Rosamaria Murtinho completa 60 anos de carreira em plena atividade – Teatro em Cena
Entrevista

Rosamaria Murtinho completa 60 anos de carreira em plena atividade

Bem vestida, com pose de aristocrata, rica ou forja de, circulando por mansões cenográficas: foram assim os papeis de Rosamaria Murtinho na última década. Completando 60 anos de carreira, ela percebeu a linearidade dos personagens que vinha fazendo na TV, decidiu mudar e escolheu o teatro para isso. “Estava me especializando em fazer pessoas chiques, tudo muito alinhado. Aquelas ricas ou então mulheres sem um tostão fingindo que são ricas… Falei ‘ai, meu Deus do céu…’”, ri. “Então, pedi uma desconstrução”. Ela usa esse termo o tempo todo para falar de seu novo trabalho, “Dorotéia”, em cartaz no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico: desconstruir.

Rosamaria Murtinho em "Dorotéia" (Foto: Carol Beiriz)

Rosamaria Murtinho em “Dorotéia” (Foto: Carol Beiriz)

“Me descontrói” foi o que disse para o diretor, Jorge Farjalla, da Cia. Guerreiro. Ele, então, apareceu com o texto de Nelson Rodrigues – dramaturgo que a atriz sempre admirou, mas nunca encenou. A proposta era para interpretar Dona Flávia, geralmente encarnada por atores do sexo masculino. Uma das primas da personagem-título, ela é uma mulher feia, frustrada e infeliz, que dorme no chão porque acredita que a cama é um convite a sonhos da carne. Faz um contraponto à Dorotéia (Letícia Spiller, nesta montagem), ex-prostituta, linda, que busca abrigo na casa das primas após a morte do seu filho. Não há nada de elegância: para o papel, que Rosamaria aceitou prontamente, deixou de pintar o cabelo há três meses, e guardou a vaidade em uma gaveta. Para ela, é uma grande oportunidade fazer um Nelson, com uma personagem dessa densidade, aos 80 anos. Ela já afirmou em outra entrevista que “atriz velha nunca sabe quando vai ter um bom papel”.

– A “Dorotéia” faz parte das peças míticas do Nelson Rodrigues, improváveis, e são peças que eu vi quando era jovem, no Municipal. Metade da plateia vaiava e a outra metade batia palma. Lembro que uma vez ele subiu em uma mesa e falou “Eu sou Nelson Rodrigues! Eu sou…”. – ela dá uma pausa, se esforçando para lembrar – Como é que ele se chamava? Esqueci, enfim. Era a direção da Bibi Ferreira, com a Nathalia Timberg. Eu era jovem estudante e fiquei assim: “o teatro é isso?”.

Natural de Belém do Pará, Rosa Maria Pereira Murtinho começou a carreira por acaso, no Rio de Janeiro, onde vive desde os três meses de idade. Ela sonhava em ser bailarina quando Paulo Francis, diretor do grupo de teatro amador Studio 53, a chamou para substituir uma atriz que adoecera faltando 15 dias para a estreia. Ela estava com 18 anos na época e só foi lembrada porque seu irmão, Carlos Murtinho, era integrante do grupo. Desde esse episódio, não parou mais. Fez Tennessee Williams (“A Rosa Tatuada”), Anton Tchecov (“A Gaivota”), Cláudio Torres Gonzaga (“Direita, Volver!”), Miguel Falabella (“A Partilha”), excursões internacionais e trabalhou com diretores como Maria Della Costa (no TMDC), José Celso Martinez Corrêa (no Teatro Oficina), Alberto D’Aversa (no TBC), Flaminio Bolini (no TPA), Jô Soares (“A Feira do Adultério”) e Charles Möeller (em “Ô Abre Alas”). Nos anos 60, começou a fazer “TV ao vivo” e sua primeira novela foi “A Moça Que Veio de Longe”, no papel protagonista, que lhe rendeu o Prêmio Roquete Pinto de melhor atriz.

Rosamaria em sua estreia na TV, em "A Moça Que Veio de Longe", ao lado de Hélio Souto (Foto: Reprodução)

Rosamaria em sua estreia na TV, em “A Moça Que Veio de Longe”, ao lado de Hélio Souto (Foto: Reprodução)

– O início da carreira foi muuuuuito fácil. Já comecei protagonizando. Muito fácil. Fui sendo chamada. Por isso, eu digo, e é besteira dizer agora, mas eu não tinha aqueeeeela vocação, sabe? Não tinha aquilo de “se não estiver em cena, não estou feliz”. Eu tenho outros objetos de prazer na vida. Não é só estar em cena, estar na novela, saindo nas revistas… Isso era uma coisa que não passava pela minha cabeça.

Inquieta, ela quer fazer aulas de dança assim que acalmarem os ensaios da peça. Durante a entrevista, realizada de manhã, logo após seu despertar, Rosamaria Murtinho deu várias amostras de “seus outros prazeres”. Simpática, gosta de conversar. Desviou o assunto para o noticiário nacional (“adoro discutir política”), deu dicas de astrologia (“tem muitos livros interessantes”), lembrou de uma reportagem sobre homossexualidade (“se procurar na Internet, a gente acha”) e administrou o lar. “A gente está em casa, tem que resolver tudo. Quando a gente está gravando, chega em casa e está tuuuuudo resolvido”, ri.

Atualmente, a atriz está fora do ar. Seu último trabalho foi a novela “Amor à Vida” (2013-2014). O marido, que ela conheceu no teatro, Mauro Mendonça, pode ser visto na novela das 18h “Êta Mundo Bom”, e o filho, Mauro Mendonça Filho, dirigiu outra trama recentemente, “Verdades Secretas”. É uma família de TV. Ela já esteve em cerca de 50 novelas, trabalhando com Benedito Ruy Barbosa (“Somos Todos Irmãos”, “Pantanal”), Walter Negrão (“O Primeiro Amor”, “Vila Madalena”), Dias Gomes (“O Espigão”), Walter George Durst (“Nina”, que lhe valeu o Prêmio APCA de melhor atriz), Janete Clair (“Pai Herói”, “Eu Prometo”), Walcyr Carrasco (“Chocolate com Pimenta”, “Sete Pecados”, “Amor à Vida”) e Silvio de Abreu, o mais recorrente em sua trajetória: “Jogo da Vida”, “Vereda Tropical”, “Cambalacho” e “A Próxima Vítima”.

"Amor à Vida": novela mais recente de Rosamaria Murtinho, escrita por Walcyr Carrasco (Foto: Globo/João Miguel Júnior)

“Amor à Vida”: novela mais recente de Rosamaria Murtinho, escrita por Walcyr Carrasco (Foto: Globo/João Miguel Júnior)

Veterana, não se deixa enganar pelo falso glamour da profissão. Fotos, entrevistas, status de celebridade: minimiza essas questões. A entrevista para o Teatro em Cena, por exemplo, ela esqueceu que estava marcada. Na hora combinada, ainda estava dormindo. Foram acordá-la e prontamente se levantou respondendo perguntas. Depois, com simplicidade, confessou que tinha recém-aberto os olhos e estava apertada para ir ao banheiro. Foi. Quando voltou, aliviada, ria de si mesma. “A menina da produção falou que teria um site, mas não me disse o dia. Ou será que ela me disse e eu esqueci? Tô com a Dorotéia na cabeça”. Mais risos. Quando engatou, respondeu sobre tudo, com muitas palavras. Rosamaria gosta de conversar. “Eu estava dormindo, mas está sendo bom, porque são perguntas inteligentes, aí é legal de fazer”.

Você declarou em uma entrevista que “Atriz velha nunca sabe quando vai ter um bom papel”. É uma profissão ingrata?
Profissão ingrata? Ah, é uma profissão ingrata sim… Outro dia, eu estava vendo na televisão [o filme] “Sunset Blvd.” (Crepúsculo dos Deuses), você lembra? Com aquela atriz antiga [Gloria Swanson]… mas eu fiquei assim impressionada com a coisa do “não serviu mais, não serviu”. Então talvez seja uma profissão que se você não é mais nova, não interessa.

E o início de sua carreira? Foi quando voltou dos Estados Unidos , certo?
É, isso mesmo. Engraçado que eu nunca sonhei em ser atriz. Às vezes eu vejo entrevistas de atrizes falando “ai, desde pequena eu queria ser atriz…”. Não passava pela minha cabeça ser atriz. Eu queria ser bailarina. Eu tinha problema no joelho, sabe, e depois eu deixei de fazer a dança. Mas não era uma coisa que eu tinha na cabeça, sabe, de fazer, de ser atriz.

E naquela época era mal visto né?
Ah, é. Era mal visto. Achavam que atriz era, tipo assim, prostituta e ator era viado (risos). Mas na minha família, nunca foi problema. É uma ótima família, de embaixadores, de gente bem nascida, e não achou nada demais, não. Sou de boa família, então não tem essa coisa de “não faz, porque não pode…”, não. Eles são inteligentes.

Hoje em dia, é o contrário, tem uma glamorização na profissão.
É, tem filha de presidente, filha de prefeito, hoje em dia é isso. Naquela época, não era, não. Também não era tão ruim como no tempo na Dercy Gonçalves. Já era uma profissão regulamentada, entende? Então já era uma profissão não tão… marginalizada como era há muito tempo atrás. Tivemos ótimas atrizes. Dulcina [de Moraes], Dercy, tudo isso… Por exemplo, essa peça que estou fazendo foi escrita pelo Nelson Rodrigues para a mãe da Nicete Bruno. Ele era a apaixonado pela Eleonor Bruno, e fez essa peça pra ela. Então, são famílias assim. Minha família também é toda de artista. E ninguém abriu a boca para falar “quando eu for grande, vou ser ator”. Nada, nada. Veio tudo muito naturalmente. Os pais foram fazendo, a gente não insistiu nada, perguntavam o que eu queria que eles fossem, eu dizia “felizes”. Veio naturalmente, né? Os pais conhecidos, vitoriosos…

Falando no Nelson Rodrigues, você nunca tinha feito uma peça dele, em 60 anos de carreira. Era uma vontade antiga?
Era! É a primeira vez que faço Nelson Rodrigues, e é complicado, viu? O que me atrai é justamente a desconstrução, o personagem que estou fazendo, diferente de tudo.

Como vem sendo a preparação?
Vem sendo bem custosa, porque não é nada fácil. Ontem, eu tive a pachorra de contar quantas frases eu tive que decorar e são 403. Muita coisa, porque ela não sai de cena.

O texto é o mais custoso desse trabalho?
O Otto Lara Resende um dia me disse uma coisa interessante: quando o Nelson Rodrigues escrevia, não voltava atrás. O que escrevia, tava escrito, acabou. Às vezes, a gente nota que tem coisas repetidas, com outras palavras, mas que deixa a gente biruta, “peraí, isso aqui eu já falei”. É uma peça difícil, é densa. Apesar de, na minha opinião, ser engraçada. Na minha, não. Na do próprio autor, que falou que é uma farsa. Eu adorei que ele falou que é uma farsa irresponsável, então, quer dizer, o que a gente fizer, está ótimo. (risos) Não tem que fazer crítica! É irresponsável e acabou! O próprio autor falou que é irresponsável.

Quando começaram os ensaios?
A gente começou a pensar nisso há uns dois anos, mas estamos ensaiando não é há tanto tempo, não. A gente vinha fazendo leituras aqui em casa. O Farjalla é um jovem diretor, muito bom, e apostei nele. É muito interessante a visão dele. Fazem muito as três viúvas homens, e a “Dorotéia” é toda sensual, tanto a sensualidade presa que não se consegue botar pra fora, como a sensualidade da Doroteia. Como você pode botar homem fazendo uma coisa sensual? Onde tá a sensualidade dele? As três são sensuais, as três viúvas! É tudo trancado, aqui dentro, mas as três são sensuais. Então, nunca entendi… Agora, com esse diretor, que entendi que há uma sensualidade nas mulheres da casa. Agora, com o Farjalla, depois lendo uma coisa do Sábato Magaldi, vendo alguns escritos do próprio Nelson Rodrigues… Eu me lembro que, quando era mais mocinha, lia “A Vida Como Ela É” escondida do meu pai.

Você já conhecia o Jorge Farjalla?
Não, meu filho que tinha feito umas músicas para algumas peças dele, e aí o João Paulo falou “mamãe, queria te apresentar uma pessoa talentosa”. Ele parece uma pessoa, como eu posso te dizer… a maneira de ver… Ele está vendo a “Dorotéia” de uma forma completamente diferente. As três viúvas não estão de luto. Simplesmente não estão de luto. O pessoal costuma fazer as três viúvas sempre homens, e aqui são mulheres mesmo. Essa peça é muito sensual, mulher tem que ser mulher, entende? Tem que ter a sensualidade delas.

Rosamaria acompanhada de Letícia Spiller e Jorge Farjalla (Foto: Divulgação)

Rosamaria acompanhada de Letícia Spiller e Jorge Farjalla (Foto: Divulgação)

Mesmo dentro da feiura e das amarras das personagens?
Mesmo dentro da feiura. Elas são trancadas, pessoas para dentro, tá tudo lá dentro delas né.

Eu li uma entrevista sua que você dizia que passa cremes…
Como toda mulher!

…já fez plástica, peeling, preenchimento e tudo mais. A beleza, então, é uma questão para você. É um desafio para sua vaidade ficar feia em cena?
Ah, não… Tem que contar primeiro que fui eu que quis fazer um papel assim, descontruído. Foi meu pedido para o diretor, aí ele se lembrou dessa peça. Se eu tivesse problema, não escolheria essa peça.

E você faz muita televisão, sua família é de televisão. Estava com saudade de fazer teatro?
Estava. Mas, agora, vou te dizer uma coisa: eu não sabia que essa peça era tão difícil assim. Não sabia, não. Porque, aparentemente, não é nada. Apesar do próprio Nelson Rodrigues chamar “Dorotéia” de uma farsa irresponsável, é uma peça difícil de fazer.

A carreira de ator está sempre muito associada ao prazer e à realização pessoal. Mas às vezes o artista faz muita coisa contra a vontade. Já teve trabalho que você fez sem gostar?
Já. Não foi fácil, mas é também uma coisa que a gente começa a fazer, mesmo não gostando do papel, e você vira aquilo, você dobra a página. Você começa a arrumar alguma coisa bacana para fazer naquele papel, e isso é um desafio ótimo. Você começa “ai, meu Deus, esse papel, não sei o quê…”, aí você faz de um jeito engraçado, de um jeito… Por exemplo, quem descobriu que eu fazia comédias, em televisão, foi o Silvio de Abreu. Ele descobriu meu lado moleque, no sentido de comediante, e falou “vamos fazer comédia com você”. E eu tive papeis ótimos com ele.

Selinho em Sílvio de Abreu: autor de várias personagens para ela (Foto: Reprodução)

Selinho em Sílvio de Abreu: autor de várias personagens para ela (Foto: Reprodução)

Você falou que foi fácil o início da carreira. Como que é envelhecer na carreira?
O envelhecer, para mim, sempre foi ligado à proximidade da morte… sabe? Eu tenho horror. Eu tenho horror de morrer, acho uma chatice não estar aqui no ano 3000. Eu queria estar aqui no ano 3000. Já imaginou? Você consegue se imaginar no ano 3000? A gente não vai estar aqui, isso é muito chato. Envelhecer foi uma coisa assim que eu faço o que posso, o que meu dinheiro dá pra fazer. Boto botox. Aliás, só quando estou trabalhando na televisão. Quando não tô, não boto não. Eu me cuido, sabe? Fifty-fifty, sabe, porque estou há muito tempo sem fazer ginástica (risos). Uma pessoa muito vaidosa estaria ali puxando ferro. Ah, eu fiquei com preguiça! Não aguentei mais puxar ferro! Mas, como você precisa sempre balançar o esqueleto, e eu gosto muito de dança, vou começar a fazer dança quando acabarem os ensaios. Precisa balançar o esqueleto, não pode deixar como está, não.

Você fez o “Dança dos Famosos”, né?
Ah, fiz! Eu fiz mais por uma coisa… As pessoas dizem que ficar velho é chato, porque fica em casa vendo TV, fazendo tricô, e eu via que minha vida não era assim, sabe? O envelhecimento veio como é o crescimento de um filho. Você tem um filho, daqui a pouco ele já fala, anda, já está na adolescência, sabe? Vem naturalmente. Você não acorda um dia, se olha no espelho e “nossa, eu tô com ruga!”. Quando a coisa vem vindo naturalmente, é melhor aceita. Aí fui convidada, e falei: “vou fazer sim”. Até hoje, encontro gente que fala “estou fazendo dança por sua causa, porque eu vi que você fez”. É claro que eu não queria me comparar à meninada de 20 anos, mas foi uma coisa boa, porque até hoje as pessoas se lembram.

Sua última novela foi “Amor à Vida”, que teve o primeiro beijo gay da Globo. Depois, o público rejeitou o casal formado pela Fernanda Montenegro e a Nathalia Timberg em “Babilônia”, e “Os Dez Mandamentos” se tornou um fenômeno de audiência. Qual sua opinião sobre as novelas atuais?
Eu acho que, atualmente, o público está mais careta. Eu acho. Apesar de todo mundo falar o que bem quer, está um pouco mais careta. Mas eu acho, isso do meu ponto de vista de atriz, de muito tempo de carreira, de observadora, eu acho que o erro foi começar o primeiro capítulo com um beijo. As pessoas não conheciam ainda os personagens, não conheciam o caráter, não sabiam se tinha ética ou não, e começou com um beijo de mulher. Lá, no “Amor à Vida”, foi mais tarde, o povo viu que o menino era carente pra burro de pai, e é uma coisa que acontece. Aliás, eu li uma coisa há muitos anos, na Veja, que um cientista lá da universidade de Stanford, acho que era lá, do outro lado dos Estados Unidos. Ele era cientista e gay e queria saber porque era diferente. Ele ficou encafifado e foi estudar. Saiu na Veja. Tem coisas que eu guardo, que são interessantes. Existe alguma coisa no gene, é genético, alguma coisa que passa de família pra família. Então, ele entendeu porque era assim. O tio era assim, um dos primos distante era assim… e ele ficou mais… Se a gente procurar na internet, vai encontrar essa Veja. É interessante, né, porque as pessoas ficam tratando mal os filhos, e vem deles mesmo! (risos) Porque se é genético, vem dos pais. Então não tem do que reclamar não!

Para terminar, que dica você daria para os atores que estão começando a carreira atualmente?
Que tenham sorte. Precisa de sorte. Precisa de vocação, e correr atrás. Tem muita gente… eu vi outro dia uma atriz bem conhecia que fez 11 testes e não passou nos 11, passou no 12º. Isso, atualmente, é muito importante. Precisa estudar. Você não pode ser ator sem saber nada. Tem que ler. O ator precisa ler, saber das coisas. Precisa ter talento, mas às vezes o talento não é tão importante quanto a vocação. Por exemplo, a Lucinha [Araújo], mãe do Cazuza, tem um enorme talento pra cantar, canta muito bem, mas não quer. Às vezes, o talento não quer dizer nada. Eu ouvi uma entrevista da Cacilda Becker e ela disse que, quando começou, todo mundo dizia que ela não seria atriz, porque tinha uma respiração complicada e falava assim [imita]. Mas ela tinha vocação. E tinha talento, claro. Ela insistiu, insistiu, e conseguiu. Ela disse “Eu não vou dizer o nome das pessoas que disseram que eu nunca seria atriz, porque são pessoas muito conhecidas e iam ficar muito constrangidas, só vou dizer o nome de uma pessoa que disse que eu não seria atriz, mas ia me ajudar, o Ziembinski”. Ele achou que tinha alguma coisa ali. E ela depois se tornou um ícone. No TBC, tinha fila de diretor para fazer peça com ela. O Franco Zampari, que era o dono do TBC, contratava aqueles diretores italianos… Outro dia, eu vi um filme, “Floradas na Serra” (1954), que foi feito naquela época, com Jardel Filho e Cacilda Becker, mas eles eram tão modernos! Parece que filmaram ontem! Então, o Ziembinski deve ter visto isso na Cacilda. Tem um olhar… Não tem esses caras que tem olhar pra modelo? Cada um tem a sua coisa.

Com Letícia Spiller em "Dorotéia", de Nelson Rodrigues (Foto: Carol Beiriz)

Com Letícia Spiller em “Dorotéia”, de Nelson Rodrigues (Foto: Carol Beiriz)

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SERVIÇO: qui a sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50. 90 min. Classificação: 16 anos. De 20 de fevereiro até 3 de abril. Espaço Tom Jobim – Rua Jardim Botânico, 1008 – Jardim Botânico. Tel: 2274-7012.

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