.Papo de Artista

Sobre o que falar à criança – Por Cleiton Echeveste

(Foto: Leocádia Costa)

Fazendo teatro há quase 30 anos, boa parte deles dedicados ao teatro para crianças e jovens, ainda me surpreendo com aqueles que se surpreendem quando veem determinados temas serem abordados no teatro para infância e juventude. Sexualidade, morte, gênero, bullying, questões sociais e políticas, entre tantos outros, podem e devem pautar o teatro para os pequenos. Mas por que a surpresa diante da escolha destes ou de outros temas? Quanto à surpresa dos outros, eu não tenho como dar conta. Quanto à minha, posso dizer que é porque essa parece ser uma discussão que não evolui, não avança. Ano após ano discute-se a mesma coisa: que temas abordar no teatro para crianças; que temas interessam à criança; sobre o que se deve e sobre que não se deve falar… Como se devêssemos apresentar a vida e suas questões a esse público de uma maneira seletiva, fragmentada e desconectada da realidade.

Nos perdemos nas “boas intenções” e nos esquecemos, no entanto, que o teatro para crianças é, antes de mais nada, teatro, ou seja, arte, e como tal requer independência, autonomia e responsabilidade, tanto na sua realização quanto na sua fruição. De tanto querermos empurrar conteúdos às crianças, menosprezando sua inteligência e sensibilidade, acabamos por afastá-las do teatro. Esse, aliás, é um fenômeno que acontece cada vez mais cedo. Onde estão as crianças de 8, 9, 10 anos? No teatro? Provavelmente não. Por quê? Difícil dar uma resposta simples e breve, mas a reflexão é válida e acho que, como artistas, não podemos fugir da responsabilidade de discutir a questão.

Pra começo de conversa, a primeira pergunta que deveríamos tentar responder é: o teatro para crianças que fazemos fala de coisas que realmente nos movem, a nós, como artistas? Nossos espetáculos fazem algum sentido para nós mesmos artisticamente? Ou nossas escolhas em relação ao teatro para crianças se dão com a “melhor das boas intenções” de ensinar alguma coisa a elas? Ora, a quem cabe a educação de uma criança senão à família e à escola? Quem foi que disse que o teatro deveria ser um espaço para a educação dos pequenos? O teatro é sim pedagógico, no sentido mais amplo da palavra, mas não didático nem educativo. Por que negar a verdadeira potência de uma arte que, quando realizada na sua plenitude, pode ser transformadora para todos os envolvidos?
Que visão de mundo e da infância os pais estariam promovendo ao levar sua criança ao teatro para que ela “aprenda” alguma coisa? E nós, artistas, que compromissos assumimos quando dizemos sim a esse tipo de demanda de parte ainda significativa do público?

Ainda que não tenhamos essa experiência em nosso histórico pessoal, por que nós não deixamos o teatro ser pura e simplesmente aquilo que ele é: arte? Um meio para contarmos histórias. Um espaço para o encantamento, a emoção e a descoberta. Uma arena para vivenciarmos momentos de comunhão. Um meio para o ser humano ver-se a si mesmo e ao outro, de forma ampliada e privilegiada. Por que negamos à criança essa fonte inesgotável de empatia, a mesma empatia que tanta falta faz em nosso cotidiano cada vez mais absurdo, grotesco e violento?

Fiz mais perguntas do que respondi. Mas é porque precisamos urgentemente refletir sobre essas e outras questões referentes ao teatro para crianças e jovens. Porque enquanto nos indagamos sobre a pertinência deste ou daquele tema, as salas de teatro enchem-se de pais que arrastam seus filhos para assistir as mesmas montagens mal-acabadas e toscamente copiadas dos mais do que conhecidos clássicos eternizados pelo cinema. Se não nos desafiarmos e se não empreendermos, nós mesmos, uma verdadeira jornada de transformação através do teatro que apresentamos à criança e ao jovem, tenho a nítida sensação de que estaremos perdendo o trem da história e deixando para trás gerações inteiras que crescerão e viverão alheias a esta arte milenar.

Cleiton Echeveste é ator, dramaturgo e diretor. Fundador da Pandorga Cia. de Teatro.

Comentários

comments