CríticaOpinião

Uma Vida Boa reflete intolerância contra transexuais com crueza

(Foto: Divulgação)

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O roteirista Rafael Primot (de “Um Sonho Para Dois”) se propôs a escrever uma peça baseada na história real do transexual que foi assassinado nos EUA em 1993, vítima de preconceito, ignorância e intolerância. O resultado é “Uma Vida Boa”, com direção do Diogo Liberano (“Vermelho Amargo”). O espetáculo, que traz a atriz Amanda Vides Veras (de “SIM – Senhoritas Interessadas em Matrimônio”) no papel do homem aprisionado ao corpo de uma mulher, põe luz em um tema pouco discutido, e consequentemente também pouco esclarecido. Só por isso, já merece atenção.

A peça tem muito da linguagem cinematográfica e, no fim, a impressão é de ter visto um filme*, o que é um elogio. A iluminação de Daniela Sanchez é muito importante nesse sentido, e exerce papel fundamental em vários momentos. O cenário, assinado por Brunella Provvidente, foge do óbvio e é esteticamente belo – ganhando um merecido destaque logo no início da encenação. Esses dois elementos dão o tom do espetáculo.

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Também merece atenção a atuação da Julianne Trevisol (de “Tropicanália”), que interpreta a amada do B., o jovem assassinado. É sua personagem a responsável pela marcação do tempo da história, que também é algo que lembra cinema. O texto é não-linear, entrecortado pelo passado, no qual a história ocorreu, e pelo presente, no qual a brutalidade é lembrada. A protagonista Amanda, que só aparece no passado, apresenta um trabalho delicadíssimo, bem dosado entre o masculino e o feminino, longe de qualquer caricatura. É evidente seu respeito pelo tema.

É tudo bem casado e fechado na peça. A história é dura, crua, até pesada, mas não chega a dar um soco na plateia. O espetáculo não se propõe a condenações. Apenas pede compreensão. É uma proposta típica do teatro underground e, se fosse cinema, não seria um blockbuster, mas sim um filme de festival. A temporada no Oi Futuro Flamengo termina em 1º de junho, mas “Uma Vida Boa” está acertada para ir para o Centro Cultural Justiça Federal depois da Copa do Mundo.

*A mesma história real já serviu de base para o filme “Meninos Não Choram”, que rendeu o Oscar para a atriz Hilary Swank.

Por Leonardo Torres
Pós-graduado em Jornalismo Cultural.

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