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Sucesso de público, mas com prejuízo: musical Yank! precisa da ajuda do público para reestreia

(Foto: Bernardo Santos)

O musical independente “Yank!”, que conta uma história de amor entre dois soldados na Segunda Guerra Mundial, encerrou sua temporada em junho no Teatro Serrador, no Centro, com ingressos esgotados e fila de espera na porta. De lá para cá, o espetáculo off-Broadway recebeu nove indicações ao Prêmio Cenym e convites para temporadas em outros três teatros. O sucesso notável, contudo, esconde uma questão de bastidor: o produtor e idealizador Leandro Terra, que também faz parte do elenco, fechou as contas no vermelho. O prejuízo, segundo ele, foi de R$ 8 mil. Por isso, o musical estrelado por Hugo Bonemer (de “Ordinary Days”) e Betto Marque (de “Amor e Restos Humanos”) ainda não reestreou, apesar dos convites. Para fazer de novo, ele busca um mínimo de segurança. Há anos sem conseguir patrocínio, Leandro tenta reunir recursos com uma vaquinha virtual que, dependendo das contribuições das pessoas, funciona até como uma pré-venda de ingressos. O financiamento coletivo fica aberto até 6 de novembro no site Benfeitoria.

– Já pensei em desistir muitas vezes. Quando a dívida foi aumento e eu não sabia para onde ir, foi difícil, bem difícil. Eu decidi, com ajuda da minha família, viver só de arte esse ano. Faço teatro há 16 anos e sempre tive que trabalhar no “meio tradicional” para me manter. Trabalhei 15 anos no comércio e mais quatro anos na Secretaria de Cultura de Nilópolis. Meu contrato com a Secretaria acabou no fim de 2016 e “Yank!” já estava em andamento. Conversei com minha família e chegamos ao acordo de que, esse ano, eu ia tentar produzir e atuar em “Yank!”. Mas eu moro sozinho, então dependo da ajuda financeira deles e até agora só levei prejuízo com o espetáculo. Mas algo dentro de mim ferve, eu caio, choro, me desespero, mas quando penso na minha arte, no que eu posso atingir com ela, eu me levanto mais forte ainda. E sempre acreditei e acredito no poder que “Yank!” tem. – Leandro desabafa em entrevista ao Teatro em Cena.

“Yank!” é uma peça dos irmãos Joseph e David Zellnik, apresentada pea primeira vez em 2005 em caráter de workshop no New York Musical Theatre Festival. A estreia oficial se deu em 2010 em Nova York, com sete indicações ao Drama Desk Award. O processo para levantar o espetáculo no Brasil começou em 2013. O projeto foi aprovado na Lei Rouanet e o produtor ficou três anos tentando captar patrocínio ou vitórias em editais. Não conseguiu – por vários fatores: estava sozinho, sua produtora era nova no mercado e a temática gay e militar também impôs obstáculos.

– Não tive nenhuma prova concreta disso, mas com certeza isso dificulta. Hoje em dia, que estou renovando a Lei Rouanet, já estamos separando empresas que não aceitariam colocar sua chancela num espetáculo com essa temática. Temos que ir atrás de empresas gay friendly. Está melhor do que antigamente, mas ainda não é o ideal. O ideal seria se não tivesse essa separação. – opina.

Se “Yank!” conseguir retornar ao Rio ainda neste ano, é um forte candidato às premiações da cidade. Sua primeira temporada teve apenas dez apresentações e, por isso, ele não foi qualificável para ser indicado no primeiro semestre. Algumas premiações exigem um mínimo de 12 sessões e outras pelo menos 24 sessões. Nos bastidores, corre a informação de que vários jurados gostariam de indicar o espetáculo, mas para isso ele tem que fazer outra temporada, ainda que curta.

Betto Marque e Hugo Bonemer: par romântico no musical (Foto: Bernardo Santos)

– Depois que saíram as indicações do Prêmio Cenym, percebemos como isso dá um visibilidade ao espetáculo. Acredito que outras indicações impulsionariam “Yank!” para conseguir patrocínios e apoios. – espera Leandro Terra – Cheguei a aceitar um furo de pauta no Teatro Ipanema para esse mês de outubro, porque era um teatro que sempre quisemos ir, e acabou que não entrou uma verba mínima que ia entrar. Tive que recusar 40 dias antes da estreia. Venho até pedir desculpas publicamente à curadoria do Teatro Ipanema, o “Vem Agora”, por ter voltado atrás, mas realmente, apesar de tudo pronto, o que mais se gasta em um musical é o som, e não teríamos nenhuma garantia de dinheiro.

Além do desejo genuíno de colocar um trabalho elogiado no palco, Leandro também acredita que é importante ter “Yank!” em cartaz neste momento sociopolítico. A história dos soldados que se apaixonam já provou seu alcance com o público. Ele conta que, na primeira temporada, um homem gay levou a mãe para assistir e ela, que nunca aceitou a sexualidade do filho, se emocionou com a peça.

– Só de pensar que a gente conseguiu fazer com que pessoas parem, pensem e reflitam sobre suas ações, que levem essas situações de uma maneira mais natural, então todo o esforço já vai ter valido a pena. E, assim, minha força e obstinação para levar esse musical em cartaz novamente aumenta. – ele diz – Agora estamos discutindo uma possível volta da censura. É um retrocesso sem igual. Esse é um espetáculo que fala principalmente de amor, de como as pessoas encaram esse amor em uma época totalmente desfavorável, que foi a Segunda Guerra Mundial. Não é muito diferente dos dias de hoje. Estamos vivendo uma guerra. Guerra de violência aqui no Rio de Janeiro. Guerra de intolerâncias e de desrespeitos. Guerra política. Estamos lutando pela igualdade dos gêneros. E acho que a cultura é uma das armas que temos para lutar contra tudo isso de ruim que está acontecendo. Com certeza, “Yank!” cumpre esse papel. É um espetáculo corajoso e necessário.

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