Luiz Buarque

Sobre Sondheim e Carla Perez

O ano começou agitado para o musical brasileiro: a notícia de que em breve teremos um musical baseado na vida e obra do grupo “É O Tchan” causou burburinho e não passou despercebida. O tom inusitado da empreitada gerou muitas piadas, algumas torcidas de nariz e trouxe de volta o já conhecido debate do que seria um tema apropriado para um musical.

Confesso que fiquei “atento”.

Ao ser questionado se qualquer material era viável para uma adaptação musical, um dos diretores do BMI Musical Theatre Workshop (histórico centro de formação de escritores de teatro musical em Nova York) respondeu que não acreditava ser toda ideia o embrião de um musical, mas que era impossível saber até que elas fossem colocadas em prática. Ouvindo o podcast, não pude deixar de sorrir: a surpresa de ver um projeto “azarão” desafiar os prognósticos e se tornar um sucesso, ou a decepção quando um show que tinha tudo pra dar certo não funciona são mais do que recorrentes na vida de quem acompanha esse lado do show business.

A questão é: não dá pra prever se um musical vai funcionar ou não. Estou lendo o já clássico “Not Since Carrie: 40 Years of Musical Flops”, relato do pesquisador Ken Mandelbaum sobre os maiores fracassos da história do musical americano, e é fascinante como alguns desses “flops” começaram como projetos perfeitos: uma equipe talentosa e um elenco dos sonhos reunidos numa ideia à prova de objeções não conseguem entregar aquilo que parecia um sucesso garantido.

Foi o caso quando o produtor David Merrick (rei da Broadway nos anos 50 e 60) juntou um “dream team” para adaptar “Bonequinha de Luxo” (na época já um sucesso de Audrey Heburn no cinema) e ninguém conseguiu acreditar quando o musical teve que ser cancelado antes da estreia. Décadas mais tarde, o oposto aconteceu, quando Xanadu se tornou o queridinho da temporada ao utilizar o melhor e o pior de sua fonte de origem para construir um musical de primeira baseado num filme de segunda.

E essa é uma das coisas mais legais sobre esse universo: musicais, da forma como conhecemos, vêm sendo escritos há quase cem anos e ainda guardam inúmeros mistérios a serem investigados.

Como escritor, cada novo projeto traz as mesmas questões: como fazer uma história funcionar no palco? Qual o ponto de vista mais interessante para contá-la? Como gerar uma comunicação poderosa entre música, texto e cena? Perguntas mais do que necessárias no cenário atual, quando após duas décadas do “boom” que estabeleceu o formato no país, o musical brasileiro parece mais do que pronto para buscar rotas alternativas e apostar em ideias mais ousadas.

Quanto mais ousado, porém, mais desafiador o processo de criação. Se já é complicado lidar com livros ou filmes (no Brasil, soma-se à lista a categoria “cantores da MPB”), projetos sugeridos por graphic novels autobiográficas (Fun Home), biografias históricas de quase mil páginas (Hamilton) ou a abertura dos portos japoneses ao comércio exterior no século XIX (Pacific Overtures) tiveram que cavar um pouco mais fundo até descobrir a melhor forma de ganharem os palcos.

As respostas encontradas pelos autores de cada um desses exemplos (a estrutura concisa e temporalidade fluída de Fun Home, o rap como dramaturgia em Hamilton e a junção do Kabuki japonês com o musical americano de Pacific Overtures) funcionam como exemplos concretos das possibilidades que um formato como o musical é capaz de revelar.

Seesaw pode ter sido mais um caso de musical mediano vindo de uma ideia mediana, mas não mentiu ao declarar que “It’s not where you start / it’s where you finish”: a jornada de um musical é longa e cheia de etapas delicadas, mas que se exploradas com cuidado e paciência podem resultar em projetos surpreendentes e inovadores. Parece algo bom de ter em mente no início de um novo ano e de uma nova coluna sobre esse universo apaixonante, misterioso e o único que vai me permitir juntar Sondheim e Carla Perez no mesmo texto.

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