Trans em cena: a hora da representatividade – Teatro em Cena
Comportamento

Trans em cena: a hora da representatividade

Nos últimos dois anos, reflexões sobre identidade de gênero despontaram na cena teatral, com vários espetáculos de qualidade. A maioria, no entanto, era apresentada por atores cis, ou seja, cisgêneros, pessoas em que a identidade de gênero está em concordância com sua genital. Para esses artistas, dar vida a personagens trans revela-se sempre um desafio. Mas trabalhos assim começaram a gerar questionamentos nas redes sociais, no que concerne à representatividade: cadê os atores trans? Vão sempre falar sobre a temática sem incluir os artistas trans? Pois bem: o teatro carioca pode estar vivendo uma segunda fase no tratamento deste assunto: a cidade tem pelo menos três espetáculos teatrais com pessoas trans em cena – “Uma Linda KuaZe Mulher”, no Teatro dos Grandes Atores, “Balé Ralé”, no Sesc Copacabana, e “T.R.A.N.S. – Terapia de Relacionamentos Amorosos Neuróticos Sexuais”, que estreia dia 31 no Teatro Glauce Rocha. Em comum, a diversidade.

Julia Bernardes e Tereza Brant: casal em cena (Foto: Divulgação)

“Uma Linda KuaZe Mulher”, paródia do filme “Uma Linda Mulher”, tem um feito inédito desde sua estreia em 1999: é a primeira vez que o casal de protagonistas é formado por dois transgêneros – Julia Bernardes, que interpreta uma empregada doméstica, e Tereza Brant, que faz um cobrador de ônibus apaixonado por ela. É o primeiro trabalho de Julia após a cirurgia de redesignação sexual. “Não acredito que a cirurgia tenha alguma relevância para interpretar a personagem, porém voltar a interpretá-la é uma realização como profissional, pois tive muitos tabus e preconceitos em voltar a fazer uma peça que tem uma forte abordagem LGBT”, a atriz diz ao Teatro em Cena. Ela defende a ideia de que atores não tem sexo e muito menos gênero. Daí a parceria com Tereza Brant, homem trans, que ficou famoso na Internet, e estreia nos palcos.

Mesmo caso de Tereza, é o de Thammy Miranda, filho de Gretchen, que passou por sua transformação de gênero aos olhos de todo Brasil. Em cena, ele interpreta um surfistinha filhinho de papai, que não estuda nem trabalha, e só pensa em malhar e fazer sexo, até que a namorada o convence a fazer terapia. “O título da peça não tem nada que possa ‘enganar’ o público, ou seja: ‘ah, o título é T.R.A.N.S porque tem Thammy no elenco’ ou ‘ah, a peça se chama ‘T.R.A.N.S.’ porque é uma terapia de relacionamento com Thammy Miranda’. Não! Realmente debatemos todos esses temas no espetáculo, inclusive a do trans, ou da trans. Essa é a grande sacada desta comédia, pois tocamos sim na questão do trans, porém fica a incógnita de quem é o trans na história. Não necessariamente serei eu. O público só irá saber assistindo”, conta o ator, “acredito que hoje o público me vê como homem, pois assim me sinto e quero ser visto. No teatro, sou um ator e, como tal, posso interpretar qualquer tipo de personagem”.

Thammy Miranda interpreta surfista filhinho de papai (Foto: Helmut Hossmann)

Já o elenco de “Balé Ralé” traz a performer Blackyva, alterego de William, formado a partir das palavras black e diva. Conhecida como funkeira inspirada em Beyoncé, Tati Quebra Barraco e Shakespeare, ela atua no novo espetáculo da cia. Teatro de Extremos – a mesma de “O Homossxual ou a Dificuldade de se Expressar” (2015). A peça faz parte da Ocupação Marcelino Freire, com montagens do autor, e dá continuidade à pesquisa da cia. na reflexão das questões da diversidade. O trabalho vem colhendo elogios.

A cobrada representatividade está acontecendo. Mas os atores trans, em si, não compram essa briga para que personagens trans sejam interpretados por pessoas trans – como se vê falar nas redes sociais. Julia, Thammy e Tereza só pedem mais oportunidades para todos os atores, cis ou transgêneros. “Independentemente da preferência pessoal de cada ator, o que predomina é sua qualidade de identificação e criação do personagem. Quem garante que os atores cis também não têm seu lado trans?“, provoca Tereza. Thammy foca no lado positivo: “que bom que esta temática está vindo à tona no teatro brasileiro, assim falamos cada vez mais a respeito dessa causa que precisa sempre ser debatida…”.

Blackyva com elenco de “Balé Ralé” (Foto: Caique Luna)

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BALÉ RALÉ: qui a sáb, 20h30; dom, 19h. R$ 25 (ou R$ 6 para associados Sesc). 60 min. Classificação: 16 anos. Até 4 de junho. Sesc Copacabana – Teatro de Arena – Rua Domingos Ferreira, 160 – Copacabana. Tel: 2547-0156.

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UMA LINDA KUAZE MULHER: sex e sáb, 23h. R$ 70. Classificação: 12 anos. Até 29 de julho. Teatro dos Grandes Atores – Barra Square – Av. das Américas, 3.900 – Barra da Tijuca. Tel: 3325-1645.

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T.R.AN.S – TERAPIA DE RELACIONAMENTOS AMOROSOS NEURÓTICOS SEXUAIS: qua a dom, 19h. R$ 40. 75 min. Classificação: 16 anos. De 31 de maio até 2 de julho. Teatro Glauce Rocha – Avenida Rio Branco, 179 – Centro. Tel: 2220-0259.

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