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Talk Radio traça retrato de “país podre até a medula” com locutor insolente

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“Nesse país onde cultura significa pornografia e violência, onde ética é sinônimo de suborno, corrupção e esquemas escusos, onde integridade é mentira, prostituição e vício. Esse país vai mal das pernas. Este país está podre até a medula. E é melhor alguém fazer algo coisa a respeito!” – a declaração é sobre os Estados Unidos dos anos 1980, mas cai como uma luva no Brasil dos anos 2010, claramente. Essa é uma das falas da peça “Talk Radio”, do americano Eric Bogosian (de “Sexo, Drogas e Rock’n’Roll”), montada por aqui com direção de Maria Maya (de “Adorável Garoto”). Mas a perspicácia de levantar o espetáculo em momento tão particular do país é do ator Leonardo Franco (de “Adorável Garoto”), que traduziu e produziu a peça, atuando no papel protagonista.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

“Talk Radio” acompanha o locutor de rádio Barry Champlain (Leonardo) em seu programa “Conversa da Noite”, no qual atende ligações de ouvintes de Ohio para, em geral, espezinhá-los. São pessoas loucas, solitárias e transtornadas que, acima de tudo, o idolatram e se sentem acaloradas por seu timbre de voz nas madrugadas. A peça se passa ao longo de uma única noite, portanto um único programa, o último antes de “Conversa da Noite” passar a ser transmitido em cadeia nacional. Ao mesmo tempo em que o espectador tem acesso aos bastidores do estúdio da rádio, também assiste às sucessivas ligações que compõe o “episódio do dia”, sem tema definido, passando por gravidez na adolescência, preconceitos, drogas, leis, transtornos psicológicos, entre outros. Barry recebe todos os telefonemas com ar de deboche e desdém, mas os ouvintes não param de ligar mesmo assim. É um programa de entretenimento doentio. Logo no início, ele descarta as fichas com as notícias do dia para dar mais atenção aos telefonemas que garantem a audiência.

O elenco é formado por outros seis atores além de Leonardo Franco: Alexandre Varella (de “Répétition”), Bernardo Mendes (de “Senhorita Júlia e a Despedida de Si Mesma”), Marcelo Aquino (de “A Estufa”), Mariana Consoli (de “Pequenos Poderes”), Raul Franco (de “Saída de Emergência”) e Stela Maria Rodriygues (de “Agnaldo Rayol – A Alma do BrasiL”). Com exceção de Bernardo, que se dedica exclusivamente a um único personagem (Kent, um ouvinte com um mínimo de destaque), todos os outros se desdobram para atender as solicitações do texto, com ouvintes diversos. Nenhum desses personagens efêmeros que telefonam tem qualquer relevância individual, o que importa é o painel que pintam em grupo. É através deles que se conhece, gradativamente, um pouco mais do protagonista e da sociedade olhada por Bogosian. Champlain corta quem não tem nada a oferecer ao entretenimento do programa, discute quando está intolerante aos estúpidos, e deixa falar quando o enaltecem ou quando se torna possível dar corda para que se enforquem. O protagonista é egocêntrico e autocentrado, um pouco como quem o telefona, julgando-se minimamente interessante como atração. É possível traçar várias metáforas a partir dessa relação de co-dependência destrutiva locutor/ouvinte, todas interessantes. Ninguém está em seu estado normal, nem o ouvinte desesperado que liga, nem o receptor, entornando garrafas e mais garrafas de bebida alcóolica enquanto trabalha.

(Foto: Divulgação)

(Foto: Divulgação)

Esse é um espetáculo que estreou na Broadway em 1987, com indicação ao Prêmio Pulitzer, e uma adaptação de Oliver Stone para o cinema, premiada no Festival de Veneza. Na montagem brasileira, que marca a segunda direção teatral de Maria Maya, vale ressaltar o clima que ela é capaz de criar. Faz-se teatro com muito pouco, e o resultado estético não tem nada de simples ou minimalista. A montagem é inteligente e significativamente visual, de maneira não óbvia, tratando-se de um programa de rádio, algo 100% sonoro. A maneira como os ouvintes aparecem e desaparecem em cima de estruturas de degraus móveis, que compõe quase que totalmente a cenografia de José Dias, é excitante. Na verdade, o cenário e os figurinos (de Luana de Sá) trabalham para que a iluminação brilhe sozinha. A luz de Adriana Ortiz é a grande marca do espetáculo, focalizando Barry e escurecendo todo o resto, o que não deixa esquecer que tudo se passa de madrugada e, esteticamente, causa um ótimo efeito com a mistura da fumaça do cigarro dele com a fumaça de gelo seco, que permeia toda a encenação.

Equívocos são poucos, como alguns desdobramentos inúteis e mal desenvolvidos pelo texto – a relação do locutor com sua assistente Linda (Stela), por exemplo, deixa a desejar. Algumas piadas também não emplacam, e o humor negro do locutor às vezes derrapa. Mas o conjunto é bom. Leonardo Franco se apropria de tal forma do personagem, que é difícil vê-lo de outra forma mesmo nos agradecimentos finais. O projeto é um acerto dele.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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SERVIÇO: sex e sáb, 21h; dom, 20h. R$ 50. 80 min. Classificação: 16 anos. Até 13 de dezembro. Teatro Solar de Botafogo – Rua General Polidoro, 180 – Botafogo. Tel: 2543-5411.

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