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Soraya Ravenle, Gustavo Gasparani e Emilio Dantas discutem teatro musical em seminário

(Foto: Leonardo Torres)

(Foto: Leonardo Torres)

Profissionais veteranos e iniciantes se encontraram com estudantes e interessados por teatro musical no primeiro dia do II Seminário Carioca de Teatro Musical, no Theatro Net Rio, na quarta (23/7). Apresentado por Livia Dabarian (de “Rita, o Musical”) e conduzido por Reiner Tenente (de “O Grande Circo Místico”), respectivamente professora e fundador do Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical (CEFTEM), o evento refletiu o panorama brasileiro e, em específico, o do Rio de Janeiro, com levantamento de questões importantes para a área. Antes das discussões, o seminário contou ainda com um número de abertura apresentado pelo elenco de “O Grande Circo Místico”, que está encerrando sua temporada no local.

Foram duas mesas de reflexões: uma com atores, pela manhã, e outra com produtores, pela tarde. Ao contrário do anunciado, as atrizes Laila Garin (de “Elis, a Musical”) e Lucinha Lins (de “Palavra de Mulher”) e o produtor Tadeu Aguiar (da Estamos Aqui Produções) não puderam comparecer, por causa de outros compromissos profissionais. Substituíram Gabriel Stauffer (de “O Grande Circo Místico”) e Eduardo Bakr (da mesma Estamos Aqui Produções). O objetivo de ambas as mesas foi mesclar veteranos e iniciantes.

O papel do ator no teatro musical

(Foto: Leonardo Torres)

(Foto: Leonardo Torres)

A reflexão dos atores aconteceu com Soraya Ravenle (de “Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos”), Gustavo Gasparani (criador do “Samba Futebol Clube”) e Emilio Dantas (de “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, o Musical”), além do Gabriel. Um dos principais pontos levantados foi a preparação dos atores com fins mercadológicos. Gustavo e Soraya defenderam um maior aprofundamento humano e artístico, além do técnico. Lembraram que, no passado, existiam muitos musicais feitos em playback e que, hoje em dia, muitos atores cantam, mas não interpretam. “O ator de musical tem que ser antes de tudo ator, senão é só técnica, sem dizer nada”, disse Gustavo, em concordância com os demais da mesa. Soraya destacou ainda que muitos jovens ficam tão focados no musical que deixam de ter outras experiências de vida e ver outras manifestações artísticas, que são enriquecedoras para a bagagem de um ator. “Apesar do Youtube, noto que é tudo muito efêmero. Muitos não conhecem Eduardo Dussek, Dolores Duran, Nara Leão, Noel Rosa e isso me assusta muito”, apontou.

Eles também pensaram a questão da influência norte-americana no teatro musical brasileiro. Gustavo, particularmente, pesquisa uma linguagem original para as produções nacionais e Soraya, por sua vez, fez majoritariamente musicais brasileiros ao longo de sua carreira. A dupla destacou que, sim, é necessário conhecer e consumir tudo, mas deve-se saber o que é internacional e o que é genuíno do país. Gustavo chegou a usar o termo antropofagia para falar de como a importação deve ser tratada. “Vejo que os jovens atores decoram as músicas da Disney e da Liza Minelli para as audições e não refletem sobre o teatro, apenas reproduzem”, comentou Gustavo. Ele já presenciou audições e aulas nas quais jovens cantavam músicas brasileiras com sotaque americano. Soraya completou: “A referência do canto americano está virando nossa matriz, e isso é muito perigoso. Todo mundo começa a estudar e vai para Nova York. Outro dia estava na CAL, e a menina estava cantando se esgoelando. Era aula de quê aquilo?”.

Musicais autorais brasileiros

Soraya Ravenle e Emilio Dantas (Foto: Leonardo Torres)

Soraya Ravenle e Emilio Dantas (Foto: Leonardo Torres)

Uma das perguntas da plateia levantou a questão da onda de musicais biográficos, nos quais há criação de texto, mas não de músicas. Aproveitando a presença de Emilio, um sucesso com seu Cazuza (assediado no evento como se fosse o próprio cantor, com formação de fila para tirar foto com ele), foi dissertada a preparação específica para esse tipo de obra, no qual o público tem uma referência iconológica. Soraya, também, fez musicais da Dolores Duran e da Carmem Miranda. A crítica é para não ficar limitado apenas a isso. “Estou interessada em algo autoral, que o texto e também as músicas sejam especialmente criados para o espetáculo. Isso ainda é muito virgem no Brasil”, disse a atriz.

Nos musicais biográficos, as músicas estão prontas, e são conhecidas dos espectadores por serem sucessos no rádio. “É um lugar fácil de capturar o público, porque é mais mastigado e próximo à televisão. Mas isso é um processo de formação e educação”, afirmou Soraya Ravenle. Pesa, tanto para produtores quanto para patrocinadores, o apelo que os ícones conhecidos têm para atrair plateias. “É inegável o interesse por esse filão. O ruim é quando se torna preguiça, e as peças são sempre a mesma coisa, feitas em ordem cronológica e com a cena da gravadora na qual o executivo diz: ‘você vai ser uma grande estrela!’”, criticou Gustavo. “É importante o olhar da nova geração. Será que só dá para contar as histórias assim? Será que os jovens contariam da mesma maneira?”.

Peculiaridades da produção de musicais

Maria Silman e Eduardo Bakr (Foto: Leonardo Torres)

Maria Silman e Eduardo Bakr (Foto: Leonardo Torres)

Na segunda mesa, a dos produtores, participaram Anna Belo (da Doravante Produções), Gustavo Nunes (da Turbilhão de Ideias) e Maria Siman (da Primeira Página Produções), além do Eduardo. “Todo ator deveria produzir algum dia, para entender todo o processo. Ele se torna melhor, porque entende todas as etapas. É melhor para ele e para o contratante”, defendeu Maria, a mais falante dos quatro.

Eles destacaram as peculiaridades da produção do teatro musical, que tem orçamento, elenco e equipe maiores do que o “teatro falado”. “A montagem é muito mais complexa. Tem banda, orquestra. Às vezes da vontade de matar”, brincou Eduardo. Além do número de profissionais envolvidos, o planejamento também costuma ser maior e com muita antecedência. Gustavo contou que o projeto de “Cássia Eller – O Musical”, que estreou neste ano, começou em 2012, com a aprovação na Lei Rouanet e a liberação dos direitos pela família. A questão das leis de incentivo e dos editais também foi ressaltada: eles têm que ser compreendidos para que os projetos sejam bem escritos e apresentados. É quase impossível conseguir patrocinadores desinteressados nas insenções fiscais.

O problema apontado é que, por serem as empresas que selecionam os projetos que irão apoiar, pode haver certa padronização rasa no mercado. Assim como há patrocinadoras interessadas apenas em musicais, há as que só querem associar seus nomes a temas alegres e felizes. “Há um incentivo financeiro para que os espetáculos se limitem ao entretenimento”, disse Maria. Ela, particularmente, acredita que caso é independente e às vezes concessões podem ser feitas. Mas nem sempre. Quando a empresa quer interferir artisticamente demais, em pontos fundamentais, ela não é uma boa aliada para aquele projeto.

Questionados sobre de quem era a decisão final – do produtor ou do diretor – Eduardo Bakr foi direto: é da produção. Ele disse que, no caso do produtor idealizador, ele escolhe o diretor com o qual vai trabalhar, então tem que confiar e valorizar a criação artística dele, mas a última palavra continua sendo da produção. “Não é uma ditadura, é tudo conversado. A gente está fazendo arte, mas é um produto, então tem que ter cuidado”, observou. “O lucro é dividido entre todos, mas o prejuízo é só da produção”.

(Foto: Leonardo Torres)

(Foto: Leonardo Torres)

Dicas para quem está começando

Os quatro produtores deram muitas dicas para os potenciais produtores e os que estão dando os primeiros passos na carreira. O Teatro em Cena compilou as principais em tópicos:

• Partir de projetos pequenos, porque são muitas responsabilidades e para adquirir know how;
• Conhecer todas as funções que envolvem a criação de uma peça;
• Aproveitar os cursos acadêmicos oferecidos atualmente (eles não tiveram essa oportunidade, porque não havia no passado);
• Trocar informações com outros produtores;
• Pensar no orçamento ideal, o maior possível, quando redigir um projeto para leis de incentivo, porque, no caso da Rouanet, por exemplo, só são possíveis duas readequações orçamentárias;
• A melhor época para procurar as empresas é entre agosto e novembro, quando elas sabem quanto vão pagar de impostos e determinam quanto vão investir em cada projeto;
• Estar preparado na hora de adquirir direitos de peças internacionais: as produtoras pedem referências de pagamento e de qualidade, croquis de cenários e figurinos, currículo do tradutor, ficha técnica, tamanho do teatro no qual será apresentado.
• Ainda com relação à compra de direitos internacionais, sempre colocar um teatro inferior ao possível, para que a surpresa seja positiva e você não perca credibilidade. “Se pretende montar em um teatro para 600 pessoas, coloca que é para 500”, recomendou Maria Silman.

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