Plantão

Transfake? Luis Lobianco enfrenta polêmica com peça Gisberta

(Foto: Elisa Mendes)

Em cartaz desde o ano passado com o monólogo “Gisberta”, o ator Luis Lobianco teve uma experiência amarga durante a passagem da turnê por Belo Horizonte. Ele foi acusado de ser “transfake” por subir no palco contando a história da transexual brasileira que dá título à peça. Para os críticos do espetáculo, Lobianco ocupa um espaço que deveria ser de uma artista trans. É um debate sobre o lugar de fala. Pelo Facebook, o ator se pronunciou: “e o teatro não seria a arte do ‘fake’? O plano harmônico das verdades e mentiras? Em 24 anos de carreira já fiz velho fake, mulher fake, criança fake, até escandinavo fake eu já fui! O que não cabe mesmo é a comparação com o ‘blackface’ por respeito a outros movimentos e à simbologia desta prática. Para todas as outras questões vamos precisar de muito tempo pra entender. O teatro é milenar e esse questionamento só chegou na classe teatral recentemente. Não é uma matemática. Não tem uma resposta só. Vamos ter que fazer muitas peças e conversar muito pra entender. Estou disponível”.

Gisberta Salce Junior, a retratada, foi uma transexual brasileira que emigrou para Portugal após ver várias de suas amigas travestis serem assassinadas. Quando estava com 45 anos, no entanto, foi vítima da intolerância e da transfobia na Europa. Durante dias, foi agredida e violentada por 14 adolescentes até morrer, no ano de 2006. Seu corpo torturado foi encontrado no fundo de um poço de 15 metros, segundo notícias da época. Ela virou um símbolo LGBT e o espetáculo, escrito por Rafael Souza-Ribeiro (de “Isopor”), ganhou apoio de sua família. Mas a presidente da ONG TransVest, a mulher trans Duda Salabert, desaprovou o trabalho, por conta do protagonismo de Luis Lobianco – um homem gay cisgênero (ou seja: órgão sexual em acordo com sua identidade de gênero). Ele, no caso, foi o idealizador do espetáculo, dirigido por Renato Carrera (de “2 x Nelson”). Para Duda Salabert, é uma questão polêmica:

– Raramente é dado a uma pessoa trans a possibilidade de protagonizar sua própria história. Tradicionalmente encontramos homens cisgêneros, de forma caricata, encarnando papeis e narrativas sobre pessoas trans. É o transfake! E para piorar, as pessoas trans são normalmente retratadas como um objeto cômico, risível e bufônico. Tal quadro é agravado quando nos deparamos com as estatísticas: 90% das mulheres travestis no Brasil estão na prostituição. Esse alarmante número é devido, entre outras questões, o fato de que mulheres trans não são aceitas no mercado de trabalho, como no teatro, por exemplo. Voltando à peça Gisberta: há, então, transfake? Sim. – diz a presidente da ONG.

(Foto: Elisa Mendes)

Segundo ela, o teatro ainda lida com pessoas trans da mesma maneira que lidava com mulheres ou negros no passado: com homens brancos cis desempenhando seus papéis. Mulheres e negros eram excluídos dos palcos (lembre-se do blackface). Lobianco discorda que esse seja o ponto em “Gisberta”. Ele ressalta que não interpreta a transexual no palco – apenas conta sua história. Ele decidiu fazer o espetáculo e investigou sobre a história de Gisberta quando descobriu que o 10º aniversário de morte dela havia passado em branco. “Nenhum artista trans ou cis desenvolvia uma pesquisa teatral profissional sobre o crime no Brasil. O conteúdo artístico mais significativo sobre o fato era a música ‘Balada de Gisberta’ do português Pedro Abrunhosa, depois gravada por Maria Bethânia”, lembra o ator, “decidi ali que eu deveria fazer alguma coisa e não esperar iniciativas que poderiam nunca vir. E o teatro, que é a minha casa, dá conta de todas as histórias. É o berço da democracia”.

O TransVest organizou um protesto na porta do teatro do CCBB em Belo Horizonte (vídeo abaixo), com cartazes e gritos por representatividade. Duda Salabert explica que, além do ator não ser trans, não há nenhuma pessoa trans na produção da montagem. “Do mesmo modo, há um total apagamento das identidades trans no quadro de funcionários do CCBB. Se a peça e o CCBB são tão preocupados com a pauta trans, por que tamanho apagamento? Por que reproduzir uma lógica excludente e transfóbica de colocar a transexualidade como objeto e não como sujeito do discurso? E sim, há varias atrizes e atores trans qualificados, formados e prontos para protagonizarem suas próprias histórias”, escreveu. Na manifestação, inclusive, havia atrizes trans presentes.

Leia abaixo os textos completos publicados por Duda Salabert e Luis Lobianco na Internet:

Comentários

comments

Share: