatro de 320 lugares cobrando ingresso de R$ 20 tranquilamente. As pessoas criaram o hábito de ir ao teatro. Foram oito anos em um processo de formação de plateia ininterrupto. Com apoio do Sesc, da prefeitura, de várias instituições e empresas privadas, a gente foi fazendo um movimento de alavancar”, pontua.

“Antes da Chuva”, o maior sucesso da Cia. Cortejo (Foto: Divulgação)

Curiosamente, o trabalho originado no interior chamou a atenção da capital e fez voos mais altos. O espetáculo “Uma História Oficial” (2011) recebeu indicação ao Prêmio Shell de melhor direção e “Antes da Chuva” (2013) foi nomeado ao Shell de melhor autor. Ele não ganhou nenhum dos dois, mas despontou no mercado. Quem é esse cara que vem do interior apresentar seus espetáculos na capital e competir de igual para igual pelos prêmios? “Antes da Chuva” fez mais de 200 apresentações pelo país com o projeto Palco Giratório, e foi levado também para Argentina, Chile e Equador.

– Depois do “Tom na Fazenda”, esse momento de “Antes da Chuva” e “Uma História Oficial” indicados ao Shell foi um momento que mudou completamente minha perspectiva. Foi aí que comecei a considerar voltar para o Rio, foi a partir disso que eu entendi que era possível fazer esse movimento de ruptura de “tem que estar na capital”… e eu tenho a impressão de que, se e ficasse mais um tempo em Três Rios, a gente teria o sucesso que estou tendo agora sem ter vindo para cá. Lá. Eu tenho certeza que, se eu tivesse ficado lá, muita coisa linda ainda ia acontecer. Só que não dá. Tinha uma hora que tinha que pensar um pouco na minha carreira, no meu bem estar também. Se eu tivesse fazendo isso lá, demoraria mais tempo para chegar a esse momento, eu acho.

OI SUMIDO

Nos últimos anos, Rodrigo Portella vem estreando seus espetáculos no Rio de Janeiro. “Alice Mandou um Beijo” (2016), de sua autoria, concorreu ao Prêmio Cesgranrio de melhor texto. Desde 2017, ele vive de novo na cidade. Divide um apartamento na Tijuca com a atual esposa, a atriz Priscila Helena, que foi sua aluna em um curso em Juiz de Fora. O convite para dirigir “Tom na Fazenda” veio de Babaioff – aquele da temporada terças e quartas no Glauce Rocha láááá atrás. Hoje em dia, ocupam o horário nobre dos teatros por onde passam. Kelzy Ecard (de “Incêndios”), também integrante do elenco, lembra o início do processo criativo. Ela nunca tinha trabalhado com Rodrigo e o conheceu na primeira leitura. De cara, o achou muito afetuoso. “Eu vou dizer uma coisa para você: ele é um dos diretores mais impressionantes com quem já trabalhei na minha vida, porque ele é inspiradíssimo, cheio de referências, estuda muito, mas ao mesmo tempo confia muito na inspiração e na intuição dele. E é de uma amorosidade! Trabalha com a gente de uma forma muito precisa e com muita afetividade. Quando você está fazendo uma coisa em cena que jura que é porque você quer, na verdade, foi ele que conseguiu retirar isso de você da forma mais linda do mundo. Ele não é impositivo, ele trabalha junto com o ator”, diz.

Camila Nhary, Gustavo Vaz, Armando Babaioff e Kelzy Ecard: elenco de “Tom na Fazenda” (Foto: Humberto Araujo)

Tantos elogios chamam a atenção de outros colegas. No palco do Prêmio Shell, também no Copacabana Palace, a atriz Alice Borges (de “Os Sete Gatinhos”) não se intimidou com a plateia formada por seus pares e se ofereceu – na frente de todo mundo – para trabalhar com ele. Bem, basta dizer que a renomada Cia. dos Atores o escolheu para dirigir “Insetos”, seu espetáculo comemorativo de 30 anos de formação, o que o deixou ainda mais em evidência. Rodrigo foi chamado para substituir ninguém menos que Vera Holtz (de “Um Pai[Puzzle]”), forçada a se afastar do projeto por outros compromissos.

Consagrado, Rodrigo divide a carreira artística (incluindo a análise de todos os convites que vem recebendo) com a carreira acadêmica. Faz mestrado na UNIRIO e é professor no SESC e na CAL, além de dar palestras por aí. “O mestrado consome muito do meu tempo, mais do que estou podendo. (risos) Estou sempre na contramão, né? Ninguém vai fazer mestrado quando está trabalhando pra caceta. Só eu. Coisa de interiorano que quer fazer tudo de uma vez só”, brinca o diretor, em seguida ponderando: “mas, em compensação, eu vou apresentar um trabalho prático em vez de uma dissertação no fim da pesquisa. Toma muito mais tempo, na verdade. Você tem que ler tudo que tem que ler, escrever um memorial sobre o trabalho prático… mas, de certa maneira, me cobra em outro lugar, onde muito do que vou desenvolver de verdade está na relação com os atores. Isso me deixa um pouquinho mais tranquilo – um pouco. Os professores na UNIRIO também me conhecem, sabem que eu tenho uma história, e de certa forma eles me aliviam um pouco”.

(Foto: Reprodução)

TEATRO EM CENA – “Tom na Fazenda” vai para o Canadá. Imagino que seja uma grande realização.
RODRIGO PORTELLA – Essa não é a primeira vez que eu saio do Brasil com um trabalho, mas é a primeira vez que vou a um festival tão importante na cena internacional. Na verdade, ainda não tenho ideia do que isso vai representar na carreira do espetáculo e na minha carreira. Imagino que vai ser bom, porque a gente está passando por um momento de crise no Brasil e é uma oportunidade talvez de abrir um mercado fora do país. Acho que pode ser bom.

Você já apresentou “Antes da Chuva” fora do país também.
A gente fez um festival no Equador, uma temporada a convite de uma instituição em Buenos Aires, e fizemos um festival também no Chile. Foi Chile, Equador e Argentina. Teve um espetáculo meu chamado “O Cego e o Louco” (2011), de uma autora chamada Claudia Barral, que eu também fiz na Alemanha – em Munique e Passau.

Como é ver seu trabalho chegar tão longe?
As experiências anteriores, eu tenho a sensação de que tiveram barreiras com relação à língua, à própria cultura, e até uma dificuldade mesmo de entender o que do nosso trabalho está ao alcance do espectador de outro país. Não sei se eram os trabalhos mais propícios. A gente fez “Antes da Chuva” em espanhol no Equador e no Chile, e foi uma experiência difícil, porque não é a língua original dos atores e parece que há algum atrito aí entre cultura, língua e contexto. Não funcionou muito bem, eu acho. Agora é a primeira vez que a gente vai fazer o espetáculo na língua que ele foi feito, né. Não sei se as questões ali eram de ordem cultural, comportamental, ligada aos hábitos, ou se tinha a ver com a coisa da língua mesmo.

Como você se sente com relação à sua carreira? Você de repente virou o cara do momento.

Rodrigo Portella no Prêmio Shell (Foto: Reprodução)

Ah é? (risos) Ter ganhado o Shell, o Cesgranrio e até o APTR (porque um prêmio de melhor espetáculo significa um trabalho da direção forte), os convites que tem rolado, o próprio trabalho com a Cia. dos Atores, e também outros trabalhos bacanas que estão surgindo me deixam feliz, porque finalmente vejo a possibilidade de viver um pouco melhor, poder fazer escolhas, que eu não podia tanto antes… Claro que eu fiz escolhas, também: abri mão de trabalhar com assistência de outros diretores, de ter feito coisas mais comerciais, como teatro empresarial e teatro infantil, para fazer os trabalhos que eu tinha vontade de fazer, que eu escrevia, com a minha companhia. Já é um movimento forte de autonomia, mas isso não me deu estrutura financeira. Só “Antes da Chuva” que foi um espetáculo que me rendeu bastante retorno financeiro. A gente fez o Palco Giratório, muitas apresentações, e é um espetáculo muito barato de fazer – poucos atores, sem cenário. Tirando “Antes da Chuva”, eu nunca tinha tido a oportunidade de viver isso. Agora eu posso colher mais, abrir mão de fazer coisas que não me interessam, porque não estou precisando tanto do dinheiro. Posso fazer algumas escolhas, então é legal. Mas eu me preocupo um pouco porque, de alguma forma, tenho a sensação de que tem uma expectativa muito grande das coisas que eu vou fazer e isso não é bom. Preciso não deixar minha cabeça entrar nessa onda, senão estou ferrado. Fora a expectativa dos outros, tem a minha própria. Também fico um pouco ansioso – por mais que você tenha falado isso de “diretor do momento”… mas eu virei diretor de uma peça só, né?

Isso te incomoda?
Às vezes um pouco. Eu falo “não sou só diretor de ‘Tom na Fazenda’, sou também diretor de ‘Tom na Fazenda’. Sou diretor também de ‘Antes da Chuva’, de ‘Alice Mandou um Beijo’, de ‘Insetos'”. Mas também entendo que esse momento é um diferencial, com uma visibilidade que antes não tinha, e que isso é fruto de um processo né.

Quando encontrei você no Festival de Curitiba, você falou que estava conhecendo muita gente agora e que estava com dificuldade para guardar os rostos e os nomes das pessoas. Como você lida com a popularidade? As pessoas agora te conhecem.
Não sou um rosto conhecido. São três camadas aí: o diretor de “Tom na Fazenda”, o nome Rodrigo Portella e depois a minha cara. Fora de teatro, poucas pessoas sabem que eu sou eu. Quando fala meu nome, aí algumas dizem “ah, você que é o Rodrigo Portella, que legal”. Outras nem sabem. Quando eu falo “sou o diretor de Tom na Fazenda”, aí passam a conhecer. Mas eu tenho uma dificuldade social porque vivi muito tempo fora do Rio. Apesar de ter transitado muito no Rio – estreei todos meus quatro ou cinco últimos espetáculos no Rio de Janeiro e tive um estreitamento com a imprensa – eu fiquei muito tempo fora do Rio. Eu não convivia com as pessoas, não ia às estreias, não encontrava. Era uma entidade, parecia uma entidade. Agora estou mais próximo, mas é muita gente de uma vez só. Eu estou morando no Rio há um ano. Passei oito anos em Três Rios e estou há um no Rio, então é um excesso de pessoas que tenho conhecido, nomes, artistas, produtores, e às vezes tenho muita dificuldade de associar. Eu tenho uma memória muito ruim. Ela é muito boa para marcas e sonoridades de cena, muito voltada para o trabalho, mas para o social eu sou péssimo.

(Foto: Humberto Araújo)

Você falou sobre ficar marcado por “Tom na Fazenda”, vamos dizer assim. Qual você acha que foi seu grande acerto neste trabalho para causar todo esse alvoroço?
Eu acho que tem três grandes acertos e um não tem a ver comigo: é o encontro dessas pessoas. É o encontro que “alguma coisa” arma. Esse texto caiu na mão do Babaioff, e ele sempre me chama para os projetos que ele empreende. Cai na mão dele, que me fala, eu tô disponível, aí fala com Gustavo, que também estava disponível, fala com Kelzy, casa comigo, o Marcelo H., que tem uma participação absurda nisso apesar de muita pouca gente perceber. Muita da alma do espetáculo, os canais que são abertos, tem a ver com a trilha. Enfim. A Aurora, o Bruno, a produção do Sérgio, que é muito firme e prioriza o espetáculo em detrimento de qualquer coisa… Então é isso, a admiração mútua. Isso é uma coisa que o universo faz. A gente ajuda, mas o universo é que monta e organiza. Essa é a primeira coisa e a mais relevante. O resto é uma escuta bem apurada, que eu tenho bastante. Eu escuto muito os atores, muito a equipe. Isso não quer dizer que faço tudo que eles queiram. Obviamente, não. E essa é a terceira coisa: confiar muito na minha intuição. Eu escuto muito, penso, essas coisas interferem e contaminam a minha criação, mas eu acredito muito na minha intuição. Se minha intuição me diz “não coloque nenhum objeto, nenhuma mobília em cena”, eu não coloco. Se minha intuição me diz “isso não está soando bem, não está convincente”, eu confio muito. Se minha intuição me diz “acredite nessa lama, acredite nesse plástico preto”… os atores não acreditavam muito nessa concepção no começo.

Ah é?
É… Teve motim (risos). Às minhas costas, inclusive. Mas há também uma relação de muito respeito e admiração. O Baba me conhece há 20 anos, a Kelzy passou a me admirar, a Camila também me conhece há muitos anos, o Gustavo também… Tem isso. No respeito e na admiração, eles falavam “não gosto disso, esse plástico faz um barulho horroroso, essa lama não deixa a gente parar em pé, não ter um cenário deixa a gente instável, não sei o que fazer”, mas eu digo: “isso é bom, isso é bom pra obra, vai ser bom pra você também. Acredita”.

Que artistas você aponta como suas influências?
No Brasil, o Enrique Diaz. O Kike sempre foi uma referência muito, muito forte para mim. A forma dele pensar a cena sempre me interessou muito. Sempre, não. Eu minto. Houve um momento que passou a me interessar mais. Acho que foi quando ele voltou da França, ou de Nova York, não sei. Ele passou um tempo fora estudando e pesquisando com a Anne Bogart com a SITI Company. Depois que ele voltou, passei a me interessar muito pelo trabalho dele. Anteriormente, o Paulo de Moraes, outra referência muito forte. No teatro, acho que essas duas figuras. Bia Lessa um pouco também, mas menos. Esses dois caras foram muito fortes para mim. O engraçado é que depois dirigi a Cia. dos Atores, né? Aí eles falavam “o Kike não sei o quê, o Kike não sei que lá, o Kike gostava disso”… claro, não tem como eles não falarem. Até que um dia falaram “você parece tanto com o Kike” e eu woooow. (risos) Mas tem outros artistas que eu admiro muito. Na literatura, Gabriel García Marquez, que influencia diretamente minha forma de pensar as contradições humanas, as ambiguidades, o fabular. No cinema, tem algumas referências que são muito fortes para mim. No Brasil, Jorge Furtado: gosto demais dessa coisa da narrativa, que é presente em quase todos meus trabalhos.

“Insetos”, espetáculo da Cia. dos Atores dirigido por Rodrigo Portella (Foto: Divulgação)

Quem são as pessoas que você sonha em dirigir?
Cara, não tenho muito essa parada. Engraçado. Eu sonho em trabalhar com gente bacana, gente generosa, gente do bom, sabe? Gente apaixonada pelo que eu faço também, com o mesmo nível de entrega e disposição. Não tenho uma pessoa especificamente com quem eu gostaria de trabalhar. O Kike é uma pessoa de quem eu gostaria de me aproximar. Ele é um cara com quem eu acho que teria muito a crescer. E acho que a gente teria uma potência juntos. Mas não sei…

Você falou sobre a expectativa em torno de seus trabalhos. O mais recente foi “Insetos”, com a Cia. dos Atores. Você sentiu isso nesse trabalho?
Ah, senti. Senti muito isso. Pouco antes do trabalho estrear, o nível da expectativa era muito alto. Muita gente ia ao teatro para ver uma confluência entre Jô Bilac, Rodrigo e Cia. dos Atores. Eles já tinham uma parceria anterior, então a expectativa era como o diretor de “Tom na Fazenda” ia interferir. Não sei se é isso de verdade ou se é uma sensação minha, até uma cobrança minha de que eu deveria desenvolver algo à altura do que era “Conselho de Classe”, por exemplo. Era isso: Jô Bilac, Cia. dos Atores, “Conselho de Classe”, eu “Tom na Fazenda”, e a junção dessas coisas… uma expectativa muito grande. O espetáculo conversa com o contemporâneo, com nossas questões mais atuais e mais nevrálgicas, então tinha muita expectativa com relação a isso. Só que o processo do “Insetos” é difícil, diferente, um pouco mais… é… performativo. Uma obra atravessada demais, por muitas coisas. Eu chegando à Cia. dos Atores, preciso antes de tudo entender essa companhia, o que eles querem falar, o que querem fazer, o que posso contribuir para esse discurso que é deles, e que é mais deles do que meu obviamente.

O “Insetos” fala metaforicamente de vários problemas políticos e sociais. Como você enxerga a situação do Rio e do Brasil atualmente?
Eu acho que “Insetos” antes de falar de política e de ética… (pausa) As questões políticas, sociais e ecológicas que “Insetos” levanta, para mim, são o tabuleiro do jogo, o contexto. Eu acho que a peça, para mim, fala sobre ir ou não ir, mover-se ou não mover-se, ficar parado ou ir adiante. Ela fala desse trânsito, da necessidade do movimento, se deslocar: ir embora para Lisboa ou ficar no Brasil. Ela fala de resistência, né? Dessa necessidade de reconfigurar o meio ou se deslocar do meio. Para mim, a peça fala de deslocamento, de êxodo. Essa é a questão mais importante da peça a meu ver, sabe? Pensando esse contexto, eu não acho que a gente está vivendo uma crise exatamente. Eu acho que a gente está em um ponto de transformação mesmo, de grande mudança, e aí parece uma crise. Mas a crise era o que a gente vivia. Eu acho que a gente está saindo dela para uma outra coisa, e isso está bagunçando o meio de campo, as cabeças, os comportamentos, os posicionamentos. Eu tenho um pouco a sensação de que esse ponto é um ponto de transição, de mudança, de deslocamento de um lugar para o outro. Falam em crise ética, e eu tenho a impressão que a gente viveu esses anos todos, décadas, séculos, com uma crise ética. O ser humano, por natureza, é ambíguo, contraditório, bom e mau, ele é costurado. Só que a nossa formação cultural aqui na América Latina é bastante corrompida né, na questão ética. Isso está no campo político. É engraçado porque estou aqui agora de frente para o Congresso Nacional [olha para a janela]. Eu estava aqui há pouco, deitado na cama, descansando do almoço, olhando para a Esplanada e pensando isso como uma representação muito mais simbólica do que eu sou, do que nós somos. A gente fala tanto desses problemas políticos, mas agora há uma nova geração de pessoas tentando mudar. Mas eu acho que tem que mudar no sentido mais geral da coisa: de fato, o macro não vai mudar enquanto a gente não acabar com as pequenas corrupções, com os pequenos danos que a gente causa no meio ambiente na nossa vida cotidiana individual. O que vai mudar o macro é a evolução sintomática das pequenas mudanças. Eu acho isso.

Com relação às eleições deste ano, o que você sente – mais medo ou esperança?
Não sei ainda. Não dá para definir ainda. Eu sinto as duas coisas. Isso também é ambíguo.

(Foto: Annelize Tozetto)

Mudando de assunto: atuar. Sente vontade?
Agora estou com vontade de voltar a experimentar coisas como ator. Tenho tido essa vontade já há algum tempo, e agora com essa história de “Tom” e essa reverberação, sei lá, me deu um pouco mais de coragem. Eu tenho um complexo de vira-lata, sabe? Sempre achei que era pequeno e não muito bem vindo. Até hoje tenho isso. Eu me peguei sentindo isso há três dias atrás. Mas aí eu coloco na balança e faço o contraponto: “não, pera aí”. Minha autoestima, claro, está mais elevada neste momento, então me dá um pouco mais de coragem. Talvez experimentar alguma coisa mais performática, não sei. Estou começando a pensar em um projeto – talvez para um doutorado. Vamos ver.

O que te interessa na arte e nessa profissão?
Cara, tem muita coisa, mas de certo modo nós artistas…[se interrompe] Outro dia eu perguntei para meus alunos “por que vocês fazem teatro?”. Começaram uns discursos de “ah, queria viver outras vidas, que não a minha”, “o teatro é um canal para você extravasar suas questões”, “ter voz na sociedade”, “mudar o mundo”. Eu fico olhando e isso tudo me parece tão hipócrita, sabe? No fim das contas, também pode ser isso tudo, mas eu acho que é mais como consequência. Acho que o que move mesmo o artista é o desejo de ser visto, o desejo de estar em evidência. Ou ele ou sua obra. No caso do ator, então, ele é sua própria obra: é o narcisismo em seu lugar… [se interrompe de novo] Os atores vão odiar se você publicar isso. Mas tem isso: querem dar um status de nobreza para a profissão, que tem de fato. Mas, apesar disso, tem esse lugar essencial e primitivo, humano, de querer ser visto. Teatro é isso – o lugar de onde se vê.

Como está a Cia. Cortejo atualmente?
A gente está em stand by. A gente fez três trabalhos seguidos, circulou com o Palco Giratório, conviveu muito e deu uma desgastada. A gente quis fazer outras coisas, procurar outras possibilidades, e começou esse movimento.

Hoje, agora, 2018, Cia. dos Atores, Tom na Fazenda… deu pra ganhar dinheiro?
(risos) Dinheiro é ótimo! Não, assim… eu estou vivendo melhor. Hoje eu consigo ter uma vida com um pouco mais de tranquilidade: dou aula no SESC, dou aula na CAL, sou convidado para palestras, saio dando oficina por aí afora, “Tom na Fazenda” e “Insetos” estão com uma agenda cheia até o fim do ano e eu ganho em cima das apresentações, então é mais digno, eu acho. Mas com esse tipo de trabalho eu tenho certeza que não vou ficar rico.

(Foto: Annelize Tozetto)

Mas você tem o sonho ainda de trabalhar na televisão?
Tenho. [se interrompe] Não. Sonho não é bem a palavra. Não é aquela coisa idealizada. Eu tenho… é… disposição. Não é mais sonho. Tenho disposição para trabalhar com TV. Não sei se como ator, porque essa coisa ficou muito guardada e só agora estou pensando em retomar isso. Mas, como diretor, certamente tenho vontade. Primeiro, por isso. Acho que é uma possibilidade de ter meu trabalho reconhecido de uma forma muito mais ampla, tem a questão financeira, e eu sempre tive interesse por audiovisual. Eu acho que os meios de produção da TV têm um lado mais cerceador, porque a TV tem objetivos artísticos que dialogam com objetivos comerciais claramente, coisa que o cinema não tem – a princípio, porque você faz um filme, mas não adianta, onde é que você vai escoar isso? A televisão tem um canal aberto para isso. Eu acho potente pra caramba. Tem uma estrutura incrível. A gente tem hoje em dia uma das maiores estruturas de produção de conteúdo fabular do mundo. E na minha cidade. Eu tenho conversado, a gente está em contato.

Você ainda faz mestrado. Me fale um pouco da sua pesquisa.
Cara, minha pesquisa é sobre hiperdrama, conceito criado por um dramaturgo americano chamado Charles Deemer, D-e-e-m-e-r [soletra]. Ele pensa o teatro dramático, com todas suas convenções, dentro de uma estrutura narrativa ramificada, como um labirinto narrativo: o espectador pode fazer escolhas durante seus caminhos. É mais ou menos isso.

Como é sua rotina para dar conta de tanto trabalho?
Eu dou aula no SESC e na CAL, duas vezes por semana, e faço meu curso da pós-graduação de manhã. No momento, não estou ensaiando nenhuma peça, mas tenho viajado muito. Vou começar a ensaiar um espetáculo agora. Está praticamente fechado. Falta aí um apertinho ali… com estreia prevista para agosto – essa que é a questão, porque a pauta ainda está pouco definida. Agosto ou setembro.

Qual o espetáculo?
(pausa) Não sei se posso falar disso agora. Eu tenho medo… Como ainda não começamos de fato… Aí, sei lá, eu falo disso e depois não rola… A gente fala em outra ocasião. Mas é com a minha mulher, com um ator que eu gosto muito, só gente boa. É um projeto bonito, um texto foda, de um espanhol, um texto que nunca foi montado no Brasil. É um projeto muito afetivo.

Além desse, tem algum outro para este ano?
Tem. Mas desse eu posso falar menos ainda. Está caminhando para dar certo. Esse é um projeto robusto, de uma autora londrina nunca montada no Brasil. Parece que vai ser muito bacana. Os dois projetos são muito legais – um tem um valor mais afetivo e o outro é com pessoas muito queridas, mas que têm uma história monstruosa. (risos)

Prêmio Shell: sonho realizado. E agora? (Foto: Divulgação)

Entendi. Você ganhou os prêmios, está recebendo muitos convites, vivendo esse sucesso. Qual seu sonho agora?
Sempre sonhei com isso, claro. Nunca tinha ganhado nada. Mas agora… Eu tenho sonhos. Eu tenho um sonho que é comprar um apartamento (risos). Esse é um sonho muito concreto. Eu preciso comprar um apartamento. Mas falando do profissional eu tenho uma meta agora que é a carreira internacional. Quero abrir campo fora do país. É mais do que um sonho, é uma meta: é uma coisa que eu vou fazer. Estou estudando muito inglês! (risos)

Você não fala inglês?
Fluente, não. Estou estudando. Ainda neste ano, se tudo der certo, vou sair do Brasil para fazer curso e aprender a língua. É realmente uma coisa que quero muito fazer. Quero muito fazer uma carreira fora do Brasil, quero comprar apartamento e quero fazer televisão. Quero mesmo.

O que te atrai tanto em trabalhar fora do Brasil?
Primeiro, a possibilidade de expandir o mercado, sabe? O Brasil está tão difícil. É essa coisa do êxodo do “Insetos”: quero ficar aqui, mas também quero abrir campo. Quero que as pessoas conheçam meu trabalho lá fora. Quero abrir mercado mesmo. É a primeira coisa. A segunda coisa é que quero trocar lá fora. A gente fica muito ilhado aqui. Tenho a impressão de que o Brasil é uma ilha. É uma ilha mesmo: de um lado o oceano e do outro uma América hispânica com a qual a gente não se relaciona. A própria ideia de América Latina já é uma ilha dentro de outra ilha, porque troca muito pouco com a América do Norte, com a Europa, com o Oriente. Eu tenho muita vontade de dirigir fora do Brasil, e não só levar meus trabalhos.

Para terminar, que conselho você daria para quem está começando agora a carreira?
Eita! Conselho? Não sei se consigo dar conselho para ninguém. Nem pra mim.

Melhorando então: o que você diria para o Rodrigo Portella de 16 anos?
(pensa) Essa palavra conselho é uma palavra difícil. Eu não consigo aconselhar nem meu filho. (risos) Nem ele!

Uma dica, então.
Uma dica… [achando graça] Quanto menos concessões você faz… [se interrompe] Eu fiz muitas concessões – para ter família, para ter dinheiro, para ter carro, para comer melhor, sabe? Com medo, também. Com medo, você acaba fazendo concessão. Agora estou mais perto das pessoas, das minhas referências de trabalho, meus ídolos – ídolo é uma palavra meio horrível, né? – perto das pessoas de quem eu olhava debaixo, e está tudo se desmitificando um pouco. São seres humanos, inteligentes como eu, queridas e não queridas, com suas ambiguidades, contradições, idiossincrasias… como eu. Acho que eu diria para mim mesmo aos 16 anos: cara, não faça tanta concessão, não tenha tanto medo. Ter medo é foda, trava a gente, segura mesmo. A gente não é criado para vencer isso com facilidade, para lidar, para romper. A gente é criado para frear, parar, estagnar diante do medo, ou seguir o senso comum, que é normativo né. É difícil fazer esse movimento de ruptura, de bancar uma parada, é foda. Se eu fosse dizer alguma coisa, eu diria isso.

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